Há cerca de três anos, nestas
mesmas páginas, e a pretexto de uma antologia dedicada a Issa Juma, aventava-se
da possibilidade de se transferir para nomes como Kakai Kilonzo, Victoria Jazz
Band, International de Nelly, Super Volcano, Super Mazembe, Shika Shika, DO 7,
Migori Super Stars ou Gem Lucky Band a curiosidade então revelada pela produção
do emigrado cantor tanzaniano, quiçá resgatando ao esquecimento essoutros determinantes
agentes na singular ecologia criativa de Nairobi nas décadas de 70 e 80. “Kenya
Special” não corresponde inteiramente à pretensão, mas inclui um fulgurante par
de temas da Super Volcano (de Mbaraka Mwinshehe) e dos DO 7 (de Daniel Owino
Misiani), além de coligir raras e definitivas emissões de grupos como Kalambya
Boys, Gatanga Boys, Lulus Band ou Eagles Lupopo (também conhecidos enquanto
African Eagles) e de insignes importações congolesas, como foram as Orchestre Vévé
Star (de Verckys) e Orchestre Baba National (de Baba Gaston). Mas, por defeito,
fica aquém de compor – nas especialidades da rumba em suaíli, do benga e do kamba – um decisivo retrato de tudo o que de mais distinto
potenciou o período na capital queniana. Porque ignorar ainda Ashantis, Orchestra
Makassy, Air Fiesta, Abana Ba Nasery, Orchestra Virunga ou Simba Wanyika
implica saltar etapas fundamentais na gestação de uma das mais frenéticas e sincréticas
realizações artísticas em solo africano. Só que, ao reunir esquivos ensaios de funk, soul e afrobeat (estilos igualmente
estranhos por estas paragens), fornece inesperadas peças para o remate deste
mosaico e, talvez por contrariar a versão oficial dos acontecimentos, até se
aproxima da verdade dos factos, em todo o seu anacrónico, ambivalente e paradoxal
esplendor – aquele cujo valor contemporâneo é cada vez mais difícil de
discernir.
CUÍCA DODECAFÓNICA
Críticas publicadas no semanário Expresso e no Doodles / Reviews published on the weekly Expresso and on Doodles
18 de Maio de 2013
Rodrigo Amado Motion Trio + Jeb Bishop “The Flame Alphabet” (Not Two, 2012-13)
A formação é tão singular – Amado
no saxofone tenor, Miguel Mira no violoncelo, Gabriel Ferrandini à bateria e
Bishop ao trombone – quão ilusória. Afinal, Mira abstém-se de tocar com arco,
entregando-se a uma atuação ora elementarmente telegráfica, ora simbolicamente
torrencial, que, de certa forma, aproximando-se da arquetípica ação de um
contrabaixista, burla expectativas de premeditação harmónica e impossibilita as
distrações de dinâmica e extensão associadas ao seu instrumento. O que, fazendo
jus ao nome do trio, indicia que, de facto, parte significativa dos seus
procedimentos – imperturbavelmente lógicos e empaticamente flexíveis – terá que
ver com mobilidade. Aliás, violoncelista e baterista, resistindo a indiscrições
paroquiais, manobram com comadresco à-vontade por estes cinco originais de
espontânea combustão, colorindo, pontuando, comentando e atribuindo às mais
discursivas linhas traçadas pelos sopradores uma dimensão praticamente vernacular.
Ferrandini, em particular, prova que, neste contexto, a mais voluntariosa
animação pode ter tanto de fascinante quanto de fútil, transferindo para gestos
de sutileza orquestral a fortitude rítmica de que não dispensa, disparando
certeiras centelhas e articulando agitados assaltos sem hostilizar a
integridade narrativa de cada tema. Trata-se de um valor de progressiva
importância no universo criativo de Rodrigo Amado – capital na manifestação do
seu evadido romantismo e pretexto para uma eloquente exploração do seu fraseado
– que se vê aqui minuciosamente reforçado pela clareza de tom de Bishop, um
notável gestor do espaço. É precisamente pela predisposição conversacional
entre saxofonista e trombonista – de tal forma deliberada que estimula
intrigantes coincidências – que se identifica o essencial nesta sessão: ritualizar
o informe, resistir à alegoria, celebrar a chama sagrada.
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Rodrigo Amado
Liszt: Transcriptions, Niu Niu (EMI, 2013) & Liszt: The Complete Wagner & Verdi Transcriptions, Michele Campanella (Brilliant Classics, 2013)
Com a
vulnerável impetuosidade da juventude, Zhang Shengliang – o púbere chinês, de 15
anos, internacionalmente conhecido por Niu Niu – propõe um programa que
ressalva o generoso proselitismo de Franz Liszt (1811-1886), sublinhando-lhe
simultaneamente as mais quiméricas capacidades, num conjunto de transcrições de
Saint-Saëns, Paganini, Schubert e Wagner. Naturalmente, o prodigioso pianista
deleita-se na travessa e dilatada secção central da “Danse Macabre” – que
estimula com invulgar acerbidade – e prova-se apropriadamente temperamental num
trio de temas extraídos aos “Grandes Études de Paganini”, cuja lendária
transcendência domestica com sutileza e sobriedade, mas, em “Das Wandern” ou em
“Isoldes Liebestod”, perde alguma fluidez quando, em peças do austríaco e do
alemão, o essencial da ação se transfere do tempo cronológico para o psicológico.
