A propósito das Presidenciais
norte-americanas, muito se tem falado da Estátua da Liberdade. Mas, inexplicavelmente,
e quiçá pela imediata associação às eleições de 2008, quando a mesmíssima
canção, num vídeo produzido pelo grupo de pressão Progressive Future, serviu
para potenciar anúncios pró-Obama, não voltou a ser notícia ‘American Tune’, de
Paul Simon, aquela balada em que o narrador é um emigrante entregue à sua
sorte, resignado, confuso, esquecido, “cansado até ao osso”, capaz de hospedar
uma culpa qualquer saída do discurso do “viver acima das possibilidades” e de,
em simultâneo, cantar “E sonhei que morria/ E sonhei que, aos céus, a minha
alma ascendia// Sonhei que estava a voar/ E que lá do alto via/ A Estátua da
Liberdade/ A fazer-se ao mar”. Curiosamente, neste álbum, quem a relembra é
Allen Toussaint, compositor, produtor e pianista, um dos artífices da
modernidade mestiça em Nova Orleães e, como o emigrante de Simon – no caso, por
via da força destrutiva do furacão Katrina –, também ele instruído na arte de
recuperar de adversidades. Nesse capítulo, como é costume dizer-se, não há
maior do que a morte, mas Toussaint, que faleceu em novembro passado, em
digressão, vítima de enfarte do miocárdio, munido de uma simplicidade e
insaciedade praticamente evangélicas, até essa dá mostras de desafiar por
intermédio de um disco que, em rigor, terá tanto de póstumo quanto de póstero. Além
de Simon, Toussaint toca Fats Waller, Professor Longhair, Billy Strayhorn, Duke
Ellington, Louis Moreau Gottschalk, Earl Hines, Bill Evans, e só ele para
desviar ‘Waltz for Debby’ da cadência da valsa. Tudo gente que sabia que, antes
de ser cultural e, muito menos, nacional, a música é um fenómeno pessoal. Isto
é, que a grande “canção americana” é aquela não exclui nada nem ninguém.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Articles published on the Portuguese weekly Expresso
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17 de setembro de 2016
30 de abril de 2016
Bill Evans “5 Original Albums” (Verve, 2016) & “Some Other Time: The Lost Session from the Black Forest” (Resonance, 2016)
Helen
Keane recordava o instante em que conheceu pessoalmente Bill Evans: “O Gene
Lees achava que eu devia agenciar o Bill e levou-me a ouvi-lo no Village
Vanguard. Apresentou-mo e a verdade é que simpatizámos logo um com o outro”,
conta ela com a maior das naturalidades em “Stormy Wheather: The Music and
Lives of a Century of Jazzwomen”, de Linda Dahl. Lees, que na altura namorava
Keane e vinha de largar o cargo de editor na Down Beat, confirma-o nas cruentas
notas de apresentação que escreveu para a caixa com a integral do pianista na
Fantasy mas dispõe o matiz de outra forma: “A Helen era uma das managers mais capazes do meio artístico,
com um papel preponderante no arranque das carreiras de Harry Belafonte ou de Marlon
Brando. Levei-a a ver o Bill. ‘Oh, não,’ diz ela, para aí ao fim de 16
compassos, ‘este não – este pode vir a partir-me o coração’. Quão profético foi
esse seu reparo.” Bill Evans trabalhou com Helen Keane, que entretanto se tornou
produtora dos seus discos, de 1962 até 1980, o ano em que morreu. De modo
lapidar, Lees chamou-lhe “o mais longo suicídio da História”.
São
relações que agora saltam à memória. Aliás, quando a Riverside se afundou, foi Keane
quem conduziu Evans à Verve lançando-lhe uma boia de salvação. E a escolha de
temas como ‘What Kind of Fool Am I?’, ‘Everything Happens to Me’ e ‘Why Was I
Born?’ para a última sessão de estúdio na editora de Orrin Keepnews, fixada a
10 de janeiro de 1963 mas lançada vinte anos mais tarde, em “The Complete
Riverside Recordings”, ilustram bem o estado de espírito de Evans no momento. Em
1983, nas notas que redigiu para “The Interplay Sessions”, outro título com material
de arquivo, Keepnews foi perentório: “Era eu que assinava os cheques na
Riverside. E, dada a sua constante necessidade de liquidez, não era fácil
ser-se ao mesmo tempo amigo, produtor e editor do Bill. Não gostava da ideia de
registar música sem intenção de a editar. Mas ir acumulando datas, fazendo-lhe
adiantamentos, era a única opção ao nosso alcance. Não fosse o seu problema,
não creio que alguma vez tivesse gravado estes álbuns.”
