25 de maio de 2013

Keith Jarrett, Gary Peacock, Jack DeJohnette “Somewhere” (ECM, 2013)



Porque, na arte, o único futuro que importa é o irrealizável, esse lugar de que vêm agora falar Jarrett, Peacock e DeJohnette pode bem ser aquele, edénico e inatingível, feito de paz, sossego e perdão, que, em “West Side Story”, Stephen Sondheim e Leonard Bernstein prometeram a Tony e Maria. E, quiçá por essa razão, não admira que, de forma submissa e consternada, primeiro, os membros do trio visitem ‘Somewhere’ como uma morada de exílio que existe na mente – ainda que não renunciem por um instante ao sustentado idealismo que as suas interpretações ao longo dos anos patentearam – para, depois, ao fim de seis minutos, lhe acrescentarem uma coda de cerca de treze, batizada de ‘Everywhere’, que não só representa a efetiva evasão das coercivas características da balada, como, simbolicamente, transporta a ação para um singular endereço edificado por três décadas de gravações e digressões em conjunto. Trata-se de uma espantosa articulação – mas perfeitamente exemplificativa dos definitivos contornos que adquirem estas formulações assim que despontam –, redigida com precisão segundo preceitos recorrentes: previsibilidade rítmica, desenvolvimento temático, arabescos melódicos desenhados no centro de uma exaustiva exploração do campo harmónico, acumulação de referências estilísticas, cromáticos floreados a adornar variações de dinâmica – tudo, com frequência, ao serviço do escatológico martírio evocado, noutro contexto, pelos hinógrafos cristãos. O que, temperado em contraponto pelas caucionárias interjeições vocais do pianista, de uma deliberação taticamente extática, tanto mistifica o material de partida quanto o de chegada, dispondo as mais ritualistas propriedades do grupo em redor de um conceito muito simples: o do privilégio da invenção.
Mas, sempre que o assunto é Jarrett, e por hipotética subserviência ao seu génio, persiste a tentação de anexar toda a sua produção à mesma entrada enciclopédica – solística ou coletiva, enquanto solipso improvisador ou exibicionista compositor sinfónico, sóbrio intérprete de Bach e Shostakovich ou proponente de contorcionistas exercícios em palco. Só que a verdade é que o impressionante compêndio de vinte álbuns tão anacronicamente consagrados por este trio ao mais flagrante cancioneiro norte-americano de antanho – neste concerto captado em Lucerna, em 2009, ‘Solar’, de Miles Davis, ‘Somewhere’ e ‘Tonight’, igualmente retirada de “West Side Story”, provêm dos anos 50, mas os restantes temas coligidos, de “Between the Devil and the Deep Blue Sea” a “I Thought About You”, têm origem na década de 30 – provou ter vida própria e, com o passar do tempo, suportar, até, a paradoxal teoria de que é no seu âmbito específico que melhor se evidencia certo tipo de particularidades contrárias, por um lado, à indulgência com que se constituiu o vasto legado do seu fundador e, por outro, ao conformismo que, em condições normais, suscita a prática de quem, podendo entregar-se a criações originais, se dedica antes a um repertório canónico. De facto, o que se distingue desde 1983 – de “Standards, Vol. 1” e “Standards, Vol. 2” a “The Cure” (1990), “Bye Bye Blackbird” (1991) ou à sequência de sete registos, todos ao vivo, lançados entre 1999 e 2002 – é um mester em vias de extinção: o do músico que se subordina à música. Um percurso mais recentemente assombrado pela batalha que Jarrett travou com a síndrome de fadiga crónica que o dilacerava. Nessa medida, esta formação manifesta-se cada vez mais como um catártico postulado e um humilde testemunho de sobrevivência. Como procedente de um restaurativo lugar, digno do conto de fadas de que fala também ‘Stars Fell on Alabama’, outra das canções aqui incluídas, habitado – respetivamente, aos 68, 78 e 70 anos de idade – por Jarrett, Peacock e DeJohnette. Um lugar instável e eterno, que reside apenas no coração do jazz.

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