9 de março de 2013

Le Super Biton National de Ségou “Anthology” (Kindred Spirits, 2012)



O drama situa-se rio Níger acima, para os lados de Tombuctu e Gao, mas, como se sabe, a guerra santa não tem domicílio e, na sua proposição maliana, mascara o mais ordinário predatismo à face da terra. A biografia artística da Super Biton de Ségou, ainda em atividade e nominalmente inspirada na figura de Mamari ‘Biton’ Coulibaly – fundador do Império Bambara no início do século XVIII, região conquistada pelas cimitarras dos mujahidin em 1861 e, numa ação atualmente reencenada a norte, ‘libertada’ pelo exército colonial francês em 1890 – funciona, apesar de tudo, como uma parábola para a compreensão da maior das fantasias revolucionárias: a do igualitarismo. Porque a verdade é que, desenvolvida a partir das formativas Ségou Jazz, Alliance Jazz e Renaissance Jazz nas Semanas da Juventude criadas por Modibo Keïta nos anos 60, e apresentada, já na primeira das Bienais Artísticas e Culturais do regime de Moussa Traoré, enquanto Orchestre Régional de Ségou, a sua produção assimilava repertório bamana, fula, bozo, tuaregue, songhai, mandinga, dogon ou wolof num discurso, então, ancorado nas modernas formas afro-cubanas tão em voga. Aliás, comparando as suas gravações desse ano (editadas na alemã Bärenreiter-Musicaphon numa série de 15 títulos que incluía os emissários de Mopti, Tombuctu, Sikasso, Kayes ou, através da Rail Band, de Bamako) com as desta antologia, provenientes de um par de álbuns homónimos de 1977 lançados pela Mali Kunkan, verifica-se precisamente a emergência de um distinto perfil folclorista, melhor representado pelas malabares guitarradas de Mama Sissoko (oscilando, com orgulhosa sobriedade, entre escalas pentatónica e diatónica), o insigne timbre vocal de Mamadou Doumbia e a cerimonial expressividade do trompetista Amadou Bâ, numa configuração de paz e tolerância que se impõe relembrar.

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