2 de agosto de 2014

Jazz em Agosto 2014 (antevisão de 2 a 8)




Partirá do espaço, este segundo dia do “Jazz em Agosto”. Hoje, às 18h00, no Auditório 3, exibir-se-á “The Soul of a Man” (repetirá amanhã), o episódio que Wim Wenders realizou, em 2003, no âmbito da série televisiva “The Blues”, e que arranca precisamente com imagens do célebre ‘disco dourado’ que, a bordo da sonda Voyager, entre registos de corais georgianos e de pigmeus centro-africanos, de peças de Bach e de Beethoven ou do coaxo de rãs e do ziziar de cigarras, transporta a voz de Blind Willie Johnson entoando ‘Dark Was the Night, Cold Was the Ground’ para fora do Sistema Solar. No filme, evocam-se ainda fragmentos das biografias de Skip James ou J. B. Lenoir e dirigem-se atuações mais ou menos didáticas de Lou Reed, Nick Cave, Jon Spencer ou Beck. Curiosamente, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre, não é de crer que o ardor do blues esteja arredado do encontro entre Matthew Shipp & Evan Parker. Indícios disso mesmo acham-se em “Rex, Wrecks & XXX”, o duplo que gravaram no ano passado e que, à boleia do festival, se lança agora em Portugal. Marc Ribot, que aparece em “The Soul of a Man”, chegará amanhã e, consigo, trará os polímates Shahzad Ismaily e Ches Smith e um ar de rock. Às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre, é provável que revisite repertório fixo – enquanto Ceramic Dog – em dois álbuns: para situar, em “Party Intellectuals” cantou uma versão de ‘Break on Through’, dos Doors, e em “Your Turn” passou revista a um hino sindicalista e a outro comunista. Não menos política, a sessão liderada pelo guitarrista Marc Ducret – programada para segunda-feira, às 21h30, igualmente no Anfiteatro ao Ar Livre – não negará à partida nenhum género musical que desconheça. No momento em que se anuncia o cumulativo “Tower-Bridge”, estará com o francês o sexteto que gravou “Tower, Vol. 3”, um prolongamento dos seus interesses por incesto e ludismo e distopia conforme patenteação de Vladimir Nobokov. Terça-feira, no mesmo local e à mesma hora, o Luís Lopes ‘Lisbon Berlin Trio’ trará outras insólitas configurações – no CD para a Clean Feed chamava-lhe ‘Mutant Free’ – para guitarra, contrabaixo e bateria. Mas é na quarta-feira à noite (depois de se ter mostrado o filme que Alan Roth dedicou ao New York Art Quartet) que o estranho se transformará em extraordinário quando, do escuro, surgir esse xamã que responde pelo nome de Keiji Haino.

Verão após verão, seguir o “Jazz em Agosto” é também acompanhar um cenário vivo em que a volatilidade estética do certame não fica a dever à transitoriedade do mundo natural, aos temporários humores da sua assistência ou aos imprevistos do espaço urbano. Todos os anos, aí se cruzam iconoclastia e pedagogia ao som dos motores dos aviões nas idas e vindas da Portela e das sirenes de ambulâncias nos arredores do Hospital de Santa Maria, do grasnar dos patos no lago e do restolhar de gatos à caça, do cicio nas copas das árvores e dos silvos no canavial e, quer no palco, quer na plateia, aí se reúnem aqueles que, à semelhança de Carl Sagan quando organizou o ‘disco dourado’, acreditam que uma efetiva representação da nossa música terá de possuir de tudo isso um pouco. Nessa medida, num contexto particularmente atmosférico engendrado por Franz Hautzinger, não surpreenderá ninguém se Haino, na próxima quarta-feira, às 21h30, se puser a uivar para a lua em quarto crescente, planeando purgas, habitando o blues, como há uma década fazia ao cantar ‘See That My Grave is Kept Clean’, de Blind Lemon Jefferson, o tema, já agora, a que Reed dá voz no filme de Wenders. E não admirará ninguém se esse uivo se tornar o instante mais musical do “Jazz em Agosto” de 2014. Exorcismo feito, quinta-feira, às 18h00, prosseguirão as sessões de cinema com “Dancing to a Different Drummer”, documentário consagrado a Chico Hamilton, por Julian Benedikt, e, às 21h30, para os cultores do inaudito, Fred Frith, Joëlle Léandre e Hamid Drake estrearão um trio no Anfiteatro. A semana fechará com “BasseContinue”, às 18h00, no Auditório 3, onde se ficará a saber alguma coisa do muito que sempre se receou perguntar à contrabaixista francesa – o retrato é de Christine Baudillon. Ainda na sexta-feira, às 21h30, Léandre sairá da tela para tornar à cena, na ocasião escoltada por Frith, Urs Leimgruber e Alvin Curran, num quarteto que designou MMM (MillsMusicMafia, já que, presume-se, Mills Brothers estava ocupado) e que alude aos laços que ela própria, Frith e Curran mantiveram com a universidade californiana. A lua estará cheia e as expetativas são as melhores. O festival termina no fim-de-semana que vem.

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