17 de janeiro de 2015

O que aí vem



Música erudita
Jordi Savall afirmou recentemente que “sem memória não há justiça”. Agora, como um inequívoco veículo para as suas convicções, anuncia um ambicioso “Guerra & Paz” em que revê a história militar europeia dos séculos XVII e XVIII. Não seria potencialmente tão interessante se não estivesse tão nitidamente marcado pelas incertas pulsões do seu ideólogo, mas trata-se ainda assim de um dos mais aguardados lançamentos de um começo de ano em que se destacam: “1865”, de um Anonymous 4 às voltas com a Guerra da Secessão; o “Rappresentatione di Anima, et di Corpo”, de Emilio de’ Cavalieri, por René Jacobs; um par de caixas de Richter (faria 100 anos) e outra dedicada a Boulez (haja saúde fará 90 em março); o “Requiem” de Dvorák dirigido por Herreweghe; um recital de Lubimov consagrado a Ives, Berg e Webern. Em palco, relevo para quem concilia presteza dramática e poder reivindicativo: Benjamin Grosvenor (8/02), Midori (21/03) e Volodos (24/05) na Casa da Música; Schiff na Gulbenkian (8/02 e 24/03). Do frio, os tricinquentenários de Sibelius e Nielsen a congelar os de Dukas, Magnard ou Glazunov.


Música do Mundo
Até ao verão, e aos festivais, é época baixa. E, neste domínio, só Lisboa escapa à absoluta hibernação dando-se um jogo de ténis de mesa entre duas instituições locais: Kayhan Kalhor e Erdal Erzincan vão à Gulbenkian (02/02); Toumani e Sidiki Diabaté conduzem à Culturgest (06/02) aquela carga emocional que no Mali se transporta de geração em geração; Zé Miguel Wisnik e Lívia e Arthur Nestrovski levam leituras agógicas e pedagógicas do cancioneiro brasileiro à Gulbenkian (20/02), onde, logo de seguida, entre fevereiro e março, com Calcanhotto, se manterá o sotaque mas elevará o grau de pretensão; de Marrocos, Driss El Maloumi na Culturgest (13/03) e, vindo da Tunísia, Anouar Brahem na Gulbenkian (28/04). Pelas lojas, não será a inundação de Rough Guides a contrariar a seca nos escaparates. 

Jazz
Só com as novidades de janeiro já a ECM tomou conta do trimestre: estreiam-se na editora a orquestra de Chris Potter e o trio de Vijay Iyer, celebra-se Kenny Wheeler com o póstumo “Songs for Quintet” e um quinteto de luxo liderado por Jack DeJohnette assinala os 50 anos da AACM. Da ACT virá “Bird Calls”, de Rudresh Mahanthappa; da Soul Jazz, a reedição de “Tanner Suite”, de Lloyd McNeill; da Clean Feed, discos de Chris Lightcap, Mario Pavone e Eve Risser. Ao vivo, antes dos festivais: Steve Lehman no Porto (Casa da Música, 01/02); Michael Formanek em Lisboa (Culturgest, 19/03) e em Portalegre (CAEP, 20/03); Nate Wooley no Porto (Culturgest, 26/03); Joe McPhee em Lisboa (Culturgest, 9/04) e Anthony Braxton na Casa da Música (25/04). E, sim, é ano de centenário de Billie Holiday, em que milhares de cantoras com tumultuosa relação com o feminismo tratarão de assassinar ‘Lover Man’, ‘My Man’ ou ‘The Man I Love’. Por enquanto, à exceção de “Coming Forth By Day”, de Cassandra Wilson, e uma nova biografia da autoria de John Szwed, nada de especial se anuncia, mas espera-se a devida reorganização de catálogo. Também Billy Strayhorn faria 100 anos, mas a esse não é preciso dar nada: Lady Gaga tratou-lhe da prenda quando cantou ‘Lush Life’.

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