18 de março de 2017

Shelter + JazzFest



Passando os olhos pelo alinhamento de “Shelter”, o disco do quarteto homónimo composto por Ken Vandermark (palhetas), Nate Wooley (trompete), Steve Heather (bateria) e Jasper Stadhouders (guitarra elétrica e baixo), treme-se perante a inesperada evocação da famosa “Saga de Njáll, o Queimado”, receando o ressurgimento daquele jazz movido a uivos e a hormona macho, blindado por um arnês e cegado pela cólera e pronto para lavar a sangue e suor a honra ferida no campo de batalha mais próximo. Depois, respirando fundo, lá se escuta ‘Burnt Njal’ e o resultado não é de todo o que se esperava – aliás, dir-se-ia que Wooley, que a compôs, aproveitou a associação a esse universo particularmente viril do medievo islandês para meditar acerca das próprias limitações da música improvisada tal como a promove a maior parte dos seus praticantes. Isto é, estará de acordo com o que salientou Ármann Jakobsson: que, na essência, a “saga critica o conceito de base daquela misógina sociedade ao demonstrar que o ideal de masculinidade é tal maneira restritivo que se torna opressivo para o indivíduo e destruidor para o grupo.” Por isso, na sua estrutura, a peça possui farrapos de marchas e malhas de fanfarras, sim, mas mais como uma meditação acerca do controlo de impulsos do que outra coisa qualquer. É um assunto há muito na ordem do dia. Por exemplo, falava com Vandermark em agosto de 2008 e dizia-me ele que um dos seus principais interesses enquanto compositor era “precisamente essa dinâmica entre o que é escrito e o que é improvisado”. Ou seja, que quando se escreve para improvisadores é preciso ter em mente que, no fundo, se está a “enquadrar uma música espontânea”. “Temos de conceder espaço suficiente para a liberdade de cada músico”, continuava, “senão corremos o risco de criar pouco mais que um conjunto de limitações.” Podia ser o tema do décimo quarto Portalegre JazzFest, a par, já agora, de outra ideia que o norte-americano partilhava: “Olhar para o passado ajuda a encontrar soluções para desafios criativos iminentemente contemporâneos”. É um credo extensível ao conjunto coliderado por João Hasselberg e Pedro Branco, que tem disco novo, “From Order to Chaos”, bem como àqueles grupos nórdicos como Ballrogg (Klaus Ellerhusen Holm, Roger Arntzen e David Stackenäs) ou Friends and Neighbors (André Roligheten, Thomas Johansson, Oscar Grönberg, Jon Rune Strom e Tollef Ostvang), que, lembrando Njáll, se preparam para incendiar o palco do CAE e ficar queimados pelo sol alentejano.


Shelter
23 março, quinta-feira, 22h, ZDB, Lisboa
24 março, sexta-feira, 21h30, CAE, Portalegre

14º Festival Internacional de Jazz de Portalegre – Portalegre JazzFest
23 de março a 1 de abril, Centro de Artes do Espetáculo de Portalegre

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