7 de julho de 2018

Sugestões de verão


Ary Barroso “Meu Brasil Brasileiro” (Aquarela do Brasil, re. 2018)
Nos anos 50 não era assim tão comum um músico revisitar o próprio catálogo, como fez, aqui, Ary Barroso com canções suas da década de 30. Em versão pingue-pongue, o conceito estendia-se a “Um Interpreta o Outro” (também incluído nesta reedição), com Barroso e Dorival Caymmi fazendo o que o título dizia e recuperando para a era-Kubitschek um repertório muito preso aos balangandãs de Carmen Miranda.

Caetano, Moreno, Zeca, Tom Veloso “Ofertório – Ao Vivo” (Universal, 2018)
Mais uma transfusão na carreira de Caetano, desta feita indo diretamente ao cerne da questão e, ao recorrer a sangue do seu sangue, isto é, aos seus filhos Moreno, Zeca e Tom, dando até mais corpo a esta eucarística metáfora de que por ora se socorre. O repertório é transversal, muito católico e a prole até canta uma canção que lhe precedeu: ‘A Tua Presença Morena’, de 1971.

Fatoumata Diawara “Fenfo” (Wagram, 2018)
Cada vez mais apta em transferir a sua arte do domínio da poesia para o da política, e vice-versa, Fatoumata canta sobre amores separados à fronteira como se fosse capaz de antecipar ciclos noticiosos. Mas também canta sobre amores que superam fronteiras simbólicas, como a da identidade étnica. A compositora maliana não lançava um disco desde a sua estreia com “Fatou”, em 2011 – não perdeu pitada.

Gal Costa “Legal” (Elemental, re. 2018)
Tomado de uma brilhante intuição, quando a apresentou ao mundo, em 1967, Caetano disse que Gal participava da qualidade de “violentar o gosto contemporâneo”. Nem ele sabia o quanto. Três anos depois estava já a ditadura instalada, ele exilado e ela a segurar a barra da contracultura. “Legal” é um marco desse período e o despertar daquele sentimento que viria a culminar no verão das “dunas de Gal”.

Konkere Beats “Yoruba!” (Soul Jazz, 2018)
A música viaja desde que foi necessário regular o movimento dos remadores numa embarcação. Mas nunca o terá feito em tão larga escala quanto no auge do tráfico negreiro, presume-se. A partir de Lagos, na Nigéria, a Soul Jazz promove, então, um retrato da diáspora ioruba cheio de ecos de outros ecos a assaltar ouvidos e a memória (do candomblé à santería) – todas as coisas do mundo a ficar ligadas.

Shina Williams & His African Percussionists “African Dances” (Mr. Bongo, re. 2018)
A direção musical é de Biddy Wright (então, em 1979, produtor de C. S. Crew ou Lijadu Sisters) e os músicos, vindos das bandas de Tee Mac, Sonny Okosun ou Orlando Julius, os melhores que o naira nigeriano podia comprar. Faz a chamada no afrobeat mas vai já lançado pelo ar em direção ao boogie e ao coração da pista de dança. É um verão eterno que só o Golpe Militar de 1983 fez terminar.

Sonido Gallo Negro “Mambo Cósmico” (Glitterbeat, 2018)
Enquanto uns insistem em erguer barreiras, outros há que teimam em deitá-las abaixo ou a voar-lhes por cima – uma metáfora mais apropriada para descrever o que, aqui, ao seu terceiro álbum, de tanto ler realismo mágico, presume-se, ou, quiçá, de tanto ouvir os registos mais psicadélicos de cumbia colombiana e chicha peruana, faz esta trupe mexicana aos géneros musicais. Trump não lhes daria visto.

Too Slow To Disco: Brasil – Compiled By Ed Motta (How Do You Are?, 2018)
A maior parte dos temas aqui incluídos são de 1982-83 (Sandra Sá, Filó, Biafra, Brylho, Junior Mendes, Roupa Nova) e têm mão de Lincoln Olivetti e Robson Jorge. É o som do Brasil a sair da camisa-de-forças da ditadura, a fugir rumo ao futuro (eleições diretas, videojogos, Manchete) e a levar consigo um miúdo chamado Ed Motta que agora retribui o favor.

