16 de agosto de 2014

Alicia de Larrocha: Granados, Falla, Ravel (Decca, 2014)




Granados: Goyescas, Danzas Españolas; Falla: 4 Piezas Españolas, El Sombrero de Tres Picos, Amor Brujo, Alicia de Larrocha (p) (Decca, 2014)

Ravel: Piano Concertos; Falla: Noches en los Jardines de España, Alicia de Larrocha (p), London Philharmonic Orchestra, Lawrence Foster (d), Rafael Frühbeck de Burgos (Decca, 2014)
 


Nos últimos anos de vida ninguém lhe tirava o sorriso do rosto. Como se fossem colares de pérolas, acumulava prémios, doutoramentos honoris causa e distinções e condecorações várias. De tal forma representava o temperamento espanhol que o seu nome mais parecia uma marca gerida pela Inditex. No entanto, hoje, não se pode dizer que se achem em abundância títulos seus no mercado. Este par de reedições consagrado a Alicia de Larrocha (1923-2009) é, por isso, oportuno. Mas mais fundamental se prova, ainda, por incluir repertório que se diria marcado pela sua personalidade, que foi por décadas por si habitado, ao contrário de um costume contemporâneo em que solistas substituem peças com a mesma facilidade com que trocam de quartos de hotel. 

Aqui está o Enrique Granados (1867-1916) que compreendeu de modo praticamente dinástico. Nas “Goyescas” – num registo de 1976 – fortifica impulsos quase acidentais, mais improvisados do que propriamente compostos, de caráter insubmisso, com estruturas que nenhum arquiteto desenharia bem desta maneira. Em ‘Coloquio en la reja’ ou ‘El amor y la muerte’, como uma costureira a disfarçar pontos numa manta de retalhos, torna a música mais coesa do que alguma vez foi. Nas “Danzas Españolas” – captadas em 1980 – salta de uma província para a outra com a mesma aplicação de uma criança a jogar à macaca, mas não é frívola. Também nas “Cuatro Piezas Españolas”, de Manuel de Falla (1876-1946) – o original é de 1974 –, evita a caricatura, embora se pressinta o orgulho com que exibe absoluto controlo idiomático em criações capazes de evocar uma terra suja, gretada, seca e gredosa, repleta de valas e recheada por lavas. Na supersticiosa suíte para piano de “El Amor Brujo” e nas tentadoras danças de “El Sombrero de Tres Picos” as suas mãos são como as de uma vidente, dissipando o nevoeiro numa bola de cristal.

No CD simples, mais aparições: no “Concerto para Piano e Orquestra em Sol maior”, de Maurice Ravel (1875-1937), publicado em 1974, trabalha com materiais evanescentes e uma invenção conduz a outra; no Adagio assai está como um grande ator que em palco masteriza a arte da pausa dramática; já no “Concerto para Piano e Orquestra em Ré maior”, para mão esquerda, deixa a melodia correr sem parar, sem ganhar plenamente consciência de si. Por fim, um regresso a Falla nas “Noches en los Jardines de España”, lançado em 1984, em que cada uníssono é uma aromática cortina de fumo que, no ar, deixa o odor da tristeza, de uma vaga melancolia, da saudade por aquilo que não se voltará a ver.

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