4 de julho de 2015

Shostakovich: String Quartets (Decca, 2015) & Shostakovich arr. Rudolf Barshai: Chamber Symphonies (Harmonia Mundi, 2015)




Borodin Quartet / The Dmitri Ensemble, Graham Ross (d)


A cena passa-se no Teatro Bolshoi, em Moscovo, a 26 de janeiro de 1936, durante uma récita de “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk”. Shostakovich não ignora quem do outro lado da sala se esconde por detrás de uma cortina, mas não ousa dirigir-lhe o olhar. Nem mesmo quando, mal a ópera acabou, um rumor de veludo denuncia o repentino desocupar do camarote. Um cominativo editorial no Pravda, dois dias depois, viria a confirmar-lhe aquilo a que não quis assistir com os seus próprios olhos: Estaline não gostou do que ouviu. Logo aí, dir-se-ia ter ficado traçado o destino do compositor. Quanto muito, não se suspeitaria que, anos mais tarde, seria a sua “Leninegrado” que altifalantes na frente de batalha lançariam sobre barricadas nazis. Sucessivamente denunciado e reabilitado pelo regime soviético, até que, já na altura de Khrushchev, se deixou absorver de vez pelo aparelho, Dmitri Shostakovich (1906-75) criou uma obra recheada de senhas e contrassenhas, cifrada, críptica. Partindo dos anos 30 e chegando aos 70, com os quartetos de cordas Nº1 e Nº14, os atuais membros do Quarteto Borodin – que, na sua formação inicial, incluía Rudolf Barshai – sabem sujeitar-se à ambiguidade para, enfim, no Nº8, de 1960, se revelarem exemplarmente acutilantes naquelas subterrâneas melodias que anunciam canções que se ouvirão jamais ou conduzindo cada fuga a um banco de nevoeiro. Quando o adaptou para orquestra de câmara (no CD da Harmonia Mundi está igualmente a sua versão do quarteto Nº1), também Barshai lhe reforçou traços autobiográficos, que, de modo inteligente, aqui suavemente se disfarçam.

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