Agenda: Jazz no Parque, Funchal Jazz, Guarda in Jazz, Julho é de Jazz

Arranca o “Jazz no Parque”, em Serralves, onde, diz Rui Eduardo Paes (o programador), se vão apresentar “três projetos que contrariam a separação entre o que se considera mais acessível e popular e o que é remetido para o chamado experimentalismo”, gente que pratica “músicas que fazem bater o pé e abanar a cabeça sem que tal implique uma menor preocupação com as questões estéticas ou uma atitude menos inconformista”: refere-se ao sexteto liderado pelo guitarrista Mané Fernandes (hoje, como sempre, às 18h), ao quinteto da baterista Lucía Martínez (dia 14) e aos Naked Wolf (21), em que pontifica Luc Ex. O objetivo, então, será desfazer de uma vez por todas aquela velha e nada lícita divisão de conceitos que Paes caracteriza desta forma: “Uma especial atenção ao balanço rítmico significa frequentemente, e logo à partida, que não há uma atitude de inovação de linguagens ou vice-versa.” O que está errado, claro, conforme provou com frequência a figura que domina a agenda desta semana: o baterista Billy Hart, que dá quatro concertos com Joshua Redman, Ben Street e Ethan Iverson entre nós (dia 10 na Casa da Música, dias 11 e 12 no Hot Club e dia 13 no “Funchal Jazz”).

Aliás, esta questão do ritmo traz à memória uma entrevista que Iverson fez há uns anos a Hart (e que publicou no seu site) e na qual teve a extrema delicadeza de não perguntar quase nada. Pelo contrário, conversavam e o pianista contentava-se por sugerir uns tópicos e por fazer uns comentários em jeito de aparte. Pode dizer-se que falavam como tocavam, com Hart a superar os limites da imaginação e a transportar Iverson para uma era de feitos inacreditáveis no jazz e na vida. “Sei que, na altura, quando comecei a aparecer, o mais importante era encontrar o [meu] próprio som”, dizia. “Se não o [meu] estilo, pelo menos o [meu] som.” Depois, como quem sabe ter testemunhado milagres, falava de Louis Hayes ou de Tony Williams: “O Tony conhecia bem [o andamento da] segunda linha [das marchas de Nova Orleães]. A tradução direta dos ritmos africanos para a tarola.” Não admira que, a certa altura, Hart se refira ao jazz desta maneira: “Esse universo imenso que é como um grande avanço sociológico demonstrado pela música.” 

Até porque muito daquilo que implica de mais significativo dá mostras de desafiar a comunicação verbal: “O que mais me surpreendeu na banda do Coltrane foi o Elvin Jones. Ia vê-lo todas as noites [em que o grupo de Coltrane atuou no Bohemian Caverns, em Washington, onde Hart vivia]. No fim, (…) nem me conseguia mexer, como se estivesse preso em cimento. Ficava a olhar para o Elvin. Chamou-me, e disse: Não me peças para te mostrar seja o que for, porque [se isto pudesse ser ensinado] seríamos todos como o Max Roach.” Ora aí está alguém que Hart considera “próximo da fonte”, que trouxe para o jazz uma espécie de verdade elementar a nível rítmico: “O ritmo é tão importante quanto a harmonia na história da evolução humana. Mas na Europa estabeleceu-se um vínculo tão profundo entre harmonia e emoção que parecia não haver outro modo de fazer as coisas”, concluía. Claro que, hoje, tudo mudou. Basta prestar atenção a alguns dos outros nomes que vão ao festival madeirense: a Vijay Iyer (que tocará com o seu estelar sexteto dia 13, às 21h30, antes de Hart subir a palco), ao trio de Dave Holland, Chris Potter e Zakir Hussain (dia 14, às 21h30) e ao de Jason Moran (14; 23h). E, como é óbvio, à antiga banda de Iverson, os Bad Plus (em que entretanto se viu substituído por Orrin Evans), que toca dia 11 no Teatro Municipal da Guarda inserida no “Guarda in Jazz” e dia 12 no Gnration, em Braga, no “Julho é de Jazz”, trazendo consigo o redundantemente intitulado “Never Stop II”. Nesse mesmo ciclo, dia 13, toca Pulverize the Sound (de Peter Evans, Tim Dahl e Mike Pride), uma daquelas formações em que assenta que nem uma luva outra frase de Hart tirada da entrevista a Iverson: “Tenho tanta fé na tradição que acredito numa solução lógica até mesmo para a música mais fora.” Elementar.

