27 de outubro de 2012

Staff Benda Bilili “Bouger Le Monde” (Crammed, 2012)



Numa entrevista de março de 2009, disponível no site do Expresso sob a designação “Música no coração das trevas”, dizia Renaud Barrett, um dos autores do documentário “Benda Bilili!”, que ninguém queria saber desse bando de paraplégicos e meninos de rua de Kinshasa, acrescentando: “fomos filmando o seu dia-a-dia sem saber bem o que fazer com aquilo… A sobrevivência dos membros do grupo, os miúdos a dormir no chão, as histórias das prostitutas de um dólar, os soldados completamente drogados, ladrões por todo o lado. Ninguém consegue imaginar aquilo por que passaram”. Três anos depois, no embalo de uma história que testemunhava a resiliência do espírito humano e a capacidade de contrariar a mais adversa das sortes no mais hostil dos terrenos, já o beneplácito crítico consagrado ao álbum de estreia, “Très Très Fort”, a eufórica receção em palcos do mundo inteiro (Portugal incluído) e o próprio palmarés do premiado filme constituem parte significativa de uma narrativa de aceitação global que demoliu todo o tipo de preconceitos sem ceder à condescendência do politicamente correto. E, no entanto, como não poderia deixar de ser, vozes céticas se ergueram acusando os agentes ao seu serviço de terem precisamente explorado aquilo a que nenhuma outra banda do mundo se nega: o direito de falar sobre o lugar de onde vem e de refletir sobre a única vida que conheceu. Não será por passarem a ter telhados sobre a cabeça, alimentarem famílias, matricularem filhos na escola ou exornarem ainda mais as suas motas que os membros da banda alteram agora essa primitiva realidade. Porque “Bouger le Monde” torna a reforçar a identidade cultural da rumba congolesa como uma infiltração de humanidade num charco de malevolência e a ouvir-se como um manifesto contra as paralisantes forças da comiseração no mundo inteiro.

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