Em 1997, quando a Real World editou “Inner Knowledge”, o primeiro álbum a solo de Paban Das Baul, encontravam-se no mercado um par de livros sobre os Baul de Bengala e – há muito esgotados os volumes na Chant du Monde e na Folkways consagrados à seita devocional – mera meia dúzia de edições em CD com a sua música. Era pouco, mas, em meados dos anos 80, com menos se gerou no ocidente uma eufórica recepção a um parente no misticismo sufi, Nusrat Fateh Ali Khan. Entretanto, e perversamente, após a inclusão pela Unesco das canções dos Baul na lista de “Obras-Primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade” – em que figuram o tango argentino, o samba de roda baiano ou, entre cerca de 160 elementos, as polifonias dos pigmeus da República Centro Africana – pouca coisa mudou. Desapareceram mais alguns discos e multiplicaram-se no YouTube os vídeos em que neófitos do ‘hippie trail’ em nobilíssimos actos de expiação perseguem pobres e desgrenhados trovadores pelas hortas e atalhos do delta do Ganges, trocando malgas de arroz pelo acesso à fonte de todos os avatares e ensinamentos sobre budismo tântrico, esotéricas práticas sexuais ou lições de ioga bhakti. Por essas e por outras se entregou Paban desde a sua estreia a degenerativas fusões de estirpe ‘asian chill’. Mas agora reencontra o caminho quem canta sobre o tempo – na realidade uma vida inteira – que leva um homem a conhecer-se. Produzindo, com estas brandas e ternas meditações sobre transitoriedade e eternidade, o mais intenso e distinto retrato daqueles que fazem do corpo o seu templo, retirando aos Baul a dimensão de firma de crédito de rectidão moral que, como uma piada de mau gosto, se lhes colava à pele desde que Bob Dylan posou ao lado dos irmãos Purna Das e Luxman Das na capa de “John Wesley Harding”. É que, escorrendo como água, surgem pela primeira vez estas melodias autónomas dos que, por vaidade, evocam a verdade num mundo que só a sabe trair.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
26 de junho de 2010
25 de junho de 2010
José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski
Ontem, no Centro Olga Cadaval, foi, mais coisa menos coisa, assim, e dificilmente poderia ter sido melhor:
19 de junho de 2010
"Tumbélé! Biguine, Afro & Latin Sounds From the French Caribbean, 1963-74"
Em “The Hunter”, de 1982, uns Blondie já fora do prazo arriscaram um derradeiro arremesso conceptual com ‘Island of Lost Souls’, mandrião calipso com credibilidade insular no trompete do porto-riquenho Luis ‘Perico’ Ortiz e inclinação ‘primitivista’ em cinquenta segundos de uivos e cuícas a imitar araras e saguis. A canção inspirou-se na adaptação para cinema de “The Island of Dr. Moreau”, de H.G. Wells, produzida em 1933 pela Paramount e na qual, reagindo a um distante e nocturno clamor ritualista que se presumia de origem nativa, declarou Charles Laughton no papel do infame doutor: “they are restless tonight.”. Do mesmo filme saiu outra frase para a posteridade quando a personagem interpretada por Bela Lugosi levantou a crucial questão futuramente repetida pelos Devo: “Are we not men?”. De facto, por aí se escrutinar a condição humana em circunstâncias laboratoriais, muitas vezes se voltou à metáfora da ilha para atingir fins moralistas. Da “L’Île Mystérieuse”, de Jules Verne, ao “Lost”, de J.J. Abrams e Damon Lindelof, não faltam exemplos do fascínio exercido pelo cenário nas mentes ocidentais. Parece a cultura popular saber o que no contexto da bio-geografia ensaiou David Quammen em “The Song of the Dodo”: que “as ilhas são santuários e terrenos férteis para o único e o anómalo”. “Tumbélé!” vem reafirmá-lo de forma exuberante. E porque chega de um mundo perdido – umas Martinica e Guadalupe que nos anos 80 abraçariam o sucesso comercial do zouk esquecendo a patente aqui evidenciada – mais dramático se prova o reconhecimento de uma infecciosa e vagamente assimétrica evocação dos estilos de Cuba, Congo ou Haiti, aplicada aos locais beguine ou gwo-ka. São vinte temas de frenético exotismo, desmembrando ainda o jazz crioulo de Sidney Bechet, bombas, plenas e restante diáspora caribenha, e tudo reagrupando devidamente fora do sítio até se apagar a consciência regional e, como não poderia deixar de ser, restar apenas a fantasia.
12 de junho de 2010
"Ghana Special" & "Ghana Funk"
É sabido que o mercado da música africana é vulnerável a factores externos. E tornou-se evidente que dependia do gosto de não-africanos quando em 1987 permitiu a diluição do ‘afro pop’ na salada de frutas da ‘world music’ e se rendeu a fantasias criacionistas. Foi uma maneira de fazer pela vida que, de Cesária a Ali Farka, deu emprego a muita gente. Mas, de tão simplista e distante da realidade, alienava aqueles que recordavam dançar-se no Studio 54 o ‘Soul Makossa’ ou experimentar-se psicotrópicos ao som dos Osibisa e impedia a adesão do público indiferente ao mito da autenticidade. A música aqui reunida representa precisamente um instante de vertiginosa aceleração que torna redundante a presunção de imutáveis identidades culturais. Porque na sua prática implodem uns e outros, cópias e originais, até sobrar apenas o apetite pela alteridade. Ou seja, a aplicação do “Manifesto Antropofágico” de Oswald de Andrade regurgitado do outro lado do Atlântico pelos tropicalistas brasileiros, partindo do highlife e do afrobeat até engolir o cartaz do “Soul to Soul” (o concerto em Accra que em 1971 juntou Wilson Pickett, Ike & Tina Turner, Roberta Flack e Santana). Por isso, antes de Brian Eno (que aí produziu os Edikanfo), Mick Fleetwood (que aí gravou “The Visitor”), Paul Simon e Peter Gabriel (que empregaram ganeses nas suas bandas), eis Apagya Show Band, Cutlass Dance Band, Uhuru Dance Band, Hedzoleh Soundz ou African Brothers a contribuir para o enterro da ‘world music’ e a restaurar, como aliás deve de ser, a impureza africana bem no centro das nossas vidas.