30 de junho de 2018

Gordon: Clouded Yellow (Cantaloupe, 2018)

Há coisa de três, quatro anos, em conversa com o Expresso, David Harrington, o fundador do Kronos Quartet [que toca quinta-feira à noite em Lisboa, nas ruínas do Convento do Carmo], sujeitava a sua ação a modelos de causalidade mais ou menos lineares: “Para mim”, dizia, “seja ela de Tuva, da República Centro-Africana ou de Nova Orleães, a música retém o principal da reação humana ao universo. Foi obviamente individualizada pelas mais diversas circunstâncias, técnicas e práticas, mas remete para um impulso comum: que o mundo se mantenha um local reconhecível não obstante tudo o que de imenso, terrível e contraditoriamente belo sucede nas nossas vidas.” No caso de “Clouded Yellow”, do norte-americano Michael Gordon, poder-se-ia, então, falar de Efeito borboleta – inspirada pelo voo da Colias croceus (mais conhecida por Maravilha), a peça, com um motivo principal em portamento, deixa-se tomar por aquele ágil e aparentemente errático saracoteio com que Muhammad Ali aprendeu a movimentar-se num ringue. Extensível a “Potassium”, é uma prática comum em Gordon – descrevendo-a, um crítico falou no som que um carro faz a ultrapassar outro numa autoestrada. Mas, aqui, tamanha a crueza e aspereza da sua emissão, os membros do Kronos, como num daqueles grupos de power metal, parecem fazer glissandi com palhetas nas cordas de aço de uma guitarra elétrica – o compositor fala num “ato de raspagem”, em fazer rasura ao “som histórico” do quarteto de cordas de modo a começar de novo com o Kronos.

Mas claro que, na vida, por vezes, há acontecimentos que não se conseguem suprir: para tal remete “The Sad Park”, que procede sob a influência dos atentados de 11 de setembro de 2011. À semelhança do Reich de “Different Trains”, também estreado pelo Kronos, surge fascinado pelas características fonológicas do dialeto e parte de um conjunto de gravações de enorme conteúdo dramático: crianças, numa creche, a contar à educadora a sua versão dos factos logo após o sucedido (“Two evil planes broke in little pieces and fire came”, conta uma). Quando a palavra “planes”, manipulada por R. Luke DuBois, que colaborou na peça, se transforma em algo como “plaaeeiiuunss”, numa versão macabra do Efeito Doppler, deixamos de escutar o relato de uma tragédia: a voz é a tragédia.

