Será, de
certeza, coincidência. Mas há um momento neste CD que de imediato remete para o
crepúsculo da casa imperial dos Romanov: é quando Alexandre Tharaud se deixa acompanhar
ao piano por Alexander Melnikov e Aleksandar Madzar para, juntos, interpretarem
o “Romance” e a “Valsa” em Lá maior de “Peças Para Seis Mãos”. Lado a lado, são
três Alexandres a tocar as adoráveis miniaturas que Rachmaninoff compôs para as
irmãs Skalon praticarem ao longo daquelas idílicas temporadas de verão passadas
na herdade de Ivanovka (entre elas, Natalia, a mais velha, tornar-se-ia sua
mulher): apetece logo pôr chá a aquecer num samovar. Como não poderia deixar de
ser, o resultado é quintessencialmente russo. Aliás, é de tal maneira russo que
obriga a recordar uma frase de Nabokov, saída de “Fala, Memória”, quando, a
propósito daquelas famílias, como a sua, que tinham fugido ao regime soviético,
dizia: “É uma gente muito pouco palpável que imita por cidades estrangeiras uma
civilização morta: miragens remotas, quase lendárias e praticamente sumérias de
São Petersburgo e Moscovo, 1900-1916 (que já nessa altura, nos anos 20 e 30, mais
pareciam vir de 1916-1900 A.C.).”
Ou seja, trata-se, também aqui, de um
regresso ao passado. Mas a um passado que, em rigor, nunca foi, assim, tão bom,
nem tão russo quanto os exilados desejariam – escravo da nostalgia, do
bucolismo, do romantismo ou da saudade. Numa entrevista de 1939, concedida a
Leonard Liebling, do “The Musical Courier”, sob condição de que a publicassem
depois, apenas, da sua morte, Rachmaninoff confessava sentir-se como um
fantasma, a vaguear por um mundo de que se julgava cada vez mais distante: “Não
sou capaz de me libertar da antiga forma de compor, nem consigo adquirir a mais
recente.” Contrariando aquilo em que depositava fé, achava que a nova música
vinha mais da cabeça do que do centro da afeição de quem a escrevia. Nessa
perspetiva, o “Concerto para Piano Nº 2, Op. 18” é só coração, e desde Richter
que não soava tão pletórico.
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