É, de certa forma, um problema de perspetiva de que está isento o italiano
Michele Campanella ao concentrar, neste ano de bicentenários, o integral das
incursões do compositor húngaro na obra – predominantemente operática – de Verdi
(1813-1901) e Wagner (1813-1883), reforçando-lhes um aspeto de manifesta
modernidade: a imposição da paráfrase como um instrumento ao serviço do mais
escrupuloso multiculturalismo. De facto, Liszt operou aqui no coração de um
dogma – o da construção identitária – que conduziu aos limites da invenção e da
ética, intervenção que mais vital e definitiva se tem revelado com o passar dos
anos.
11 de Maio de 2013
Bombino “Nomad” (Nonesuch, 2013)
Na última década, o fantasioso e
subversivo ‘blues do deserto’ – promulgado por Tinariwen, Toumast, Terakaft,
Etran Finatawa, Tartit ou Tamikrest – ilustrou na perfeição o estágio final da
utopia para itens musicais ameaçados, convertendo-se de remota causa
faccionária em acessível marca registada para consumo universal, com as suas comitivas
de agentes e sedes oficiais de dissensão, o mais zeloso séquito e o Rough Guide
da praxe, não dispensando sequer – na sua ascensão a símbolo mundial da
guerrilha urbana, apto a disputar a popularidade do lenço de Arafat – de uma elementar
etapa degenerativa. Será, presumivelmente, ao que se referem todos quanto, na
resenha a este terceiro ensaio de Bombino, ressalvam, por exemplo, as comprometedoras
condições de produção de “Nomad”, com gravações rigorosamente vigiadas por Dan
Auerbach, vocalista dos Black Keys – uma banda com a qual, aliás, e caso
tivesse o mínimo conhecimento da sua atividade, até se vislumbra o extático guitarrista
nascido no Níger a simpatizar. Mas, mais hipotético que efetivo, tal
branqueamento surge contrariado pelo essencial do sucessor de “Guitars from
Agadez, Vol. 2” (captado no terreno pela Sublime Frequencies, em 2007, no
seguimento de uma sessão consagrada ao Group Inerane) e “Agadez” (Cumbancha,
2011), que mais não faz do que prolongar uma cândida e branda – e em permanente
oposição aos acontecimentos recentes – mensagem de paz para o povo tuaregue.
Por sinal, atua de forma pouco imaginativa, liofilizada e embaraçada por uma
conceção genericamente rudimentar do blues
rock de travo psicadélico, evocando uma estratégia há 45 anos aplicada pela
Cadet a álbuns de Muddy Waters e Howlin’ Wolf, mas a verdade é que a esperança
ainda supera o marketing. Valha-nos
isso.
Dieter Ilg “Parsifal” (ACT, 2013) & Eric Schaefer “Who Is Afraid Of Richard W.?” (ACT, 2013)
Foi Chuck
Jones quem, em 1957, quis “pegar nas 14 horas do ‘Anel’ e abreviá-las para seis
minutos”, conforme explica Daniel Goldmark em “Tunes for ‘Toons: Music and the
Hollywood Cartoon”, ao analisar “What’s Opera, Doc?”, curta-metragem de
animação protagonizada por Bugs Bunny e Elmer Fudd que propunha um hilariante
pasticho de operáticos estereótipos extraídos a Richard Wagner (1813-1883). Não
seria bem isso que teria em mente o compositor quando aludiu ao unificador
conceito do gesamtkunstwerk, mas é inegável que,
décadas depois, até uma lebre travestida de Brunilde personificava o
fundamental da sua mais grandiloquente parafernália visual, dramática e
musical. Em ano de bicentenário, convirá lembrar que, quer na ação do
realizador ao serviço da Warner Bros., quer na de Fauré, Hindemith ou Eisler,
que temperaram a pompa metafísica do mesmo material com equivalentes doses de
distorção humorística, o contexto é tudo. Aliás, bastará a audição deste par de
discos para concluir que, logo pelo próprio ato de deslocação formal – dedicado
a “Parsifal” o elegante trio de jazz de Ilg e abarcando ilustres páginas da
tetralogia o quarteto chunga de Schaefer –, não haverá mais digna e eficaz paródia
a estas obras do que tocá-las como elas, essencialmente, são, ainda que, para
tal, se destile em burlesco o seu aparato oracular e a sua ingenuidade
narrativa, e se zombe o totalitarismo subjacente à sua grotesca sacralidade e demente
monumentalidade.
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