13 de outubro de 2018

Agenda: Carla Bley, Jazz ao Centro, SeixalJazz

Já se passaram mesmo 50 anos desde que Carla Bley deu início à gravação de “Escalator Over the Hill”? Não custa a crer, claro, tendo em conta este trio de tanta cordura e candura em que hoje se concentra, e que, em concerto, costuma preferir ficar num canto a cochichar do que a comandar atenções no meio do palco. Dir-se-ia uma postura diametralmente oposta à de outrora, quando as suas produções se assemelhavam a um filme de série B em que um Rolodex ganhasse subitamente vida e pusesse os seus cartões-de-visita a gritar uns com os outros – em “Escalator…”, entre muitos mais, entravam Jack Bruce, Linda Ronstadt, Sheila Jordan, Jeanne Lee, Charlie Haden, Enrico Rava, Gato Barbieri, Don Cherry ou John McLaughlin. Era um tempo em que as suas orquestrações pareciam fazer aos músicos o que a laca fazia ao seu cabelo – desafiavam-lhes a vontade própria ao mesmo tempo que lhes impunham uma forma algo excêntrica. Também isso se foi alterando com os anos. Mais visivelmente através deste trio, esse organismo vivo que é a obra de Carla Bley foi ganhando uma dimensão não exatamente humana mas, isso sim, mais pessoal. Isto é gente que se conhece há muito: Carla e Steve Swallow são casados, e desde que chamou o baixista para produzir o seu primeiro disco a solo (um homónimo, lançado em 1987) Andy Sheppard nunca mais largou o casal – em 1995, editaram “Songs With Legs”, gravado ao vivo durante uma digressão europeia. E é outra tour que os traz, agora, a Portugal: tocam dia 26 no Convento de São Francisco, em Coimbra, e dia 27 no Fórum Cultural do Seixal, no âmbito dos festivais Jazz ao Centro e SeixalJazz respetivamente. Por sinal, são um dos pontos altos dessas programações, em que se destacam ainda, em Coimbra, Sylvie Courvoisier & Mary Halvorson (17), Rodrigo Pinheiro/Gabriel Ferrandini/ Pedro Sousa (18), André Fernandes (19), Lokomotiv (20) ou o LAN Trio, de Mário Laginha (27), e, no Seixal, Mark Guiliana (18), José Salgueiro (19) ou Aaron Parks (20). Não possuirão tanto as instruções genéticas do jazz no seu ADN quanto Carla, mas reconhecer-lhe-ão as características hereditárias.

Vivaldi: Sonatas For Cello & Basso Continuo (Harmonia Mundi, 2018)

Há, hoje, muitas formas de caracterizar Antonio Vivaldi. Uma delas, porventura algo dissimulada, será retroceder – andando para trás como o comboio de Chelas, como antigamente se dizia – até ao momento em que J. S. Bach se dedicou às transcrições de “L’estro armonico”: nomeadamente à do “Concerto Nº 10”, em Si menor, cuja altura modificou, descendo um grau, para Lá menor, e cuja extravagância solista transpôs, e elevou, de quatro violinos para quatro cravos – uma “intrigante luta estilística entre o apetite alemão pela complexidade e a apetência italiana pela lucidez”, conforme assinalou Christopher Hogwood. A referência não é inocente, como é óbvio: não fosse o revivalismo do século XIX em torno da obra de Bach e sabe-se lá o que teria conseguido rebocar o revolucionário arcaísmo de Vivaldi para o século XX. Nessa medida, a certa altura, estávamos todos como “O Menino Selvagem”, de François Truffaut (1970), cujo despertar para a consciência de si e do mundo foi feito ao som do “Concerto para Flautim”, RV 443. Aliás, adaptando as palavras do maestro e cravista inglês, enquanto ia sendo redescoberto e reavaliado Vivaldi foi sobretudo ilustrando o desejo por velocidade que distinguia a sociedade da era moderna: e a tal “luta estilística” poderia agora descrever os anúncios da BMW ao som de “As Quatro Estações”.