Agenda: Jazz im Goethe-Garten


Quando quis ver o mundo, o jazz andou de porta em porta, à procura de casa emprestada. Foi assim em 1946, na primeira Australian Jazz Convention, quando meia-dúzia de músicos acompanhou uma excursão rio Yarra acima e se apresentou de armas e bagagens em Eureka Hall, num subúrbio de Ballarat, Vitória. Já com devida pompa e circunstância se receberam Louis Armstrong, Django Reinhardt e Stéphane Grappelli na Ópera de Nice, em 1948, embora a fama tenha ficado toda para as jam sessions no Negresco. Por sua vez, em julho de 1954, foi o casino de Newport, no estado de Rhode Island, a acolher Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Lee Konitz, Eddie Condon, Oscar Peterson, Gerry Mulligan ou Dizzie Gillespie. Cada qual à sua maneira, três eventos que reclamam o título de primeiro Festival de Jazz da História. Claro que, com o passar dos anos, os infinitos desdobramentos e inevitáveis desmultiplicações do seu conceito-chave engendraram programas fadados a soçobrar sob o seu próprio peso: salvo raríssimas exceções, exatamente aquele tipo de atuações incapaz de gerar espanto, desprovido de incerteza e risco e espírito de aventura e que se diria seguir no sentido contrário à deontologia da coisa. Mas desesperar, jamais, como é costume dizer-se. Porque o jazz prospera sempre que alguém atira a prudência pela janela, eis que chega mais uma edição do Jazz im Goethe-Garten ao jardim do Goethe-Institut, em Lisboa: são seis concertos, sempre às 19h, e que arrancam dia 3 com o trio de Gonçalo Almeida, Rodrigo Amado e Marco Franco (na foto, por Vera Marmelo), autor, no ano passado, do extraordinário “The Attic”; dia 4, outro trio, o neologista Chaosophy, devoto do humor mais contrariador; dia 5, o quarteto de Gabriele Mitelli, numa espécie de fluxo de consciência mas também de corrente elétrica; dia 6, o heterónimo Heinz Herbert Trio (dos irmãos Ramon e Domenic Landolt e de Mario Hänni), algo como jazz em transtorno dissociativo; dia 12, o duo de Katharina Ernst e Martin Siewert, que não se deverá ficar pela sua habitual delicadeza de casa de bonecas; dia 13, a encerrar, a casa vem abaixo com os demolidores Gorilla Mask.

23 de junho de 2018

Joe Lovano & Dave Douglas Sound Prints “Scandal” (Greenleaf, 2018)

Lovano e Douglas entraram em estúdio a 4 de setembro de 2017 para gravar este disco, que batizaram “Scandal”. E, de facto, tinha sido um verão perfumado por incontáveis ofensas ao pudor. Bastava seguir o que um títere como Trump dizia pela cimeira do G20, pela visita oficial a Paris ou pela conta de Twitter: o Presidente declarava-se vítima de fraude eleitoral, repudiava Putin, provava-se transfóbico, atacava o ‘Obamacare’, sancionava Maduro, condenava a “violência de ambos os lados” em Charlottesville e ameaçava “fechar o governo” se o Congresso não financiasse o muro ao longo da fronteira mexicana. Mas seria outro escândalo que os músicos tinham em mente: “Nós não estamos a seguir as regras do jazz”, explicava Douglas, num comunicado da sua editora. “O ‘escândalo’ em questão”, prosseguia, “refere-se a esta nossa capacidade de colocar continuamente em causa tudo aquilo que se supõe ser a improvisação”. Até porque, conforme concluía, lidar com o “desconhecido tornou-se hoje tão raro quão arriscado”. Afinal, sempre se está a falar de política. Por isso, porque se trata de alguém que, diz Lovano, “na música e na vida nos inspira a sermos quem somos independentemente das lutas sociais que tenhamos de travar”, mantêm este quinteto sob a tutela artística de Wayner Shorter – a quem agradecem, em notas de apresentação, a “destemida liderança em tempos tão tumultuosos”. 

Aliás, em setembro de 2013, quando Douglas, Lovano, Baron, May Han e Fields tocaram ao vivo pela primeira vez, no Festival de Monterey, estrearam duas peças de Shorter, ‘To Sail Beyond the Sunset’ e ‘Destination Unknown’ – daquelas cujos títulos parecem saídos do diário de bordo da USS Enterprise, quando em “Star Trek” se anunciava que a sua missão era “audaciosamente ir onde nenhum homem alguma vez foi” (alertem-se as feministas: a enfermeira Chapel e a tenente Uhura também faziam parte da tripulação). “É trabalho para uma vida inteira”, dizia Shorter, ao Expresso, em 2014, referindo-se ao facto de ser indispensável entender a “diferença entre o bem e o mal (…) quando se exerce um ofício que nos obriga à total cumplicidade com o momento”. E, depois, tirava a seguinte ilação: “Exprimimo-nos em termos dualísticos mas a mim preocupa-me mais sublinhar o que há de comum em tudo aquilo que nos separa.” Não há maior motor para o que faz, aqui, este quinteto (que, de Shorter, toca ‘JuJu’ e ‘Fee-Fi-Fo-Fum’): cantar em honra dos que insistem em contemplar as estrelas quando passam o dia a olhar para o chão.