5 de junho de 2010
“African Pearls: Pont Sur Le Congo”
Ainda se apalpa o terreno. Mas tudo indica que a reincidência do Congo no caminho do antologista servirá para contrariar os que procuram na exumação do ‘afro funk’ um sentido para a vida. Até porque começa o próprio mercado de reedições a torcer o nariz à fancaria do pensamento único. E tanto melhor se o seu reverso não se diluir num pluralismo de pacotilha entregue aos mais ingénuos impulsos humanistas. Nada é assim tão simples e, aliás, esta é uma história de sangue, vingança e inflexível rivalidade. Daí encerrar alguma ironia um subtítulo que evoca o tema de Franklin Boukaka gravado em finais de 60 com a Cercul Jazz: ao sonho de um Congo unido, e após se envolver num abortado Golpe de Estado em Congo-Brazzaville, respondeu-lhe em 72 um pelotão de fuzilamento. Que não se presuma vontade política nesta metafórica ponte – a comunicação que pressupõe tem tudo a ver com tráfico.E nem poderia ser de outra maneira. Fundamentalmente em Congo-Kinshasa (ou Zaire, a partir de 71), este foi um momento – aqui fixado entre 68 e 76 – de agitação criativa sem precedentes. Comprovam-no materiais efervescentes produzidos pelo lustroso Trio Madjesi, pela infalível Orchestre Lipua Lipua de Nyboma Mwan Dido, pelos desembaraçados Grands Maquisards de Dalienst Ntesa, pelas ondulantes vozes (Pépé Kallé, Dilu Dilumona e Papy Tex) de Empire Bakuba ou do trio Cepakos, pela recreativa Zaïko Langa Langa ou, inevitavelmente, pelas transparentes malhas entrançadas pela O.K. Jazz de Franco, Orchestre Vévé de Verckys ou por Docteur Nico (com a sua guitarra flutuando em uníssono com as de Dechaud e De La France na African Fiesta Sukisa). Não faz o retrato completo (aguarda-se a entrada na série de Thu Zahina, Nickelos, Manta Lokoka, Shama Shama, Stukas, etc) mas num Verão quente servirá para reduzir o suor a vapor.
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29 de maio de 2010
Aníbal Velásquez y su Conjunto "Mambo Loco 1962-1978" & "The Afrosound of Colombia Volume 1"
Isto começa a ter contornos de livros de aventuras. Porque na renovação de exaltantes experiências pós-coloniais se empenham febrilmente aqueles que, hoje, desenham a curvatura do groove à escala global e também porque na militância por causas esquecidas descrevem por vezes inflexões concordantes. No caso, Analog Africa e Vampisoul rumam à Colômbia no momento em que a Soundway anuncia “Palenque Palenque: Champeta Criolla & Afro Roots in Colombia 1975-1991” retratando de forma complementar as transformações estéticas aí ocorridas desde os anos 60. E relembrando que no único país da América do Sul a possuir costa pacífica e caribenha a compreensão da sua sociedade depende do conhecimento da geografia e demografia. Porque os acontecimentos aqui reproduzidos foram determinados pela fixação de populações escravas e de sua descendência nas regiões costeiras. Ou seja, para além da análise de fenómenos musicais, provocam estas antologias uma reflexão sobre identidades raciais e nacionais numa narrativa central de mestiçagem.
Aliás, a popularidade do acordeonista Aníbal Velásquez – ainda em actividade – representa um exemplar processo de transformação e apropriação. Num instrumento sem tradição local, redefiniu a música costeña substituindo-se aos metais das orquestras e charangas e – num daqueles saltos evolutivos que tanto devem ao engenho – trocando no seu grupo bongôs por tarolas que em vez de pele animal se cobriam por chapas radiográficas. A expressão seca e dura que imprimiu em mambos e guarachas originou um vibrante híbrido cultural nesta compilação sintetizado em magra dezena de temas. Em contrapartida, a investida de Pablo Yglesias – autor de “Cocinando! Fifty Years of Latin Album Cover Art” – pelos arquivos da Discos Fuentes reúne 43 gordurosas fatias de desenfreada diáspora que funcionam ainda como uma retrospectiva de Fruko y sus Tesos, Afrosound ou Wganda Kenya. Num incendiário ponto de encontro entre África, América e as Antilhas, supera as locais cumbia, porro, vallenato e chicha, sugerindo o absurdo dos Kraftwerk perdidos em Miami, da dupla Perrey-Kingsley em exploração amazónica, dos Funkadelic liderados por Manu Dibango ou de Sun Ra dedicado ao benga queniano. Tudo num selvagem capitalismo musical que da marijuana passou para a cocaína e que, naturalmente, teria de acabar mal.
22 de maio de 2010
Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez"
Fizesse gala de algum tipo de conexão intelectual e ter-se-ia inscrito na História como um segundo “Tropicália ou Panis et Circensis”. E caso alguém por ele tivesse dado em ‘71, reconhecer-lhe-ia um ano depois ascendência sobre “Acabou Chorare”, o paradigmático álbum-esponja dos Novos Baianos. Porque vindo de produzir Leno em “Vida e Obra de Johnny McCartney”, Raul Seixas – com obscuros auxiliares de pouca sorte – aproveitava os créditos acumulados na CBS, e umas férias do seu Director Geral, para ensaiar um desconcertante e dispendioso manifesto capaz de levar o rock de propensão psicadélica às fronteiras do bolero, baião, xote, choro, seresta ou samba (aos quais jamais voltaria de forma tão declarada), com o fim de revolucionar a música brasileira.
Longe da pretensão dos seus conterrâneos – que tentando reflectir a iminência plástica da cultura popular dela se afastavam – antecipava a mensagem, tão inconformista quanto inconstante, que viria a concretizar com ‘Metamorfose Ambulante’ (“eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”), em ‘73 incluído em “Krig-Ha, Bandolo!”. Mas, por enquanto, a proposta desta Grã-Ordem – vinda então de um desconhecido, pois poucos teriam ouvido Raulzito e os Panteras ou lhe reconheceriam o nome nos créditos de Jerry Adriani ou Tony & Frankye – foi demasiado ousada para a censura (que lhe proibiu canções), arriscada para a editora e esquiva para o grande público, ficando nas entrelinhas de biografias artísticas e na esfera mitológica do coleccionismo.
E apesar de não ser bem o “disco voador” de que também fala – possui na sua essência aproximações melódicas aos Mutantes de “Jardim Elétrico” ou ao Tom Zé de “Se o Caso É Chorar” – esta “Sessão das Dez” terá agora outra relevância. Porque é hoje claro que na viagem até ao lugar cimeiro do rock no Brasil, com a série de semi-obras-primas gravadas até finais da década de 70, não voltou Seixas a empunhar o mundo regional contra uma ‘sociedade de consumo’ retratada em frases de tão presente acuidade como “p’ra quê pensar, se eu tenho o que quero? Tenho nêga, o meu bolero, a TV e o futebol”, a arriscar soluções formais de idêntico radicalismo (marchas circenses embatendo em frevos, vinhetas Belle Époque como jingles publicitários e arranjos acusmáticos da estirpe Zappa-Martin-Duprat) ou a comunicar tão desembaraçadamente as suas ideias. E isso vale ouro.
15 de maio de 2010
João Donato "Sambolero"
Na contracapa do elegante “Bud Shank & His Brazilian Friends”, de 1965, escreveu John William Hardy que João Donato tocava como uma possível resposta sul-americana a Tommy Flanagan. Impressionaram-lhe características que, como em tantos músicos dessa geração, de Red Garland a Sonny Clark, combinavam concentração e descontracção, graciosidade e excentricidade. Décadas depois – embora se aproxime mais em estilo a Horace Silver – será a Thelonious Monk que substancialmente se assemelha. Porque em ambos se encontra a visão do silêncio enquanto imponderável poética, tendência para o esoterismo harmónico, enfático discurso rítmico ou fascínio pela repetição de ideias melódicas. Mas também porque, tendo definido prematuramente as suas virtudes e a elas se mantido fieis, foram tidos como loucos e posteriormente reavaliados como génios. Tudo isto é relevante num álbum (com Luiz Alves no contrabaixo e Robertinho Silva na bateria) em que, quanto muito, alarga a cintura a clássicos (alguns com quase 50 anos) como ‘A Rã’, ‘Bananeira’ ou ‘Lugar Comum’ e mais uma vez prova que continua demasiado novo para a bossa nova.
