2 de março de 2013

“Love, Revelry and the Dance in Mediaeval Music” (Ricercar, 2012)




Millenarium

Numa década, a partir de 1998, o conjunto Millenarium, fundado por Christophe Deslignes e Thierry Gomar, operou uma extática e libertária incursão pelo repertório medieval, com enfática concentração em códices, música instrumental e poesia trovadoresca, através de sete gravações para a Ricercar que, reunidas nesta coleção, se medem pelos mais esotéricos, cerimoniais e elucidativos manifestos gerados pelos homólogos Hespèrion XX, Clemencic Consort ou Ensemble Organun. Começando com “The Masters of the Florentine Organetto”, promoveram uma ação virtuosa e estabeleceram uma prática de proficiência técnica dada à improvisação, cuja expressividade é, neste caso, sublinhada pelo emprego do órgão portativo e do recurso a idiofones e membranofones da bacia do Mediterrâneo. O mesmo distinto e, porventura, hermético multiculturalismo que, já em “Joy: Troubadours’ Songs and Joungleurs’ Dances” e “Douce Amie”, lançados em 2000 e 2001, cria um vibrante fresco em que cabe o amor cortês, trovas do errante Bernard de Ventadorn, retratos de malabaristas e jograis, pastorelas de Thibaut de Champagne ou canções de gesta do ciclo das cruzadas, num enquadramento conceptual eminentemente contemporâneo. Perspetiva essencial para a teatral reconstituição – com “Tempus Transit”, registado em 2004, e “Officium Lusorum”, em 2005 – de páginas da “Carmina Burana”, que se escuta como uma negociação entre o sagrado e o profano à luz dos goliardos, e que atinge o zénite na encenação de uma paródica e transgressora ‘missa dos batoteiros’ no âmbito das folias das festas dos loucos. Por fim, em “Danza” (2007), relembra-se a função ritualista da música do pré-Renascimento e, em “Llibre Vermell” (2007), a devoção mariana do manuscrito de Monserrate, símbolo de tolerância e herança espiritual, perfeito cair do pano para a atividade do grupo.

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