Talvez como reação a isso, há 30 anos, quando gravou estas “Sonatas para Violoncelo”, com Christophe Coin como solista, tenha Hogwood optado por mostrar um Vivaldi menos exuberante, mais introspetivo, sem aquele frenesi que, na partitura, de tão apressadas, levava as notas a tropeçar nas linhas do compasso. Ora, aqui, Jean-Guihen Queyras (o baixo contínuo é assegurado por Michael Behringer, em cravo e órgão, Lee Santana, na tiorba, e Christoph Dangel, ao violoncelo) parece devolver as sonatas ao seu estado primitivo, acentuando-lhes cor e contraste sem comprometer uma elegância arquitetural de conjunto, com tempos rápidos, então, particularmente vivos e vigorosos e com a típica volubilidade de um bailado. Tudo é tangível e posto em relevo, tudo refulge e se enleva até se tornar incorpóreo e elementar – água, terra, fogo e ar a dançar na voragem dos séculos.

6 de outubro de 2018

Agenda: Andy Sheppard, Nate Wooley, Egberto Gismonti, Outono em Jazz

O jazz funciona muitas vezes como uma música de proximidade. Aliás, no seu começo, parecia já de tal modo íntimo dos seus comunicadores e confidentes que foi batizado com uma expressão extramusical. Um facto que nunca deixou de surpreender teóricos, a ponto de Gunther Schuller o considerar acima de tudo um “fenómeno sociológico”. Volvidos mais de 100 anos desde a sua fixação em disco, continua a eludir restrições mais categóricas – o que não deixa de constituir prova da enorme capacidade de adaptação das suas células radicais. Uma condição, claro está, que se dirá relativa a múltiplas direções. Andy Sheppard [na foto], por exemplo, cuja aproximação social e afetiva a Portugal terá feito aumentar a familiaridade da paróquia com a sua obra desde que há coisa de um ano se mudou para a zona de Mafra, em entrevista a “Jazz.pt”, afirmou: “A certa altura, quando estava em Londres, estive muito ativo na cena free. (…) É uma música que acontece no momento, é muito libertadora. Mas comecei a achar que era estranhamente restritiva. (…) Também é bom ser livre dentro de uma estrutura, e pessoalmente acho isso mais interessante.” Enfim, será algo a que as suas plateias saberão responder: toca hoje à noite em Lisboa, no Hot Clube, e antes de acabar o mês subirá ao palco do SeixalJazz com Carla Bley. Outro músico que reflete sobre coisas do género é Nate Wooley – “o debate sobre o que não é, nem deixa de ser jazz é o exemplo acabado de uma dinâmica social que gera dano e desunião”, escreveu em “Sound American”, a propósito de um inquérito que promoveu junto de 50 compositores e instrumentistas. Então, concluiu, a maior parte dos inquiridos não se mostrou interessada em falar de exclusão. Uma “reação natural”, considerou, “tendo em conta que se há coisa que define historicamente este debate é o desejo expresso por alguns grupos de não admitir a entrada a certos indivíduos na tradição do jazz” – toca dia 10, a solo, no ciclo “Solilóquios” do Yoga Sobre o Porto. Na mesma semana, dia 9 na Casa da Música e dia 15 no Casino Estoril, estará entre nós Egberto Gismonti, de que também se diz ter o hábito de transcender classificações quando o que sempre fez foi inventariar um repertório próximo das raízes do jazz a que poucos prestaram atenção. Um interesse do Outono em Jazz, na Casa da Música, em que se destaca Tarkovsky Quartet (domingo), Ambrose Akinmusire (23) e Rudresh Mahanthappa (28).

Jess Sah Bi & Peter One “Our Garden Needs Its Flowers” (re. Awesome Tapes From Africa, 2018)

Em 1995, triplicando no espaço de uma década, qualquer coisa como 30% dos costa-marfinenses viviam abaixo do limiar de pobreza. Longe iam os tempos do miracle ivoirien, como é óbvio, quando a taxa de crescimento económico anual do país, alavancada pela exportação de cacau, se mantinha nos dois dígitos. Então, complicando a sucessão de Félix Houphouët-Boigny, amotinava-se o exército, mobilizavam-se grevistas e, pior, em campanha para as presidenciais, Henri Konan Bédié começava a falar de ivoirité. Jess Sah Bi e Peter One, que dez anos antes tinham visto as suas músicas adoptadas por movimentos estudantis (“Todos juntos/ Em torno do nosso objetivo”, cantavam, em ‘Katin’; “Porquê os pobres? Porquê os ricos?”, interrogavam-se, em ‘Kango’; “Lembrem-se: estão a lutar pelos vossos direitos”, esclareciam, em ‘African Chant’), perceberam que não havia volta a dar e calmamente fizeram as malas. Partiram em direção aos Estados-Unidos, passando as noites nos beliches da diáspora e os dias em biscates, até assentar um em São Francisco e outro em Nashville, a capital daquilo que faziam: música country

