22 de janeiro de 2016

Pierre Boulez Conducts: Ravel (Sony, 2015)



Com proveniência nos arquivos da CBS e da RCA, prossegue a série “Masters”, da Sony, com um punhado de títulos particularmente inspirado, entre os quais se destacam ciclos sinfónicos integrais de Schubert ou Beethoven, respetivamente sob as eméritas batutas de Sir Colin Davis e Bruno Walter, ou este, que aqui nos traz, consagrado à obra orquestral completa de Ravel, em que, por sinal, nada obedecia a batuta alguma – Boulez conduzia a orquestra com as duas mãos, cada gesto seu calculado para trazer à memória aquelas passagens da bíblia em que se invocam a diligência e a destreza com que o oleiro molda a peça de barro (pense-se em versículos de Isaías ou, mais apropriadamente, noutros de Jeremias, visto não terem sido poucos os que o aclamaram como profeta). Pierre Boulez faleceu no passado dia 5, aos 90 anos. Não será de somenos importância lembrar agora que, sob o pretexto de sublinhar o seu prestígio enquanto compositor e maestro, não há chancela que não tenha já cumprido com as suas obrigações: a DG com “20th Century” (44 CD) e “Le Domaine Musical” (10 CD), a Warner com “The Complete Erato Recordings” (14 CD), a Sony com “The Complete Columbia Album Collection” (67 CD), edições essenciais, exaustivas, extenuantes. Mas esta antologia com registos dos anos 60 e 70 possui proporções incontestáveis, ainda que retrate um Boulez farto em contradições: empático nos seus propósitos mas apto a agir em interesse próprio; inabalável nos seus princípios e, quiçá por isso, com tendência para a intriga; tão à vontade com a autoridade excessiva como com a liberalidade sem restrições; um elitista à imagem do século que o viu nascer. Comparadas com subsequentes releituras do mesmo repertório com a Filarmónica de Berlim ou a Sinfónica de Londres, são propriedades que estas interpretações trazem a lume. Aqui – mais que clínico, dir-se-ia, de modo cínico – a ênfase é conferida ao timbre, à cor, à pulsação, ao ritmo, mais à forma que ao conteúdo, isto é, ao que Boulez não considerava tão menosprezível, sendo que cada estrutura se mantém no geral plácida e no pormenor impaciente, na aparência fácil de prever e no âmago plena de imponderáveis. E nunca o melhor de Ravel soou tão bem.

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