27 de outubro de 2012

Staff Benda Bilili “Bouger Le Monde” (Crammed, 2012)



Numa entrevista de março de 2009, disponível no site do Expresso sob a designação “Música no coração das trevas”, dizia Renaud Barrett, um dos autores do documentário “Benda Bilili!”, que ninguém queria saber desse bando de paraplégicos e meninos de rua de Kinshasa, acrescentando: “fomos filmando o seu dia-a-dia sem saber bem o que fazer com aquilo… A sobrevivência dos membros do grupo, os miúdos a dormir no chão, as histórias das prostitutas de um dólar, os soldados completamente drogados, ladrões por todo o lado. Ninguém consegue imaginar aquilo por que passaram”. Três anos depois, no embalo de uma história que testemunhava a resiliência do espírito humano e a capacidade de contrariar a mais adversa das sortes no mais hostil dos terrenos, já o beneplácito crítico consagrado ao álbum de estreia, “Très Très Fort”, a eufórica receção em palcos do mundo inteiro (Portugal incluído) e o próprio palmarés do premiado filme constituem parte significativa de uma narrativa de aceitação global que demoliu todo o tipo de preconceitos sem ceder à condescendência do politicamente correto. E, no entanto, como não poderia deixar de ser, vozes céticas se ergueram acusando os agentes ao seu serviço de terem precisamente explorado aquilo a que nenhuma outra banda do mundo se nega: o direito de falar sobre o lugar de onde vem e de refletir sobre a única vida que conheceu. Não será por passarem a ter telhados sobre a cabeça, alimentarem famílias, matricularem filhos na escola ou exornarem ainda mais as suas motas que os membros da banda alteram agora essa primitiva realidade. Porque “Bouger le Monde” torna a reforçar a identidade cultural da rumba congolesa como uma infiltração de humanidade num charco de malevolência e a ouvir-se como um manifesto contra as paralisantes forças da comiseração no mundo inteiro.

20 de outubro de 2012

Tamba Trio “Tempo” (Soul Jazz, 2012)



Sopravam ventos de mudança e logo em janeiro de 64 chegava Bob Dylan com ‘The Times They Are a-Changin'’ munindo de poesia os que lutavam contra a iniquidade na sociedade norte-americana. No Rio de Janeiro, na mesma altura, mas à cautela, um Tamba Trio com militância no esquerdista Centro Popular de Cultura, da União Nacional de Estudantes, falava dessa iminente transformação social de forma mais abstracta. Até porque, sendo ainda este Tamba o de Luiz Eça (piano), Bebeto Castilho (sopros e contrabaixo) e Hélcio Milito (bateria e percussão) – formação que se reencontraria apenas no início da década de 70 –, não deverá a escolha de título do seu terceiro álbum proceder da tomada de consciência de que lhe escassearia em breve aquilo que à música nunca faltava. O tempo, precisamente. Por outro lado, era igualmente possível que se tentasse aqui tomar o pulso de algo porventura mais intangível: a improvável união entre o jazz brasileiro pós-bossa nova e a canção de intervenção patenteada por Carlos Lyra, Edu Lobo, Sérgio Ricardo ou Geraldo Vandré. É nessa indeterminada encruzilhada que o Tamba, no caso coadjuvado pelo violão de Durval Ferreira e um naipe de violoncelos (não creditados), fixou um crucial campo de acção a que jamais regressaria com semelhante acuidade. E foi a partir dessa disposição que produziu matéria diversa daquela que, nesse mesmo ano, promulgaram brilhantemente cúmplices seus como Luiz Carlos Vinhas, Meirelles e os Copa 5, Cobras, Tenório Jr., Flora Purim, Gatos, Sérgio Mendes, Ipanemas, Eumir Deodato, Sambalanço Trio, Cinco-Pados, o Som 4 de Hermeto Pascoal ou o 3-D de Antonio Adolfo. Mas, na frente política, o Golpe Militar de 31 de Março mergulharia em sombra a primavera. E, já o “Getz/Gilberto” o provava, para esta geração, a liberdade implicaria o custo de se viver longe de casa.

