15 de outubro de 2016

Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra & SeixalJazz



Agustí Fernández* (na foto) senta-se ao piano de cauda por convenção, mas o concerto começa apenas quando se torna a pôr de pé. Ignora o teclado e estende a cabeça sob a tampa como quem espreita pela boca de uma gruta para ver se lá consegue entrar. Alto, magro, calvo, com o busto inclinado para a frente, lembra o “Homem que Caminha”, de Giacometti. Apoia-se sobre o braço esquerdo e estende para o lado a mão direita, que sacode como se estivesse dormente e que abre e fecha de forma praticamente fisioterapêutica. Às apalpadelas num conjunto de peças soltas, pega, enfim, num bloco de madeira e começa a percuti-lo no interior do piano. Com a outra mão agarra numa medalha de bronze e arrasta-a com força sobre as suas cordas, como a professora que arranha o quadro da sala de aulas com as unhas para chamar a atenção dos alunos. Na assistência, há seguramente quem o situe antes entre a figura do cirurgião e a do mecânico, por exemplo, que só depois de pegarem no bisturi ou na chave de fendas é que dão conta da dimensão do estrago. Agustí possui um interesse anatómico pelo instrumento que toca, cujos constituintes esgravata e arrebunha e ofende repetidamente. E há algo vagamente desumano na maneira em que dele se aproxima e se afasta, em que anda à sua volta e lhe explora o flanco. Traz à memória um jogador de snooker a circundar a mesa e a calcular a tacada correta. Quando finalmente passa os dedos pelas teclas apanha a plateia de surpresa: é que, durante uma fração de segundo, escutar um piano a ser tocado de dentro para fora, sem intervenção dos martelos, foi a coisa mais natural do mundo.

Isto passou-se há oito dias, no Barreiro, no âmbito do Out.Fest, e é provável que se repita já na próxima quinta-feira, dia 20, pelas 19h, no Convento São Francisco, em Coimbra, um dos palcos da 14ª edição dos Encontros Internacionais de Jazz da cidade. Com o espanhol planeiam estar Hugo Antunes, Roger Turner e John Butcher, nomes que têm em comum essa fascinante capacidade de virar o jazz do avesso. Curiosamente, logo após essa atuação, será como as suas costuras nunca tivessem estado à mostra quando, às 22h, o quinteto de Sandro Norton tirar as medidas a Gary Burton e a Maria João. Na mesma noite, destaque-se ainda o encontro de Eve Risser com Marcelo dos Reis (23h30, Salão Brazil). Na sexta-feira o festival ficará menos católico ao receber Mette Henriette (Igreja de São Francisco, 19h) e a Orquestra Nomade (Salão Brazil, 22h30) e no sábado estará mesmo ímpio, com o trio de Marc Ribot.

Quase a atingir a maioridade está o SeixalJazz, na 17ª edição. Arranca dia 21, com a apregoada “estreia em Portugal continental” do quinteto de Dino Saluzzi (os concertos são sempre às 22h, no Fórum Cultural). Há alguma ostentação no anúncio, que podia referir que o argentino já tocou no país com outras formações, e há uma citação de Jean-Jacques Rousseau que vinha a calhar (até porque o mesmo quinteto toca três dias antes na Casa da Música), mas trata-se de um conjunto que conseguiu manter a sua inocência tão intacta que nada se ganha em esmiuçar o assunto. Vinda de Coimbra, também Henriette tem queda para o angelismo (dia 22). O festival prossegue com o quinteto de Gonçalo Marques (26), com o fantástico Grand Valis, de Hugo Carvalhais (27), e com o quarteto de Ricardo Toscano (28). Encerra com um recital a solo de Colin Stetson (29) que contrariará todas as expetativas da sua condição.

* Declaração de interesse: no verão de 2008 sugeri a Agustí Fernández que gravasse um disco inspirado pela música espanhola para piano do século XX, enviando-lhe, para o efeito, um par de CDR com cerca de 40 peças de Albeniz, Granados, Falla, Guridi, Mompou, Blancafort, Turina, Gerhard ou Garbizu. Esse disco acabou por ser produzido com o título de "El laberint de la memòria" e editado pela Mbari em meados de 2011. Está já esgotado.

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