8 de maio de 2010
"Lagos Disco Inferno"
Arranca numa ‘Boogie Trip’ de licenciosos contornos – entre o Marvin Gaye de ‘Got To Give It Up’ e os Rose Royce de ‘Do Your Dance’ – e setenta minutos depois é como se o “Saturday Night Fever” nunca tivesse acontecido. Porque esta compilação de invulgar origem (Nigéria, via “Voodoo Funk”, o blogue de Frank Gossner) e inesperado sentido de oportunidade (indiferente à canonização de Fela Kuti) apaga da memória o enlatado disco-sound que, longe dali, dos centros das cidades transferiu a ilusão de risco para o coração dos subúrbios. E em doze lúbricos, onanistas e extáticos passos, de lambuzadas linhas de baixo e libertinas malhas rítmicas não menos dependentes do funk, devolve gordura a um estilo que aspirou a carne e o tutano da década que o viu nascer. Além de retratar o instante – o do boom petrolífero – em que bandas nigerianas competiam com Ohio Players, B.T. Express ou Blackbyrds pelas pistas dos ostentosos clubes de Lagos. Há aproximações a KC & The Sunshine Band ou Heatwave, de África pouco mais se pressente que o espírito de ‘Soul Makossa’, e, inevitavelmente, tudo haveria de se extinguir – é que, como tinham já avisado os Tower of Power, ‘(There’s) Only So Much Oil In The Ground’. Uma revelação.
1 de maio de 2010
Amanaz "Africa"
A história é contada por Egon, responsável pela Now-Again, e, além de relembrar o atávico instinto predatório escrupulosamente transmitido entre coleccionadores de discos, dirige-se indirectamente à perniciosa natureza de blogues consagrados à eufemística ‘partilha de ficheiros’: encontrando o contacto de Rikki Ililonga, fundador dos pioneiros Musi-o-Tunya (também de Paul Ngozi), consigo trocou correspondência com o fim de recolher informações sobre o zam-rock, sua propriedade e acessibilidade; Ililonga conduziu-o a Keith Kabwe e Isaac Mpofu, cantor e guitarrista dos Amanaz e detentores dos direitos sobre as obras pelo grupo gravadas, e em meia dúzia de linhas se provou a ilegitimidade da reedição em LP de “Africa” (1975) pela alemã Shadoks (braço esotérico da QDK). Talvez motivado pelo absurdo de ver espoliados por cidadãos de países ricos aqueles que a estagnação económica de um país pobre levou a uma vida longe da música, Egon intermediou as negociações que garantiram legalidade ao seu relançamento – de igual sorte não gozaram ainda Ngozi Family ou Chrissy Zebby Tembo –, permitindo a celebração de um estilo que, resumindo, ressaca num amanhã irremediavelmente perdido os excessos cometidos na véspera por Cream, Can, Who ou Hendrix.
24 de abril de 2010
Bako Dagnon “Sidiba”
Do encontro entre dois mundos se trata ainda. E, mesmo que na sua união escasseiem as virtudes e sobejem os defeitos, continuam, como num mau casamento, a não conseguir viver um sem o outro. “Sidiba”, à semelhança do que se tem passado nos discos de Salif Keita, vem nesta perspectiva confirmar a incapacidade de produtores europeus em compreender os impulsos de modernização na música do Mali. Assim, recorrendo a redundantes efeitos de pós-produção que a enfartam, desperdiçam Jean Lamoot e Jean-Louis Solans o essencial de uma proposta que, no seu discretíssimo radicalismo, arriscou já uma inesperada alteração de paradigma. Pois – e nem as notas de apresentação lhe dão o devido crédito – este segundo CD da antiga cantora do Ensemble Instrumental du Mali dispensa por completo instrumentos associados à tradição das jelimusolu. E ao substituir a kora, o ngoni e o balafon por duas guitarras acústicas e uma eléctrica – nas mãos de Mama Sissoko, veterano dos Maravillas de Mali ou National Badema – mais não faz do que anunciar uma condição eminentemente contemporânea para si e a criação de um novo espaço de subtileza para a arte griô. Ou seja, exemplificando, tratar-se-á de um caso de negligência acrescentar uma linha de baixo extraída às Antilhas a uma diáfana ‘Wouya Larana’, precisamente no momento em que replicam as vozes áspera de Dagnon e maviosa de Hadja Kouyaté, ou aproveitar qualquer tema de inspiração latina, como ‘Fadeen Tô’, para elevar na mistura uma guitarra flamenca gravada em Paris ou temer o silêncio que se adivinha em ‘Alpha Yaya’ ao ponto de saturar a reverberação de cada uma das suas notas e lhe sublinhar o tom em sintetizador. Claro que não será um sinal menor de grandeza sobreviver a tão infiel manipulação nem se imagina melhor e mais amadurecida voz para a enfrentar. Mas, como diz um velho provérbio mandingo, “por mais tempo que uma canoa passe dentro de água, nunca será um crocodilo”. E é essa pretensão que, por ora, impede o reconhecimento de um clássico.
17 de abril de 2010
“Brazilian Guitar Fuzz Bananas 1967-1976”
Por vezes fica no ar a impressão de que a fasquia não pode subir mais. Mas logo nos lembramos que os recordes só servem para ser quebrados. No caso – o da compilação de raridades – tudo é vagamente paroxístico e inflacionário. E só faz jus à fama o que anuncie um novo mundo. Disso saberá Joel Stones, aliás Joel Oliveira, proprietário da Tropicália in Furs (loja de discos na East Village) e responsável por esta selecção. Pois, armado com “uma verdade” (o single enquanto veículo de eleição para experiências estéticas desviantes), para o Brasil viajou com a única missão possível ao arquivista moderno: procurar aquilo que não se sabe existir. Encontrou ié-ié sinestético (Marisa Rossi), garage demente (Célio Balona), soul sideral (Tony Bizarro) e incontáveis variações de ácidos e toxinas como as que levaram os Youngsters aos Beatles, Serguei a cantar “meus cabelos virando jardins”, Fábio ao acrónimo ‘Lindo Sonho Delirante’ ou Ely Barra (Brazilian Bitles) a “fugir à realidade”. Tudo inédito em CD e apenas dois nomes (Mac Rybell e Loyce e Os Gnomos) já divulgados em blogues como Mopho ou Brazilian Nuggets. Exemplar.
10 de abril de 2010
“Afro-Rock Volume One”
Ninguém dirá que abriu as comportas – pois cedo caiu no esquecimento ou porque “Africafunk” em 1998 e “Club Africa” em 1999 o precederam –, mas, na medida em que existiram músicos que influenciaram mais outros músicos do que a música propriamente dita, não andará longe da verdade quem atribuir ao volume inaugural da Kona Records, em 2001, a inspiração para a subsequente militância da Soundway, Analog Africa, Sterns, Honest Jon’s, Vampisoul ou Strut, que agora o reedita e que então o superou com “Nigeria 70”. Isto é, para lá da cronologia, “Afro-Rock” comprova a mudança de paradigma – subvertendo perversões conservacionistas – na representação da música africana por editoras europeias. E, valorizando a mais incendiária, subterrânea, frenética e marginal produção queniana, ganesa ou congolesa, actualizou também o dicionário do funk, soul e do próprio afrobeat. Permanece uma extática experiência mas ganha contornos caucionários: aos seus activistas (Ishmael Jingo, Geraldo Pino, Steele Beauttah, etc) só garantiu reconhecimento póstumo.
