8 de março de 2014

Dowland: Lachrimae Or Seaven Teares (Alia Vox, 2013)




Hespèrion XX, Jordi Savall (d)

Nunca fica verdadeiramente fora de moda, a melancolia. E o mesmo se pode dizer dos seus cultores. Lembrou-o há pouco o Murakami de “1Q84” ao permitir que duas personagens tomassem “chá ouvindo a música de Dowland e contemplando as azáleas que floresciam como labaredas no jardim.” Há cerca de 400 anos eram atores de Shakespeare os propedeutas, cobrindo com conselhos os ouvidos moucos de Hamlet. E também então era Dowland que se ouvia. Aliás, não se imagina melhor acompanhamento para a leitura de “Tratado de Melancolia” (1586), de Timothy Bright, embora a tendência seja associar a sua música ao mais influente “Anatomia da Melancolia” (1621), de Burton. De qualquer das maneiras, ao contrário de tão eruditos tomos, os versos de John Dowland (1563-1626) não se desvirtuaram com o passar dos séculos, nem sequer redundâncias juvenis como as de “Tristeza, Fica”: “Nenhuma esperança, nenhuma ajuda me resta/ e para baixo, baixo, baixo, baixo eu caio.” Não há, de facto, cura para os males do espírito. Talvez por isso tenham os anos oitenta dado luz ao Dowland Consort e os da década passada ao Dowland Project, tão diferentes entre si quão variadas eram as suas prescrições de ignorar absolutamente o presente ou inteiramente o abraçar, adaptando-se, no entanto, a obra do compositor a ambas. Jordi Savall sabia-o em 1987 quando gravou este memorável disco e não será agora, que o reedita, que lhe desconhecerá as propriedades paliativas. Parece propor a questão: se Dowland derramou estas lágrimas sobre o túmulo do Período Isabelino, olhará para os sepulcros que a cada dia o rodeiam quem hoje se comover com o seu gesto?

Sem comentários:

Enviar um comentário