19 de janeiro de 2019

Gal Costa "A Pele do Futuro" (Biscoito Fino, 2018)


Sacudir a dor - chega a Portugal o novo disco de Gal Costa na semana em que a cantora atua no Porto e em Lisboa



Em 2011, em “Recanto”, dava voz àquilo que qualquer pessoa com mais de 40 anos sente, de manhã, quando põe o pé fora da cama: “Dói/ Tudo dói.” Depois, em 2015, meses antes de fazer 70 anos, decidiu chutar a dor, ali, bem para o meio do buraco na camada de ozono, com “Estratosférica”. Agora, em “A Pele do Futuro”, conforme adianta à imprensa brasileira, Gal Costa quis “cantar uma música de sofrimento, mas que ao mesmo tempo que você está cantando, está dançando”, e não é preciso ser herpetólogo nem teólogo para se dar com a serpente que se insinua, sibilante, por trás desse seu título. Logo quem. “Jibóia sou eu”, cantava ela em ‘Musa Cabocla’, num daqueles seus discos, raros, cujo alinhamento acolhia temas que se diriam dispostos a provocar os que lhes estivessem colocados imediatamente antes ou depois – no caso, em “Minha Voz” (1982), esses versos de Waly Salomão eram conduzidos pelos de Caetano Veloso em ‘Dom de Iludir’: “Não me venha falar / Na malícia de toda mulher/ Cada um sabe a dor/ E a delícia de ser o que é”, numa canção que curiosamente remetia para outra muito mais antiga, de Noel Rosa, oriunda dos anos 30. Era mais ou menos com isso que nessa altura Walter Benjamin sonhava ao sugerir que “passado, presente e futuro são tempos sobrepostos”, e é por partilhar dessa intuição que Marcus Preto, diretor artístico de “A Pele do Futuro”, afirma agora que “os tempos seguem cronologia peculiar e se cruzam a todo instante.” Do mesmo modo, Gal disse que o disco é como “olhar para frente, mas também para trás”, coisa que, como se sabe, tem corrido mal à música ocidental desde Orfeu.

Mas Gal, como Caetano, habita um “ocidente ao ocidente do ocidente” e sabe contrapor um mito a outro como quem num álbum põe uma canção a seguir à outra – aqui, terá preferido antes pensar em Perseu, que evitou ser transformado em pedra pelo olhar de Medusa ao observá-la só pelo reflexo do seu escudo. É que, como tem contado, a ideia para o disco surgiu quando o filho lhe “entrou pelo quarto com Gloria Gaynor cantando ‘I Will Survive’ e disse: ‘Mamãe, duvido que você conheça!’” Enganava-se, claro. Mas foi quando ouviu o desabafo que há 40 anos converte nas pistas de dança gente em estátuas de Rodin – “At first I was afraid, I was petrified/ Kept thinking I could never live without you by my side/ But then I spent so many nights thinking how you did me wrong/ And I grew strong” – que Gal entendeu que, quanto muito, podia ver o passado refletido numa bola de espelhos. De facto, o melhor de “A Pele do Futuro” é uma variação sobre o tema em registo ora disco sound, ora quiet storm: “Você vale a luta/ Mas por favor, meu amor, me escuta/ Viver comigo vive sim/ Mas também vive sem mim”, em ‘Sublime’ (Dani Black); “Fomos felizes/ E felizes fomos/ E se já não somos/ Não se preocupe não”, em ‘Palavras no Corpo’ (Silva/Omar Salomão); “Amar sozinho também é amor”, em ‘Cuidando de Longe’ (Marília Mendonça); “Vou seguir a minha vida/ Não sou mais uma menina/ Tenho que enfrentar o mal/ Seja lá qual for/ Me fortalecer na dor”, em ‘Vida que Segue’ (Hyldon), etc. Isto é Gal no seu terreno predileto, que é aquele que os Earth, Wind & Fire apelidaram de ‘Boogie Wonderland’ ao refletir exatamente sobre as mesmíssimas coisas: “The mirror stares you in the face/ And says: Baby, uh, uh, it don't work/ You say your prayers though you don't care/ You dance and shake the hurt.” Nem mais.

Agenda: 2019

Oh là là, que temos um arranque de ano fantastique, com as grandes editoras – começando pela Warner, já com um “The Complete Works” no prelo – a rentabilizar ativos em torno do nem sempre acarinhado Hector Berlioz, de que se assinala o sesquicentenário da morte. Em termos de efemérides, aliás, 2019 servirá de pretexto para revisitar a obra de outro par de subvalorizadas figuras: Clara Schumann, que nasceu há 200 anos, e Barbara Strozzi, que veio ao mundo há 400. Por cá, em matéria de concertos, ter-se-á de esperar até setembro para que conste na agenda o nome quer de uma quer de outra – é no ciclo Música no Feminino, da Casa da Música, no Porto, por onde, por sinal, e até lá, há inúmeros motivos de interesse, destacando-se um jogo de pingue-pongue entre as costas do Atlântico que inclui peças de Elliott Carter e Claude Vivier (23.02) ou uma nova obra de Michael Gordon (02.03), por exemplo, mas também uma noite húngara gizada por Peter Eötvös (23.03), um ciclo dedicado a Ligeti (finais de abril) e a visita anual de Grigory Sokolov (07.05), que, dois dias antes, em Lisboa, estará na Gulbenkian, por onde prosseguirá esta estelar temporada em que se notabilizam igualmente Gautier Capuçon (31.01 e 01.02), Piotr Anderszewski (14 e 15.02) ou Martha Argerich e Stephen Kovacevich (27.03), em duetos de piano. Curiosamente, na altura, pelas mãos de Vijay Iyer e Craig Taborn [na foto], chegará ao mercado um disco no curioso formato (“The Transitory Poems”, ECM), logo seguido de novidades de Brad Mehldau e Joshua Redman (na Nonesuch). Mas, como se sabe, o jazz demora muito a sair da toca e, ao vivo, há pouco a salientar para além de Enrico Rava (02.02, em Espinho) ou Chris Potter (03.04, Porto). Ainda assim, a ver se alguém dá pelos centenários de Art Blakey, Herbie Nichols e Lennie Tristano.

