2 de julho de 2016

Jazz no Parque & Jazz im Goethe-Garten (2016)


Todos o reclamam em teoria, mas quase nenhuns o desejam na prática. Ou talvez ao contrário. Porque a verdade é que, em inúmeros festivais de verão, um pouco por todo o país e, muitas vezes, sem que se justifique o usufruto desse valor nominal, se arregimentam as mais variadas expressões sob a égide do jazz. Trata-se de certames de que estão ausentes, por exemplo, a imperiosa obrigação de obedecer à narrativa da utopia, a curiosidade, enquanto espécie de doutrina básica do ser humano, ou, ainda, a espontaneidade, mas igualmente a subordinação ao drama elementar da existência, a inconstância formal e, até, uma certa impiedade. Isto para não falar, já, de qualquer vestígio técnico dessa música que, por mais que prospere em zonas de fronteira entre placas tectónicas, não dispensa em absoluto de alicerces. Entre os que contrariam essa tendência, arrancam dois esta semana: o “Jazz no Parque”, em Serralves, no Porto, e o “Jazz im Goethe-Garten”, no Goethe-Institut, em Lisboa. Aliás, entremeadas no programa de um e de outro lêem-se frases que dizem que o primeiro sustenta a “inclusão de nomes que apostam na inovação e na liberdade formal da música que tocam” e que o segundo se consagra a uma “diversidade de expressões da linguagem jazz na Europa que não cessa de se transformar”. Mas semelhantes constrangimentos geográficos serão apenas indicativos. Atente-se ao caso do concerto de amanhã, em Serralves (as atuações no festival são sempre ao domingo e começam sempre às 18h00), em que o trio de Ivo Perelman (na foto), Marcio Mattos e António “Panda” Gianfratti, composto por três brasileiros de vistas largas, resiste à imposição de um biótopo específico. O mesmo defende o pianista espanhol Nani García (dia 10), no projeto Cinematojazzia, recorrendo à dimensão camerística do trio de jazz e do quarteto de cordas. Já dia 17 há dose dupla: a abrir, o septimino Slow is Possible, inspirado pelo poema de Bukowski em que se lia “E os melhores no ódio são aqueles que pregam o amor// E os melhores na guerra são aqueles que pregam a paz”, a que se seguirá o encontro do RED trio com o vulcânico guitarrista Raoul Björkenheim. Por seu turno, no cartaz do JIGG (5 a 15 de julho, sempre às 19h00), destacam-se Sputnik Trio (dia 6), Journal Intime (12) e a parceria de Georg Ruby com Michel Pilz (14).

Sem comentários:

Enviar um comentário