1 de agosto de 2015

Regresso ao passado [Jazz em Agosto, 2015]



Michael Mantler fala da sua orquestra como um nutricionista fala do café com leite: “A minha ideia era a de controlar e limitar o que considerava excessos na improvisação livre”, declara o compositor e trompetista nas notas de apresentação de “Jazz Composer's Orchestra Update”, tal como no contexto das necessidades alimentares se diria que a cafeína restringe o aproveitamento do cálcio pelo organismo. A insensatez da metáfora em toda a sua abrangência é deliberada, pois no enquadramento desse recente CD em que revisitava e reconstruia as partituras do emblemático tomo inicial da Jazz Composer’s Orchestra, de 68, o austríaco comete a imprudência de qualificar os seus solistas de então – de Don Cherry e Cecil Taylor a Pharoah Sanders e Andrew Cyrille – como “forças da natureza, sem consciência do que os tornava verdadeiramente originais”. Seja como for, no espírito deste aggiornamento, trata-se de uma atitude que não perturba a audácia que tão precocemente demonstrou. Pois a verdade é que Mantler foi um importante catalisador num movimento associativo que desenvolveu notáveis sinergias entre radicais da mais criativa música nova-iorquina – e não só – de há cinquenta anos atrás. Hoje, às 21h30, quando subir ao palco do Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian acompanhado por Wolfgang Puschnig, Harry Sokal, David Helbock, Bjarne Roupé e pela Orquestra Jazz de Matosinhos, carregará consigo o testemunho dessa era mas, acima de tudo, tratará de expressar as tais versões mais nutritivas de um ávido repertório que só o tempo soube temperar. Em simultâneo, estará a dar corpo ao manifesto de um Jazz em Agosto que, este ano, fica marcado por “grandes formações orquestrais (…) e ainda pelo conceito de intemporalidade musical através da presença de músicos que regressam a projetos do passado para os reinventar.” Em parte, é precisamente disso que se ocupará amanhã o quinteto Swedish Azz – de Mats Gustafsson, Per-Åke Holmlander, Kjell Nordeson, Dieb 13 e Erik Carlsson [na foto] – ao dedicar-se aos arautos do jazz na Suécia das décadas de 50 e 60. Incontornável no período foi o LP “Jazz på svenska”, do pianista Jan Johansson, que presumia especificidades dialetais no seu inquérito ao cânone. É uma peculiar sindicância continuamente presente nas atuações do RED trio – de Hernâni Faustino, Gabriel Ferrandini e Rodrigo Pinheiro – que, quarta-feira, só de modo simbólico evocará o seu historial ao partilhar o palco com John Butcher, o saxofonista com que cocriou “Empire”, em 2011. Quinta-feira é dia de conhecer os Schlippenbach – Alexander, Aki e Vincent – que tornarão a “Lok 03”, intrigante exercício de cosmopolitismo, mais engraçado que gracioso, e sexta regressará ao certame Ingebrigt Håker Flaten em nova investida pelas velhas possibilidades vernaculares do jazz.

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