2 de abril de 2010
“Jonny Trunk & Joel Martin Present Bollywood Funk Experience”
Não será pelo zelo demonstrado que ficará na memória. Aliás, Jonny Trunk (Trunk Records) e Joel Martin (Quiet Village), talvez pela presunção de verdade que há nos discos, nada dizem sobre os filmes por detrás da música. Mas mais conhecimento de causa teria evitado erros grosseiros nesta compilação e, num nicho de mercado subitamente saturado, a aparência daquele que vende gato por lebre (um exemplo: adjectiva-se de forma colorida o reggae ‘Mainne Kaun Koi Kya Jane’, de “Cricketer”, na voz da cantora Anuradha Paudwal; ora, o reggae existe, mas quem o canta é um homem, Bhupinder Singh, e intitula-se ‘Maine Kaha Tha Mat Jao Tum’). Além de que carece de rigor o seu conceito – pois sobra em tudo o que se possa imaginar, do mambo de estalar a pele de tambor ao mariachi mais embriagado, o que aqui falta em funk. Só que não deixa de ser suficientemente representativa esta reunião de temas, justificando que à sua custa ingresse num mundo desconhecido o ouvinte de espírito mais aventureiro. Ainda para mais quando, em rica caldeirada, sublinha a reincidência na bizarria ocidental e no suspensivo exotismo de nomes como R. D. Burman, Khayyam, Bappi Lahiri e das duplas Shankar-Jaikishan, Laxmikant-Pyarelal e Kalyanji-Anandji.
‘Lekar Hum Deewana Dil’, de “Yaadon Ki Baraat” (1973), cantado por Asha Bhosle e Kishore Kumar. Música de R.D. Burman
27 de março de 2010
El Gran Fellove “Mango Mangüé”
“Ah Fellove estavam a tocar o teu Mango Mangué no rádio e a música e a velocidade e a noite envolviam-nos como se quisessem proteger-nos ou enlatar-nos no seu vazio e ela ia ao meu lado, a cantar…”, escreveu Guillermo Cabrera Infante em “Três Tristes Tigres”. E, porque ambos contribuíram para uma certa ideia de diáspora, parece apropriado evocar o nome de um através do outro. Ainda para mais quando representam também uma dimensão relativamente esquecida – senão subestimada – mas essencial na compreensão do sincretismo cubano: a da sátira. Esta antologia de Francisco Fellove Valdés poderá enfim contribuir para a alteração do estatuto do seu titular. Porque, injustamente, permanece uma nota de rodapé nos estudos sobre música latino-americana quem no seu tempo ganhou o epíteto de “El Gran” e, fundamentalmente, porque o que nela se ouve ilustra de forma exemplar décadas de transformação estética. Gravados para a RCA mexicana entre meados dos anos 50 e inícios de 60, estes 21 temas, talvez inadvertidamente, reavivam de forma exaltante velhos cismas nascidos no contínuo frenesi criativo de Havana. E derivam do fundamento rítmico afro-cubano para logo trazer à lembrança guarachas de antigas zarzuelas, combinam rumbas ouvidas nas docas com refinados arranjos para orquestra ao estilo dos espectáculos de Xavier Cugat no “Tropicana”, cruzam mambo e guaguancó, estilizam o bolero e o cubop (Fellove, antes de abandonar a ilha rumo ao México e Nova Iorque, participava nas famosas descargas organizadas por músicos como Israel ‘Cachao’ López), agilizam o son montuno de Septeto Habanero ou Sexteto Nacional, abrandam o cha cha cha e, precocemente, aceleram o boogaloo, ensaiam o doo wop ao jeito dos Zafiros e, essencialmente, servem um vocalista que – entre Louis Armstrong e Cab Calloway – se entregava ao scat como se o tivesse inventado. No mínimo, inesquecível.
20 de março de 2010
Ali Farka Touré & Toumani Diabaté “Ali and Toumani”
Se em vida Ali Farka Touré serviu as mais apócrifas especulações – e a maior, aquela parábola em que surgia como um ‘elo perdido’ entre qualquer coisa demasiado antiga para vir nos livros de História e o que pela América do Norte faziam bluesmen como John Lee Hooker ou Lightnin’ Hopkins, colou-se-lhe à pele desde a sua ‘descoberta’ – não será agora, ao cumprir-se o quarto aniversário da sua morte, que virá comprovar imperturbáveis axiomas. Mas não restarão dúvidas que, talvez por incapacidade em lidar com tão insular proposta, preferiram ignorá-lo (todos os que ‘o levaram’ ao ocidente) sempre que dizia, simplesmente, tocar “música africana”. Porque a verdade é que não há mais fiel expressão para o distinguir nem será outra – ainda que fiquem os momentos de maior notoriedade na sua biografia artística ligados a músicos de distinta proveniência – a fonte de que sempre bebeu. Para o entender basta voltar a “The Source” (1992), em que tudo depende da imanência musical de África.
Também “Ali & Toumani” se ouve como uma contínua balada. E, contrariamente a “Savane” (2006), que vinha sobretudo relembrar o que o seu autor fez em vida, aproxima-se este segundo título póstumo da ideia de testamento criativo. Porque se por um lado – frágil, brando, meditativo, de tempos lentos, cordas mal pisadas e guitarra amparada pelo diáfano rendilhado da kora de Toumani Diabaté – nele se reconhece um homem invadido pela leucemia, prudentemente resignado face ao seu destino, por outro, recorrendo com inesperada urgência a uma reserva de fantasia – a tradição mandinga – que há muito se provou inesgotável, permite imaginá-lo antes em eterno passeio pelas verdes margens do rio Níger, saudando com estas canções as blandícias da Primavera. E não se poderá pedir muito mais a um último álbum.
13 de março de 2010
Antônio Carlos Jobim "Minha Alma Canta"
Consumido por uma perene frustração, Almir Chediak desabafou um dia com o seu aluno Moreno, filho de Caetano, quanto à absurda desadequação dos livros de partituras para violão face ao real interesse dos seus executantes. E porque proficiência no “Concerto de Aranjuez” serviria saraus familiares mas dificilmente conquistaria corações impunha-se uma simples questão: porque não – passando canções ao papel – facilitar a vida aos fãs de Caetano, Chico, Gil, Djavan ou Vinicius? Entre 1989 e 2003, ano do seu assassinato, Chediak organizou esses “Songbook” criando a editora Lumiar e, a partir do volume dedicado a Noel Rosa, produzindo um CD em que cantores consagrados interpretavam temas dos homenageados. Jobim, na sua derradeira fase de absoluto sincronismo – em que cabiam samba, impressionismo, a Mata Atlântica bordejando o litoral e o Sabiá anunciando a Primavera, e em que perdia a voz à medida do desaparecimento da Amazónia – teve na série as catorze participações aqui reunidas. Apoiado na Banda Nova – dos jobins, morelenbaums e caymmis – e nas vozes de Chico, Leila Pinheiro e uma sublime Gal, torna suas páginas de Vinicius, Noel, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Edu Lobo, aproveitando, como sempre, para relembrar a todos o que é ser-se brasileiro.
