4 de outubro de 2014

Tüür: Seventh Symphony; Piano Concerto (ECM, 2014)



É uma sinfonia coral, esta sétima, e vale-se de curtas citações. Cá está o Buda de “Nós somos o que pensamos” ou o Gandhi de “Seja a mudança que quer ver no mundo” ou o Chopra de “Quanto menos abrir o seu o coração aos outros mais o seu coração sofrerá”. Só falta o Yoda de “O medo leva à raiva, a raiva ao ódio, o ódio ao sofrimento”. Ou seja, parafraseando Gilberto Gil, eis mais um que se orienta. E outro que, à primeira vista, não ilude dogmas identificados por Said em “Orientalismo”: que “abstrações sobre o Oriente são preferíveis às evidências diretas extraídas das realidades orientais” ou que “o Oriente é eterno”. Reincidindo-se, aqui, noutro preceito: que Estónia, magma orquestral e transcendentalismo são necessariamente coincidentes. Só que repetidas audições sugerem que, mais do que compensá-las, o compositor se interessa por pôr a descoberto deficiências morais do nosso tempo. Consegue-o com inusitado sentido do dramático e inegável propensão para o macabro (mas basta ver as notícias para se perceber que, por exemplo, através de Wirathu, na Birmânia, também o budismo se submete hoje a uma lógica de violência) e com gestos, grandiloquentes e algo anedóticos, que não dissimulam um passado de militância no rock progressivo. Isto é, em Tüür, o mais bem-sucedido é o mais vulgar e artificial. Aquilo que, noutras mãos, se tomaria por um estiolamento académico. Admirando-lhe uma extraordinária cinética que remonta à Hollywood de Steiner e Tiomkin e Korngold e Waxman e Rózsa et al, na qual, como se sabe, cabia toda a música, perdoa-se-lhe até a presunção de julgar o seu ouvinte. Como sempre, o que nos salva é o que nos mete a ridículo.

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