30 de janeiro de 2016

Granados & Turina: Piano Quintets (Harmonia Mundi, 2015)


Após uma travessia do Atlântico prenhe em premonições, foi há 100 anos que Enrique Granados assistiu à estreia da versão operática de “Goyescas”, em Nova Iorque. Com Amparo, a sua mulher, a seu lado, viveu num corrupio, agitado por um vendaval de coquetéis e receções, incluindo uma ida à Casa Branca. “Vi por fim os meus sonhos realizados”, escreveu inocentemente numa carta endereçada a Ricardo Viñes. A 24 de março de 1916, na viagem de regresso a Barcelona, contar-se-iam os Granados entre as cerca de oitenta vítimas causadas pelo torpedeamento do paquete SS Sussex por um submarino de guerra alemão. Estamos, portanto, em ano de centenário. E é adequado que se assinale o seu início com uma obra como esta, menos irradiada pelo nacionalismo musical espanhol do que pelos modelos centro-europeus que tanto Granados como Joaquín Turina parecem ter vindo ao mundo disputar. De facto, neste “Quinteto para Piano”, de 1895, pressente-se mais a fragrância dos salões parisienses e dos vapores do Elba, por exemplo, do que qualquer tipo de impressão que se associe a uma índole hispânica – “Ambiciono tornar-me no meu país o que Saint-Saëns ou Brahms são nos deles”, referiu, e dá aqui voz às suas dores de crescimento. Mas a peça é um pequeno prodígio de inventivas combinações harmónicas e inspiradas colorações, na qual, por instantes, se adivinha já o casulo da nostalgia pelo sul. De 1907, também o “Quinteto” de Turina só por uma vez permite que um levantar de sobrolho ibérico perturbe um semblante galófilo e germanófilo, expressão de doutrinas face às quais logo passaria de apóstolo a apóstata.

Sem comentários:

Enviar um comentário