6 de março de 2010
“Éthiopiques 24: Golden Years of Modern Ethiopian Music 1969-1975” & “Éthiopiques 25: 1971-1975 Modern Roots”
E do baú não se vê o fundo. Porque, contrariando permanentes mistificações sobre a acessibilidade, a verdade é que o mundo continua cheio de histórias por contar. Outra coisa não motivou Francis Falceto quando, em 1997, iniciou a série que mais vezes desde o “Live Aid” levou o nome da Etiópia aos jornais. Que o tenha feito sem apelar a caridosos instintos ocidentais será, em si, um pequeno triunfo. E, ainda que assente em méritos artísticos individuais, desse esforço não foi consequência menor a chegada de Mulatu Astatke (vol. 4) ou Alému Aga (vol. 11) a palcos internacionais. Agora, torna ao catálogo de Ahma Eshèté, do qual havia já extraído material para os volumes 1 e 3, e, como duas faces de uma mesma moeda, representa estilos urbanos (vol. 24) e rurais (vol. 25). Como de costume, não sugere menos que a descoberta de uma realidade paralela em que toda a importante música moderna parece ter raiz na terra da australopiteca Lucy. Porque, já um antepassado nosso o sabia (Francisco Álvares, autor em 1540 de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”), aí normalmente se confundem facto e fantasia.
27 de fevereiro de 2010
Otto “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranquilos”
Se, em involuntário diálogo inter-geracional, o que Caetano Veloso ensaiou no retesado “Cê” foi superado pelo “Sou” de Marcelo Camelo, vê-se agora fortificado o mais exangue “Zii e Zie”. Isto é, o regresso do baiano ao rock coincidiu com o momento em que o modelo brasileiro do género absorveu características eminentemente velosianas: abertura ao mundo, vulnerabilidade sensual, êxtase confessional. “Certa Manhã…” soma uma página ao tomo dos ‘break-up albums’ (Otto separou-se da actriz Alessandra Negrini em 2008) sem por um instante vacilar em suicidária auto-comiseração ou encharcar em nostalgia o sudário. Se o seu título parafraseia o início de “A Metamorfose”, de Kafka, compreendê-lo-á melhor quem o julgue pelas primeiras palavras que nele se ouvem: “Há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua”. A comandar a ascensão estão Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Pupillo (Nação Zumbi), na figura do anjo surgem Julieta Venegas e Céu, mas é na terra que o antigo activista do mangue beat procura a redenção – e nos momentos em que cruza jovem guarda, afrobeat e samba, prova que, com o seu melhor álbum, a encontrou.
20 de fevereiro de 2010
“Back to Peru vol. II (1964-1974)”
No que à música peruana diz respeito, o primeiro volume de “Back to Peru” – a par de “Roots of Chicha: Psychedelic Cumbias from Peru”, lançado pela Barbès – inverteu as bolorentas regras de reedições assentes no paradigma ‘etno’ e derivados e veio lembrar ao mundo que a costa do Pacífico da América do Sul não foi imune às vagas da ‘british invasion’. Por isso – generalizadamente evitando repetições – nestes 34 temas de rigorosa extracção neo-rock’n’roll não surge uma única flauta de pã e sublimam-se Kinks, Rolling Stones, Beatles ou Animals ao mesmo tempo que, num misto de coragem e elementar falta de prudência, se opera no coração de indomáveis bestas norte-americanas como as surf music, garage ou psychedelia. Mas para lá de chupar até ao tutano Sandals, Mitch Ryder ou Jimi Hendrix (representados em versões mais ou menos declaradas), bandas como York’s, Drag’s, Holy’s ou Shain’s – a que não se perdoava a fraqueza de espírito face ao doce néctar espremido ao capitalismo – espelhavam uma subterrânea corrente perseguida pelo regime de Juan Velasco Alvarado. Tal, devidamente condicionado por uma obsessão nacional com OVNI e temperado pela mais heterodoxa sexualidade, justificará este ‘vale tudo’ contra-cultural de go-go lisérgico, ié-ié solto em selvas de cogumelos, blues andino-alienígena e folclore psicotrópico.
“Ouled Bambara – Portraits Of Gnawa”
Na sua insuperável busca por êxtase e redenção, um mundo da música desiludido com os seus mitos e ritos ruma ciclicamente a moradas do ‘exótico’, como Marrocos. E, salvo raríssimas excepções, de lá regressa com bateria cósmica recarregada e biografia insuflada pelo mais zelote moralismo colonial. Muitos, desde que há 50 anos Brion Gysin transformou os Master Musicians of Joujouka numa banda de restaurante e que, há 40, Brian Jones com eles ressacou pelo Atlas – seguindo ainda os exemplos de Ornette Coleman, Rolling Stones, Pharoah Sanders, Robert Plant ou Randy Weston –, aí renovaram energias criativas e missionários impulsos resgatando ao anonimato futuras etnias para auditórios europeus. Mas, ocasionalmente, como fizeram Paul Bowles, Bill Laswell ou a editora Al Sur (na série “Les Maîtres du Guembri”), produzem-se também gravações que revelam uma cultura local indiferente a estímulos exteriores, imune a mistificações espiritualistas em segunda-mão e impermeável aos vícios comportamentais de arquivistas. “Ouled Bambara” é dessa estirpe e, pela mão experiente de Maâlem Brahim Belkani, Hassan Zougari ou Abdelkbir Marchane, alimenta-se de uma identidade eternamente em crise, profundamente esotérica e invariavelmente impenetrável. Não fica muito mais ‘real’ do que isto.
13 de fevereiro de 2010
Egberto Gismonti “Saudações”
Gismonti não é dado a efemérides, mas em 2009 cumpriram-se 40 anos desde que se estreou em disco. Tratou-se, então, de um incaracterístico álbum para a Elenco, na órbita de Baden Powell, com tímida dependência rítmica da bossa jazz e temas em evaporação instantânea para a nebulosa partilhada por Carlos Lyra, Roberto Menescal ou Marcos Valle. Um ano mais tarde, o túrgido “Sonho 70” ombreou com Taiguara ou Edu Lobo e revelou amplo cunho autoral. “Água e Vinho” e novo registo homónimo, em 1973, concentraram as suas mais belas canções e só pecaram ao cobiçar os vizinhos Milton Nascimento e Ivan Lins. À distância percebe-se que serviram também para o definitivo acordar da besta, com “Academia de Danças” e “Corações Futuristas”, a obra-prima de 1976, a sintetizar e jubilar a vanguarda brasileira.
Talvez por tudo isto se tenha atravessado no seu caminho a ECM. Infelizmente, se ganhou uma carreira deixou de ser celebrado pelo que de melhor havia feito: para a posteridade, 1977 não foi já o ano do vibrante e contraditório “Carmo” e sim o do primitivo-laboratorial e antropológico-pastoso “Sol do Meio-Dia”. E assim sucessivamente até tudo se diluir numa produção progressivamente sumida, insular e revisionista.
