2 de setembro de 2017

Walter Gieseking “Complete Bach Recordings on Deutsche Grammophon” (2017, Deutsche Grammophon)



Todos sabiam quem ele era e volta e meia viam-no passar de malas aviadas a caminho de mais um recital. Apequenava-se a entrar e sair dos carros e quando se deixava fotografar para jornais e revistas e capas de discos parecia um gigante num quartinho de bonecas, sem saber bem o que fazer de si. Mas agora notava-se-lhe a roupa de antigamente demasiado larga no corpo. Ainda há coisa de meses, aliás, quando se preparava para regressar a solo norte-americano, tinha sido surpreendido por um piquete à porta do Carnegie Hall, em Nova Iorque: “A música não consegue abafar os gritos das câmaras de gás”; “Não queremos nazis nas nossas salas de concerto”; “Hitler e Gieseking cantavam a mesma canção”, lia-se. Numa memória da altura do pós-guerra, o seu genro, Imre Hajmassy, recordava como a generosidade e a hospitalidade da família Gieseking contrastavam com a doença e a subnutrição que grassavam no seu lar – daí a importância desta nomeação para o recém-inaugurado Conservatório de Saarbrücken, no Proteturado de Sarre, na zona de ocupação francesa. Walter Gieseking seria doravante Senhor Professor. Sorte de um punhado de alunos seus, claro, mas igualmente da emissora local, que logo tratou de programar um conjunto de ambiciosas sessões de gravação com o lendário pianista, com destaque para uma mão-cheia delas, entre janeiro e junho de 1950, em que lhe pediu para tocar J. S. Bach. Provêm daí os conteúdos desta extraordinária antologia, em grande parte inédita em CD, com Gieseking a mostrar que o Bach das seis “Partitas”, de “O Cravo Bem Temperado”, de “Concerto Italiano”, “Invenções”, “Prelúdios”, “Tocatas” e “Fantasias” podia ser tão seco quanto o Martini de James Bond. Soubesse ele que não voltaria a tocar a maior parte destas obras – tinha uma reputação a limpar e viria a dedicar-se a Ravel, Debussy e Mozart antes de falecer prematuramente, em 1956 – e é possível que tivesse feito as coisas de outra maneira, sem a transparência destas dinâmicas, sem tempi tão vertiginosos, sem evitar os acordes maiores nas cadências dos “Prelúdios” em modo menor, por exemplo. Mas o que teria sido de Gould, Ashkenazy, Schiff ou Levit sem este Gieseking assim tão espontâneo, subtil e radical?

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