Fala-se
de algo a que Whitney Balliett aludiu num texto perspicaz para a The New
Yorker, depois integrado em “Goodbye and Other Messages: A Journal of Jazz,
1981-1990”: “Quando tocava, afastava-se uns centímetros do piano, com as costas
completamente dobradas para a frente e a testa a roçar o teclado. Mantinha as
mãos planas, e durante a década final da sua vida raramente as desviou do
registo intermédio, como se estivessem invisivelmente atadas ao Dó central.
Esta postura abjeta, quase oratória, sugeria uma série de coisas: que Evans
estava a prestar homenagem ao seu instrumento; que estava tão debilitado pelo
consumo de drogas que não se conseguia pôr direito; que vivia subjugado pela
timidez. Esta última era provavelmente verdade, e produzia um estranho efeito numa
forma de tocar que permanecia uma disputa entre o desejo intenso de praticar
uma música totalmente privada e o idêntico desejo intenso de expressar a sua
alegria por ter encontrado semelhante música dentro de si.”
E
dir-se-ia que a sua associação à Verve, não obstante a repetição em triplicata
de qualquer testemunho seu (a qual, em 1997, deu origem aos indiscretos 18 CD
de “The Complete Bill Evans on Verve”) e ter de lidar com um comité composto
por Lees, Keane e Creed Taylor (que administrava o pagamento da sua renda de
casa e das suas contas da água, telefone, gás e luz só para evitar pôr-lhe
dinheiro vivo no bolso), resultou numa fase de enorme contentamento a fazer
aquilo de que mais gostava. “5 Original Albums” remete para aí e reúne “Trio
64” (com Paul Motian e Gary Peacock), “A Simple Matter of Conviction” (de 1966,
com Shelly Mane e Eddie Gomez), “Further Conversations with Myself” (de 1967, a
solo), “At The Montreux Jazz Festival” (de 1968, com Gomez e Jack DeJohnette) e
“What’s New?” (de 1969, com Jeremy Steig, Gomez e Marty Morell). É uma seleção
tão boa como outra qualquer, quiçá determinada pela disponibilidade atual destas
referências no mercado fonográfico, embora, resumindo-se a fac-similar originais,
não inclua as faixas extra que reedições anteriores trouxeram a lume. Mas cá
está o coloquialismo do costume, a mesma dedicação a aspetos triviais do songbook e uma equivalente obrigação de
experimentar com fórmulas estafadas, a transferência para a relação entre
tónica e dominante das complexidades da vida em casal, a capacidade de inovação
que só relutantemente se lhe reconhecia, improvisações que mostram nos standards o que exames de raios-X põem a
nu em quadros famosos.
Também “Some Other Time”, em oportuno resgate aos baús da
MPS, invoca o período – e o engenho de Keane, pois com a saída de Taylor para a
CTI desaparecia um aliado seu na Verve e havia que fazer pela vidinha, não obstante o ressurgimento de Keepnews na Milestone ter acabado por tornar supérflua a associação do seu agenciado a qualquer outra editora – através
de uma gravação inédita de Evans, Gomez e DeJohnette captada cinco dias após o
concerto do trio em Montreux, para o qual, por sinal, tinham sido convidados por
intermédio de Gene Lees. Nem de perto, nem de longe, se ultrapassava a inadequação
do baterista ao papel que tinha de desempenhar, mas um terço dos temas (em duo
com Gomez) aproxima-se da excelência e, contrariando Balliett, as extremidades
do piano estão menos entregues ao cotão, revelando um Evans inquieto, de um
lirismo ainda mais magoado. Fez-lhe bem passar pela Floresta Negra (a MPS tinha
sede em Villingen) e, ao que tudo indica, e pelo menos Gomez e DeJohnette assim
o garantem, ao longo de um mês de residência no Ronnie Scott’s este trio veio a
cumprir o seu potencial. Há aqui, até, uma ‘Turn Out the Stars’ que aponta já
nesse sentido, bela e desencantada, capaz de lembrar um poema de Thomas Hardy,
que Evans tanto lia, em que o brilho das estrelas serve apenas para sublinhar a
falta que a luz faz na Terra.