“Saudações” não corrige o rumo a uma discografia que desde 1981 perdeu o Norte, mas pelo menos remete para o mais longínquo do seu passado. “Sertões Veredas”, a suite para cordas no CD1, recupera o melancólico motivo que em 1979 compôs para “Saudades”, de Naná Vasconcelos, relembra ‘Sertão Brasileiro’, uma das peças de “Nó Caipira”, de 1978, e sugere um Aaron Copland a correr pelo Nordeste ou um Steve Reich a meditar pelo Sertão antes de decalcar Bach, Mozart e Villa-Lobos. O CD2, com o seu filho Alexandre, traz dez “Duetos de Violões” em regime de sarau familiar e vira páginas ilustres do songbook caseiro como ‘Lundú’, ‘Palhaço’ ou ‘Dança dos Escravos’. Mas não chega para acordar um continente adormecido.
6 de fevereiro de 2010
Maria Bethânia "Tua" & "Encanteria"
Bethânia continua bela como uma árvore feia, com o cabelo cada vez mais feito só de raízes e galhos – pêlo de prata sobre olhos prazenteiros – e uma tez ora esculpida a cera ora desenhada a carvão. Tudo numa máscara de luz e sombra, concentrando a memória da terra e do mar. Ela, que se fez em palco, a quem chamaram Rainha, outrora vestida de dourados e tingida de vermelhos, vai agora em disco despontando inevitável mas imperturbavelmente grave e branda, como um lento astro atrás de marés. De forma paradoxal, parece-se também cada vez mais com o Brasil: quanto mais por si o tempo passa mais preparada está para começar de novo.
Não que pela edição simultânea de dois álbuns opere algum tipo de corte no seu passado recente. Muito menos, soçobrando com o peso de mais uma efeméride, se esgota numa meditação sobre a memória. Adivinha-se antes aqui uma lógica convergente que, por acumulação, permite compreender os seus interesses e motivações ao longo da última década (desde “A Força Que Nunca Seca”, de 1999), na qual, no entanto, não inscreve a nostalgia de forma literal: isto, porque traz maioritariamente canções inéditas que falam tanto de si quanto da ideia que de si têm os seus autores. E, como em “Brasileirinho” (2003), “Pirata” (2006) ou “Mar de Sophia” (2006), reitera o fascínio por um mundo rural imerso em símbolos, mitos e fantasia, a devoção aos Orixás e ao Candomblé de Caboclo, a capacidade de apurar impulsos conceptuais de fundação poética, a progressiva atenção aos arranjos de Jaime Além (destilando boleros de ‘piano bar’, dedilhando impressionistas baiões, dissolvendo solenidade de câmara em atmosfera caipira) ou a metáfora que faz do mar e rios afluentes da paixão.
“Tua”, com inspirados originais de Dory Caymmi/Paulo César Pinheiro, César Mendes/Arnaldo Antunes ou Chico César/Paulinho Moska (este, um dueto com Lenine), vem dedicado ao amor e à saudade e, no seu melhor, é um sucedâneo de “Âmbar” (1996) com menos pérolas no colar. “Encanteria” consagra-se à fé e ao sincretismo baiano, tem uma ‘Saudade Dela’ (com Caetano e Gil) capaz de lembrar ‘Alguém Me Avisou’ (que os três cantaram em “Talismã”, de 1980) e revela-se indispensável nos sambas de Roque Ferreira e nos temas com a Orquestra Portátil de Música, de Maurício Carrilho e Luciana Rabello. Não marcam, nem poderiam, este tempo como há muito fizeram “Drama” (1972), “Álibi” (1978) ou “Alteza” (1981), mas chegam para provar que Bethânia continua mais bela e importante que os seus discos.
30 de janeiro de 2010
Amina Alaoui “Gharnati – En Concert” & Jon Balke - Amina Alaoui “Siwan”
Canta Amina Alaoui e liquefazem-se azulejos em Alfama; enquanto isso, explorando o bairro sob lua incerta, o violino de Kheireddine M’Kachiche derrama tinta em mapas invisíveis e entontece-lhe nas vielas o sangue; sobretudo, as notas que se soltam do alaúde tunisino de Sofiane Negra – como grãos libertos das ampulhetas em que se guardou o pó dos califados – estremecem-lhe muralhas. É assim “Gharnati”, e tanto melhor. Pois quem reclama hoje a herança do Al-Andalus declarará – entre outras coisas – um património poético fundamental para a renovação responsável do fado. Por cá já se provou vezes sem conta que a missão não interessa a ninguém. Alaoui evoca com mais frequência tradições que vão de Granada a Tremecém ou de Córdova a Fez, mas compreendê-lo-á ao ponto de no seus concertos começar a incluir a canção de Lisboa. Ouvi-la, em “Siwan”, cantar ‘Ondas do Mar de Vigo’, de Martim Codax, funciona nessa perspectiva como uma extática antevisão. No disco – maioritariamente, poemas dos séculos XI e XII musicados por Jon Balke – esse é, aliás, dos poucos momentos livres de um absurdo musicológico que lhe tolhe movimentos (juntar versos do alentejaníssimo Al-Mu’tamid Ibn Abbad ao trompete distópico de Jon Hassell, nem aqui nem na China).
23 de janeiro de 2010
Le Trio Joubran “À L’ombre Des Mots”
Nos poemas de Mahmoud Darwish tudo tem uma causa: as pedras polidas em forma de face, os cedros vertidos pelas colinas, as janelas suspensas sobre o Mediterrâneo, o apelo do marulho na noite, o aroma do pão rompendo na madrugada, os mártires e minaretes que sustêm o peso do céu, o tempo contado em nuvens que passam imitando no ar o voo das andorinhas e no chão ensombrando prisões, a mentira sincera do amor, a esperança de uma miragem e a marcha de um profeta… Até o acaso tem causa. Vem do clarão com que nasce a palavra mas precede-lhe porque se chama Palestina, a sua terra sem terra, geografia de exílio, saudade e memória, para a qual, nas fileiras da OLP, escreveu a Declaração de Independência. Falecido a 9 de Agosto de 2008, deixou mais próxima do pó uma certa ideia de pátria. Por isso, e para que a língua conduza à ressurreição, organizou o trio de alaúdes dos irmãos Samir, Wissam e Adnan Joubran este concerto em torno da voz daquele que há mais de uma década acompanhavam em leituras. Com Youssef Hbiesch na percussão, igualam modulações e métrica, espelham palavras com ostinatos e colam harpejos a sílabas numa virtuosa homofonia em câmara ardente vulnerável apenas à vontade do vento e à infelicidade do Homem.