Suggested listening:

“A Arte Maior de Leny Andrade”, Leny Andrade
“A Nova Dimensão do Samba”, Wilson Simonal
“Bossa Nova Bossa Nova”, Pedrinho Mattar Trio
“Conjunto Som 4”, Conjunto Som 4
“Embalo”, Tenório Jr.
“Flora é M.P.M”, Flora Purim
“Ideias”, Eumir Deodato
“Luiz Eça e Cordas”, Luiz Eça
“Nova Dimensão”, Lyrio Panicali
“Novas Estruturas”, Luiz Carlos Vinhas
“O Som”, Meirelles e os Copa 5
“Os Cobras”, Os Cobras
“Os Gatos”, Os Gatos
“Os Ipanemas”, Os Ipanemas
“Os Tatuis”, Os Tatuis
“Samba Nova Concepção”, Os Catedráticos
“Sambalanço Trio”, Sambalanço Trio
“Trio 3-D”, Trio 3-D
“Você Ainda Não Ouviu Nada”, Sérgio Mendes & Bossa Rio
“Zero Hora”, Sambossa 5

13 de outubro de 2012

Cumbia Beat Volume 2: Tropical Sounds from Perú 1966-1983 (Vampisoul, 2012)



Eram tempos de engenharia social, no mesocrático Peru de Juan Velasco Alvarado. Mas a sediciosa onda que se ergueu no mar das Caraíbas, vinda de Cuba, chegada à costa colombiana e assomando aos Andes, dir-se-ia um composto lisérgico capaz de despertar mentes e estimular um bizarro código de transgressão estética solidamente ancorado nos mais alienados espíritos. E só mesmo a distância das elites impediu que um acto de transubstanciação tão similar ao ensaiado pelos tropicalistas brasileiros, ainda para mais com mestiça fundação, escapasse a constrangimentos de classe. Ficou por isso, porventura até à década de 80, quase totalmente periférica aos centros de poder esta profética variedade da cumbia que acelerou partículas de son, bolero, rumba, merengue ou mambo no acompanhamento de hipotéticas e heterodoxas reconfigurações tão devedoras do rock’n’roll norte-americano que se ouvia na rádio quanto do folclore andino que as províncias amazónicas e os bairros de lata de Lima celebravam. E foi, de facto, a partir de 1966 que a sincrética composição despontou como uma mutante entidade tropical. Logo atestada pelas guitarras elétricas de Enrique Delgado e Manzanita, e de legiões de seguidores, reflectiu períodos de convulsão política, paranóia militar, reação oligárquica, golpes e contragolpes numa utópica combustão que uns viam como virose de bailarico de sábado à noite e outros como uma abrangente ação contracultural. E adotando o livro de estilo do rock psicadélico e de garagem (efeitos de delay, fuzz, overdrive, wah wah, etc), os seus agentes promulgaram uma delirante realidade ameríndia na era de todas as fantasias ideológicas. Esta nova antologia de 34 temas – com Destellos, Juaneco y su Combo, Ecos, Compay Quinto, Mirlos ou Beta 5 – traça-lhe impacto epocal ambicionando a eternidade.

6 de outubro de 2012

Don Cherry “Organic Music Society” (Caprice, 2012)



Estamos em Bollnäs, na Suécia, a 23 de junho de 1971, num campo de férias para estudantes de música; Don Cherry, acompanhado pelo percussionista Okay Temiz, surge como professor convidado e, insistindo mais em entoação do que em notação, ensina a cerca de 50 instrumentistas ‘Bra Joe From Kilimanjaro’, do pianista sul-africano Dollar Brand e ‘Terry's Tune’, do compositor norte-americano Terry Riley, com uma indicação crucial: não há líder; os alunos terão de se ouvir uns aos outros para que se encontre o tempo natural do grupo. Onze dias mais tarde, na cúpula geodésica arquitetada por Buckminster Fuller para os jardins do Museu de Arte Moderna de Estocolmo, com os turcos Temiz e Maffy Falay ou o flautista sueco Tommy Koverhult, apresenta-se no âmbito da exposição “Utopia & Visões” tocando temas indianos, o ‘The Creator Has a Master Plan’, de Pharoah Sanders e Leon Thomas, e uma balada que no álbum “Relativity Suite”, a gravar com a Jazz Composer’s Orchestra, ganhará o título de ‘Desireless’. Já a 28 de julho de 1972, com a companheira, Moki Karlsson, numa comuna nos arredores de Copenhaga, na Dinamarca, está desde a noite anterior a aprender um hino cantado por um jovem brasileiro; às 6 da manhã regista enfim ‘North Brazilian Ceremonial Hymn’ a dez vozes, com Moki à tambura e Naná Vasconcelos, o visitante, no berimbau. “Organic Music Society” é feito disto: uma espécie de gnose em transe comunitário com infinita capacidade de encantamento e regeneração ritualista de credos holísticos e panteístas. Lançado há 40 anos e só agora reeditado em CD, é também o ponto na carreira de Cherry – onde cabe ainda uma sessão com Bengt Berger, Christer Bothén ou Hans Isgren a evocar China, Mali, Marrocos e Índia – em que todo o tempo (passado e futuro) flui e, como tal, vive melhor na mente do que no mundo; será essa a sua única derrota.