23 de agosto de 2014

Herbert von Karajan (Schönberg/Berg/Webern & Sibelius/Grieg/Nielsen)




Schönberg: Verklärte Nacht, Variations for Orchestra, Pelleas und Melisande; Berg: Orchestral Pieces; Webern: Orchestral Pieces; Berliner Philharmoniker, Herbert von Karajan (d), (Deutsche Grammophon, 2014)

Sibelius: Finlandia, the Swan of Tuonela, Tapiola, Pelléas et Mélisande; Grieg: Peer Gynt Suites Nos. 1 & 2; Nielsen: Symphony no. 4; Berliner Philharmoniker, Herbert von Karajan (d) (Deutsche Grammophon, 2014)



Não se vislumbra programa mais adequado ao temperamento de Karajan do que este, que se consagra à Segunda Escola de Viena e que, reunido num triplo CD que reedita originais de 1974, documenta o seu invulgar talento em dissecar criticamente impulsos autoritários. O seu Schönberg é fílmico e climático: os protagonistas de “Noite Transfigurada”, Op. 4, na releitura de 1943, estão debaixo de um borriço que espalha a golpes de vento, descortinando a lua, colocando a esperança à mercê dos movimentos de guilhotina que faz com os braços; até os condenados Pelléas e Mélisande, no homónimo poema sinfónico, Op. 5, inspirado pela peça de Maeterlinck, ficam em animação suspensa, entre ciclos de criação e destruição; as “Variações para Orquestra”, Op. 31, são um assombro técnico, como se, de uma só vez, pudéssemos escutar todos os órgãos que no nosso corpo vão trabalhando em silêncio. Dedicadas a Schönberg foram as “Três Peças para Orquestra”, Op. 6, de Berg. Guiando-nos pela mão e anestesiando-nos os sentidos, Karajan situa-nos no limiar de um pagode envolto em véus de incenso. Em minutos, o ruído é de tal ordem que, mal termina, pensamos ter ficado surdos. Também com Webern é como se tivesse estalado uma guerra junto aos nossos ouvidos: uma visão particularmente antropológica das “Seis Peças para Orquestra”, Op. 6, diria estarem repletas daqueles ominosos momentos em que uma personagem de ficção leva as mãos à cabeça interrogando-se “Meu Deus! O que fomos fazer?”, ainda que se saiba que foram escritas como uma reação ao luto. 

São gestos sutis de efeitos devastadores que estão nos antípodas dessoutros compilados em mais uma caixa agora lançada. Aí, os poemas tonais e sinfónicos de Sibelius, uns supersticiosos, outros supliciados, surgem com a devida camada de verniz e, em “O Cisne de Tuonela”, “Finlandia” ou “Tapiola”, a secção de cordas da orquestra está como uma patinadora no gelo, simulando que é uma leve brisa – e não a mais férrea determinação – que a anima. De Nielsen, está a “Sinfonia Nº 4”, Op. 29, dita ‘A Inextinguível’, com aquele insólito duelo timpânico em que se detetam os canhões da Primeira Grande Guerra. De Grieg, as extintas capacidades de sedução das suítes extraídas a “Peer Gynt”.

Conquanto permitam ambos questionar os limites desses mesmos paradigmas, saltar entre conjuntos de gravações – o segundo foi efetuado entre 1981 e 1984 – é, de certa forma, como passar da periferia do gosto para a da geografia, da ideia de uma Europa para a de uma outra Europa. Pelas suas fronteiras manobrou Karajan de modo ímpar.

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