16 de janeiro de 2010
Tom Zé, Autor da Bossa Nova
Em 1939, numa sibilante e gutural grafonola que calava o ziziar de provençais cigarras, Jorge Luis Borges, em Nimes, vaporizava lamentos portenhos num borriço de alma. O tango, com Buenos Aires à distância, era uma experiência sinóptica. De um trago, escreveu “Pierre Menard, Autor de Quixote”, conto mascarado de recensão literária consagrado a um ficcional autor francês. Explicava Borges que Menard não copiou a novela do século XVII – criou, isso sim, condições para que no século XX nascesse como que pela primeira vez o texto. O rico e subtil palimpsesto – de páginas em tudo coincidentes com certos capítulos do “Dom Quixote” de Cervantes – teria agora, centenas de anos depois, de ser lido à luz do seu tempo. Reflectia o argentino sobre autoria e interpretação e postulava que o contexto e acto da leitura podem alterar o significado a qualquer obra. Mas, astuto e previdente, apresentou na mesma altura “A Biblioteca de Babel”, narrativa através da qual, inversamente, patenteava o absurdo de um universo em que se multiplicavam livros até ao infinito, sem sentido possível, em todas as variações, traduções e permutações: a algaraviada da repetição. Hoje, numa era – de sampling, karaoke e mash-ups em epidémica difusão mediática – saturada por referências estéticas em constante reprodução, e em que a realidade há muito ultrapassou antiquadas ficções, parece simultaneamente ingénuo e trivial tentar desvendá-la num processo que lhe espelhe os mecanismos. Ou seria, não fosse o mundo andar esquecido e, claro, se não existisse Tom Zé, que fez do plágio programa.
Em 2008, assinalando os 50 anos da bossa nova, Tom, apoiado em Arnaldo Antunes e desmultiplicando duplas com cantoras (Fernanda Takai, Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro ou, entre outras, Badi Assad), produziu, com “Estudando a Bossa – Nordeste Plaza”, um gesto revisionista que não encontrou tão lúcida equivalência entre as restantes acções celebrativas. Como Menard, que contradisse a ideia primária de que todas as épocas são iguais ou distintas, Tom esclareceu em disco que João Gilberto não podia ser de todos ou só de um. E, também ele, cumpriu os requisitos para que, na sua produção, se amansassem patos, mareassem barquinhos, amachucassem bolinhas de papel, replicassem Rosa e Doralice, pingassem bim e bom, enfim, se duplicasse o texto inaugural de João. Para isso, desafinou-se, viniciou-se, copacabanou-se e, com jobiniana insensatez, acorcovadou-se num barracão nas traseiras do tonalismo. Daí resultou uma deslumbrante metonímia, com acordes, toada, harmonia, palavras, despencados contraponto e síncopes, que, pela primeira vez, mostravam João como sempre foi: suspiro do samba, pai do que – numa música de tambores – a teoria musical apelida de “terminação feminina”, mas ainda, como Tom, vítima do ostracismo e filho do exílio – alguém que, insuficiente mas incapaz de aceitar que se silenciasse o seu canto, voltou em 1957 a um Rio de Janeiro que lhe tinha sido indiferente para, então, criar algo tão singular que só a genética tendência para a duplicação conseguiu transformar em género. Por isso aproveite quem, em Viseu e Guimarães, possa assistir ao que originaram décadas de conspiração: Tom Zé a fazer de João Gilberto a fazer de Tom Zé.
9 de janeiro de 2010
Syran Mbenza & Ensemble Rumba Kongo "Immortal Franco: Africa’s Unrivalled Guitar Legend"
Com a sua morte, em 1989, caiu a noite sobre uma nação em ruínas. E – à excepção da que, estando já em parte alguma, se baseava em valores de produção importados – não se vislumbrava que a música no Congo sobrevivesse ao desaparecimento de Franco. Passadas duas décadas está ainda por se refazer o país, mas pela primeira vez desde a saída do poder de Mobutu chega em paz o mês de Janeiro. Talvez por isso tenha 2009 (com o segundo volume de “Francophonic”, a compilação “Cubanismo from the Congo” ou a descoberta de Staff Benda Bilili) prenunciado o regresso da antiga colónia belga ao mapa mundial de distinção estética. Também Syran Mbenza – com um punhado de veteranos das TPOK Jazz, Quatre Étoiles e Kékélé a seu lado – relembra as lições do seu malogrado líder, puxando o lustro a clássicos do seu repertório e renovando-lhe características essenciais: irresignável sentido rítmico em síncopes de voluptuosa elegância, transparente delicadeza em harmonias de eterna deriva atlântica, gorjeados vapores extraídos a febris braços de guitarra, deslizantes melodias suspensas em colares de atóis, sopros de panteão a balançar as ancas ao equador, prosódicos jogos de palavras a escarnecer linguistas. Tão simples quanto a rotação da Terra.
31 de dezembro de 2009
Melhores do Ano
“Très Très Fort” Staff Benda Bilili (Crammed)
“Floodplain” Kronos Quartet (Nonesuch)
“Francophonic Vol. 2 (1980-1988) Franco & Le Tpok Jazz (2cd + Livro Sterns)
“Entre Amigos” Dolores Duran (Biscoito Fino)
“Volume Two: Echos Hypnotiques 1969-1979” Orchestre Poly-Rythmo De Cotonou (Analog Africa)
“Black Rio 2” (Strut)
“Legends of Benin” (Analog Africa)
“Tudo Ben (Jorge Ben Covered)” (Mr. Bongo)
“Atahualpa Yupanqui – Obra Completa Para Guitarra (Composiciones Propias)” Carlos Martinez (3cd Acqua)
“The World Is Shaking: Cubanismo From The Congo 1954-1955” (Honest Jon’s)
“Floodplain” Kronos Quartet (Nonesuch)
“Francophonic Vol. 2 (1980-1988) Franco & Le Tpok Jazz (2cd + Livro Sterns)
“Entre Amigos” Dolores Duran (Biscoito Fino)
“Volume Two: Echos Hypnotiques 1969-1979” Orchestre Poly-Rythmo De Cotonou (Analog Africa)
“Black Rio 2” (Strut)
“Legends of Benin” (Analog Africa)
“Tudo Ben (Jorge Ben Covered)” (Mr. Bongo)
“Atahualpa Yupanqui – Obra Completa Para Guitarra (Composiciones Propias)” Carlos Martinez (3cd Acqua)
“The World Is Shaking: Cubanismo From The Congo 1954-1955” (Honest Jon’s)
A partir de gravações privadas de 1958 tudo chegou e partiu entre murmúrios de João Gilberto. O material de arquivo tornou a revelar-se dramaticamente vital. Fora de competição: Agustí Fernández “Un Llamp Que No S’Acaba Mai”, Akira Sakata “Friendly Pants”, Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble “The Moment’s Energy”, Flower-Corsano Duo “The Four Aims”, Ken Vandermak, Barry Guy & Mark Sanders “Fox Fire”, Okkyung Lee, Peter Evans & Steve Beresford “Check For Monsters”, Polwechsel & John Tilbury “Field”, Ran Blake “Driftwoods”, Wadada Leo Smith & Jack DeJohnette “America” e WHO Trio “Less is More”. No renascimento da Horo: Sam Rivers “Black Africa! Live in Villalago 1976”. No da Nessa: Charles Tyler “Saga of the Outlaws”. Ao vivo: Omar Souleyman, Group Doueh e Peter Evans. Melhor manifesto recuperado: “Fight the Future”.