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26 de setembro de 2015
Fred Hersch “Solo” (Palmetto, 2015)
Toca
Fred Hersch e vem à lembrança um velho truísmo que costuma acompanhar os
pianistas de jazz em contacto com o cânone: aquele que mede o sucesso de cada
um pelo efeito transfigurador da sua ação. Isto é, quão mais fragmentária e
dispersa parecer a sua relação com os materiais originais mais reconhecida será.
E é verdade que Hersch prefere a distorção à decoração, nessa perspetiva destacando-se
aqui um ‘Caravan’ em ritmo de tango e um Monk apropriadamente manco. Mas, de
tudo isto, sucede que o seu inverso também não é mentira nenhuma. Com
frequência, quem o ouve é levado a crer que Hersch aprecia testar um tema para
ver o quanto ele resiste a um tratamento obsessivo às suas mãos. Talvez por isso
termine este recital a solo, captado em agosto de 2014 e editado a tempo de
assinalar o seu sexagésimo aniversário, com uma sensível, e jamais sentimental,
evocação de ‘Both Sides Now’, a canção que Joni Mitchell compôs a partir de uma
frase achada num romance de Saul Bellow para explicar que há mais de uma forma
de se olhar para cada coisa e para os demais. Sabe-o bem Hersch, que já viu a
vida dos dois lados. E, do mesmo modo, não ignora que, por vezes, como afiançava
Bill Evans numa entrevista a Marian McPartland, gosta-se tanto de uma melodia
que não se consegue fazer melhor do que tocá-la tal como ela é. Conceda-se:
Hersch é mais elíptico que Evans (que em 1975 gravou ‘People’ durante cerca de
13 minutos sem improvisar um único segundo), mas há algo dessa asserção na
maneira em como, de Jobim, enuncia ‘Olha Maria’ ou ‘O Grande Amor’. É o que normalmente
se chama de fidelidade.
12 de setembro de 2015
Bill Evans “The Complete Fantasy Recordings” (Concord, 2015)
Dir-se-ia
outra alma perdida para os berloques do esoterismo: em meados de 60, Bill Evans
era acompanhado por orquestras (Legrand, McFarland, Ogerman), tocava música
para filmes (Mancini, Ortolani, Rózsa), visitava os clássicos (Bach, Chopin,
Fauré), fazia de cicerone a Monica Zetterlund (fresquinha do último lugar
obtido no Festival da Eurovisão de 1963) e personificava o transtorno
dissociativo de identidade (“Conversations with Myself”, “Further Conversations
with Myself”). Vivia torturado por passadores de heroína, estava à mercê de
agiotas (ameaçavam partir-lhe os dedos sempre que falhava pagamentos) e, por
esses dias, mais facilmente se encontrava enfiado numa cabine telefónica de
agenda na mão e auscultador seguro entre o ombro e a orelha (pedia diariamente
dinheiro emprestado a amigos) do que em casa a tocar piano. Por tudo isso se
diz que as sessões representadas nesta integral da Fantasy, gravadas entre 1973
e 1979 e agora reeditadas, se assemelham a um renascimento. Em discos como
“Intuition”, “Alone (Again)” e “I Will Say Goodbye”, ou nos duetos com Tony
Bennett, cá estão novamente aqueles solos de infinitas matizes (Glenn Gould apelidava-o
de “Scriabin do jazz”), as construções rítmicas praticamente contraintuitivas
(Marian McPartland descrevia-as como “nadar contra a corrente”), o espontâneo coloquialismo
(com Eddie Gomez), o balanço entre candura e calculismo, o teclado como palco
de todas as vulnerabilidades mas também como acesso ao que possui cada pianista
de mais irredutível, enfim, os longos compassos agnósticos. Cumprem-se terça os
35 anos da sua morte.
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