12 de janeiro de 2019

Joyce Moreno “50” (Biscoito Fino, 2018)

Joyce Moreno revisita o repertório do seu primeiro álbum – editado há 50 anos, tinha ela 20 – e o que traz à lembrança são os versos de “Ritorno”, do poeta Giorgio Caproni: “Lá regressei/ aonde não estive jamais// Nada, do que nunca foi, entretanto mudou// Continua tudo exatamente como em tempo nenhum.” Isto, porque Joyce não se preocupa em demasia com a irreversibilidade do tempo. Em fevereiro de 2015, aliás, quando publicou no seu blog a foto que está agora na capa deste seu CD, dizia adorar “as marcas do tempo em [suas] mãos”, que nela “o temor do tempo não se expressa no medo de perder a beleza física”. Por tudo isto, recordar os sonhos de 1968 serve de pretexto para proceder ao que Svetlana Boym, em “The Future of Nostalgia”, caracterizava como uma espécie de “arqueologia do presente”: pois, “aquela cantora-menina amadureceu”, confessa Joyce em notas de apresentação. “Sempre me perguntei como seria refazer esse disco com o que aprendi ao longo dos anos. Com o tempo, fui ficando mais moça”, conclui. 

Uma frase que, por sinal, vem de um dos dois inéditos de “50”, numa parceria com Zélia Duncan – o outro, um hino ao que Reinhart Koselleck apelidava como “espaço de experiência”, é ‘A Velha Maluca’. Em 2015, quando refletia sobre o assunto no seu blog, Joyce acrescentava que “o tempo só [a] assusta num aspecto: é porque sempre [teve] a certeza de que [vai] viver muito”, e “o Brasil não gosta de velhos”. Certos sectores da sociedade brasileira, então, nem dos novos de 1968 gostavam: nem de Joyce nem de alguns dos seus convidados, aqui, como Marcos Valle, Roberto Menescal, Francis Hime e Toninho Horta. Como tal, não se entenda “50” ao jeito da nostalgia restaurativa de Bolsonaro. Na sua estreia, no ano em que a ditadura militar emitia o decreto AI-5, Joyce celebrava a dimensão menos instrumentalizável das relações humanas e a atração pela imprevisibilidade da comunicação quando guiada pelos sentidos. Voltar a essa cena, a esse som, a essa dor, a esse dom, é lembrar a frase de Kundera e aceitar que a sua luta contra o poder “é a luta da memória contra o esquecimento”.

Peter McEachern Trio “Bone-Code” (Clean Feed, 2018)


Sabem o que chamar a uma bela mulher agarrada ao braço de um trombonista? Uma tatuagem. E a definição de otimista? Um trombonista com um agente. A diferença entre um pugilista e um trombonista? Não é suposto um trombonista infligir dor. Enfim, a coleção de anedotas do tipo é infinita e Peter McEachern já as ouviu a todas. Algumas, até, da boca do seu falecido sogro, Norman Mailer (Peter é casado com a artista plástica Danielle Mailer, filha do escritor), aquele que, em 1957, pariu uma coisa tão estereotipadamente grotesca quanto esta: “O negro não permitiu a si próprio as sofisticadas inibições da civilização e, como tal, adotou a arte primitiva enquanto estratégia de sobrevivência, passando a viver num enorme presente, entregando-se aos prazeres do corpo em detrimento dos da mente e dando expressão através da música às qualidades da sua existência, à sua raiva e às infinitas variações de alegria, luxúria e raiva do seu orgasmo, pois o jazz é um orgasmo.” Credo. 

Citação por citação, McEachern certamente preferiria adotar a máxima repetida por Bob Brookmeyer a propósito dos membros de uma big band e reivindicar para si aquilo que Mailer nem em teoria consentia aos outros: “Os saxofonistas engatavam as miúdas todas porque estavam sentados na primeira fila, os trompetistas metiam o dinheiro ao bolso porque dirigiam as operações desde a fila de trás e os trombonistas ficavam no meio a desenvolver uma vida interior.” Aliás, McEachern invoca de forma tão sensível a esfera paroquial em que o jazz foi inicialmente batizado que ouvi-lo quase obriga a rever os livros de História – é como comparar a maneira tradicional de retratar o Homem de Neandertal com a descrição que dele faz Steven Mithen em “The Singing Neanderthals” (do seu modo de comunicação “holístico, manipulativo, multimodal, musical e mimético”, ou HMMMMM). Isto, porque McEachern descobriu recentemente possuir mais ADN em comum com o Neandertal do que 93% da população testada, daí este seu título. Então, pega no trombone, encosta o bocal aos lábios, faz hmmmmm e o jazz volta à posição ereta. Esta, nem o Mailer.