Hoje, em depoimentos coligidos para as notas de apresentação desta reedição, recordam anos dourados passados a ouvir Kenny Rogers, Dolly Parton, Simon & Garfunkel, Cat Stevens ou Crosby, Stills & Nash – em 1985, ao gravar este pastoral “Our Garden Needs Its Flowers” nos estúdios JBZ, em Abijão, estavam, pelo menos em espírito, a preparar-se para fazer o caminho inverso ao do Johnny Copeland de “Bringin’ It All Back Home”, que, na mesma altura, no mesmo lugar, procurava a raiz africana do blues. Na medida em que, do período, através de compilações como “Ivory Coast Soul” e “Akwaba Abidjan”, vêm mais depressa à memória produções hedónicas do que edénicas (o jardim titular é o bíblico), o retrato é algo excêntrico – de facto, pouco aproxima Jess e Peter a luminárias da música popular ebúrnea como Ernesto Djédjé, Pierre Antoine, Moussa Doumbia, François Lougah ou De Frank Kakrah. Mas agora, porque se vive um momento em que se volta a falar da queda do Homem, nada borra a fotografia.

29 de setembro de 2018

Shostakovich: Symphonies Nos. 4 & 11 (Deutsche Grammophon, 2018)

Em depoimento, Andris Nelsons sugere ter prestado especial atenção à caracterização fisionómica de Shostakovich: “Era uma pessoa nervosa. Quando vemos o seu aspecto, em fotografias, e, depois, o confrontamos com a música que escreveu, há ali qualquer coisa que não bate certo, que não se equivale.” Muito pelo contrário – e nem será preciso citar o Aristóteles de “Analíticos Anteriores”, por exemplo. Aliás, a má catadura de Shostakovich em tempo algum disfarçava o profundo desconforto que sentia, com aquele jeito tímido e tenso constantemente traído por movimentos involuntários – as mãos que não paravam quietas, o corpo que parecia encolher-se para caber dentro do fato, óculos que de tão graduados dificultavam o contacto visual, remoinhos que desalinhavam um penteado em tudo o resto convencional. Além daquela expressão que tinha colada ao rosto: algo como raiva, receio e ressentimento misturados. Nessa perspetiva, por sinal, dir-se-ia que nenhuma sinfonia quanto a quarta será tão fiel reflexo de si: ou melhor, se quisermos ser rigorosos, do Mahler que há em si, pois, aqui, embora o regurgite de modo particularmente bilioso e violento, Shostakovich deixa vir ao de cima o que havia assimilado do alemão. 

Disso não terá Nelsons dúvidas: raramente se gravou uma ‘quarta’ tão marcada pela atribulação e pela agrura e, também, pelo rancor e pela repulsa face ao que, então, passava por solidariedade de interesses. Um mundo – o da política – em que Shostakovich nunca devia ter entrado e do qual jamais saiu: em consequência de um depreciativo editorial no “Pravda” de janeiro de 1936 não teve outro remédio senão cancelar a estreia da sinfonia e ir para casa aguardar que a NKVD lhe fosse bater à porta naquele padrão “bem marcado, insuportavelmente explícito”, Nadezhda Mandelstam dixit. Como complemento Nelsons propõe a “Sinfonia Nº 11”, inspirada pelos eventos de 1905 junto ao Palácio de Inverno de Nicolau II – ou pelos da Revolução Húngara de 1956? Não se sabe. No Palácio de Inverno da mente estava já Shostakovich exilado. Pior: Nelsons dirige-a como se o seu autor viesse da Península de Shostakovich, na Antártica, onde ninguém vive e nada mais se sente que uma calma de morte.