24 de dezembro de 2009
Anouar Brahem “The Astounding Eyes Of Rita”
Como o original refrigério do mar experimentado a meio do tempo quente e seco ou a descoberta inaugural dos aromas amargo e doce das frutas de Verão, o íntimo afecto que com a música de Anouar Brahem desponta nem sempre resiste à repetição. Por isso dificilmente se voltará ao instante em que, no encontro com “Barzakh” e “Conte de l’Incroyable Amour”, ouvi-la era como nos olhos ter a dançar o revérbero do Mediterrâneo ou nos pés marcada a sua fímbria salgada. E também a sua discografia subsequente se afastou de tão vagas impressões. Até este momento. Porque no subúrbio dos poemas de Mahmoud Darwish – a que se dedica o álbum – ganha novamente razões para se deixar ir com a brisa para longe do destino dos homens. E, como uma balada de exílio em tudo fiel à do autor palestino há um ano falecido, trata nos seus espaços menos discursivos de olhar para lá da poeira dos sentidos e encontrar um mundo que, infelizmente, foi o paraíso. Seguem a par da obra poética estas canções para oud, clarinete, baixo e percussão como um sinuoso rio que às margens reclama terra e sangue para não se perder no oceano. Até tudo ficar branco.
19 de dezembro de 2009
Franco & le TPOK Jazz “Francophonic Vol. 2 (1980-1988)”
Kinshasa chamava-se então Léopoldville. E, após anos de terror, a capital do Congo Belga adaptava-se a um tecido urbano que pressupunha progresso civilizacional mas que se reduzia à inclusão no seu traçado do ‘bairro indígena’. Aí, sintonizava-se uma estação de rádio e ouviam-se canções do Sexteto Habanero ou da Orquesta Aragón, enquanto dezenas de músicos mantinham o decoro colonial pelas charangas de restaurantes europeus. Imagine-se o bairro Tremé, em Nova Orleães, se na cidade se tivesse mantido a escravatura e o jugo espanhol e um dia, com o jazz, soasse de uma corneta a liberdade, e ter-se-á ideia do que significou em 1953 a entrada em estúdio de um jovem de 15 anos que viria a cantar como ninguém a independência do seu país. A ascensão de Franco a inultrapassável potência criativa do continente africano comprova-se pelas mais de 1000 canções gravadas pela sua banda até 1980, período do qual se extraiu o primeiro volume de “Francophonic”. Agora, nesta antologia de 150 orgíacos minutos, torna-se coerente uma fase mais complexa e de maior dispersão, assombrada pela corrupção resultante da proximidade de Mobutu, pelo exílio e pela doença, mas que os 40 músicos da TPOK Jazz reconduziam a um redentor manifesto contra o medo do mundo. Um dos acontecimentos do ano.
12 de dezembro de 2009
Sugestões de Natal
Arnaldo Antunes “Iê Iê Iê”
No ano do lançamento em DVD de “Na Onda do Iê Iê Iê” e da publicação da autobiografia de Erasmo Carlos, só Arnaldo Antunes para pôr a saudade a dançar. Sublimando Roberto Carlos, Golden Boys ou Fevers (por cá havia Sheiks, Tártaros ou Chinchilas), abrilhanta penteados, encurta minissaias e lustra turbinas naquilo que nunca fez antes: canções de época.
Luz Casal “La Pasión”Pomposos sopros insuflam orquestras cubanas em canções de René Touzet e Osvaldo Farrés, move-se a congas o metrónomo mexicano segundo María Grever e Rosario Sansores Prén, demolham-se ‘Historia de un Amor’ e ‘Cenizas’ e uma vaga de violinos encharca boleros de Porto Rico, Chile, Brasil e Argentina. Canta-se bem mas quem alegra é o maestro, Eumir Deodato.
Adriana Partimpim “Partimpim Dois”Livros e discos infantis são uma espécie de nova beneficência. Tanto aliviam consciências quanto salvam carreiras. Adriana Calcanhotto toma comprimidos para o enjoo de “Maré” e dá dois passos atrás. Mantêm-se referências e cúmplices, adiciona-se o Dylan cristão renascido, mistura-se uma meninice de Vinicius e batuca-se João Gilberto. Não faz mal a uma mosca.
Seu Jorge “América Brasil, O CD Ao Vivo”A gravação é de Janeiro e traz apenas um inédito. Mas nada diminui o impacto de milhares de vozes a cantar ‘É Isso Aí’, ‘Carolina’, ‘Tive Razão’ ou ‘São Gonça’. Apela aos mais básicos instintos do mercado mas ninguém combina desta maneira heranças de Jorge Ben, Bezerra da Silva e Emílio Santiago. Há ainda na banda uma endiabrada rabeca a lembrar Jorge Mautner.
“Elas Cantam Roberto Carlos”Não há Natal sem Roberto Carlos. E é natural que a festa arranque mais cedo neste ano em que se celebram os seus 50 anos de carreira. “Elas…” regista o concerto de 26 de Maio em que se engalanaram vozes e vestidos. No alvo: Alcione, Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Nana Caymmi. O ‘Rei’ apareceu para a inevitável ‘Emoções’ mas não precisou de ir ao duche.
Don Cherry & Latif Khan “Music / Sangam”
Nunca terá a sua acção dependido do calendário, mas não virá a despropósito evocar agora quem sempre celebrou valores ecuménicos. Nesta sessão de 1978 (com Khan nas tablas), Cherry cruza melodias guineenses com indianas, canta, toca órgão, harmónio ou flauta de bambu, e, à semelhança de Jon Hassell, recorda parte daquilo que Miles desistiu de sonhar.
5 de dezembro de 2009
Orchestra Baobab “La Belle Époque”
Em noites brandas sonhava-se com o futuro. A música apaziguava espíritos, abrigava amantes, abraçava ideologias e aproximava-se de muitos sítios sem ao certo pertencer a lugar nenhum. Ao balcão discutia-se política e fechavam-se negócios, ministros recebiam no restaurante dignitários ocidentais e, pelos cantos da discoteca, conspiravam emissários de potências estrangeiras. Em palco suspendia-se o tempo: a banda da casa fixava-o no par de décadas em que a rádio nacional rodava discos do Sexteto Habanero, Orquesta Aragón ou Arsenio Rodríguez. Ocasionalmente, a pedido de representantes do governo de Léopold Senghor, e para que ninguém se pensasse num barco rumo a Cuba, o doce embalo tropical incluía melodias tradicionais wolof e a toada folclórica derivava para repertório mandinga ou baladas crioulas de Casamança, próximas das que cantava a Cobiana Djazz na Guiné-Bissau. Assim foi no Club Baobab, em Dakar, da inauguração em 1970 até ao fecho de portas em 1979. A sua orquestra, com instrumentistas de diferentes etnias e origens (Togo, Mali e Nigéria), encarnou na perfeição a tese cultural pretendida para o Senegal e – a par da Bembeya Jazz na Guiné ou a OK Jazz no Congo – simbolizou a recondução da diáspora a solo natal. Sabe-se que a sua melhor fase em disco é de final de setenta a inícios de oitenta, que caiu vítima da fórmula que criou, mas que anos depois renasceu. Esta retrospectiva ganha importância pelas limitações do mercado: os temas do primeiro CD são retirados de dois álbuns de 1972, em parte por reeditar (alguns foram incluídos pela Oriki em “A Night At Club Baobab”); dez canções do segundo, gravadas em 1978 em Paris, viram a luz do dia em 1992 numa edição já esgotada (“On Verra Ça”, World Circuit). Esta é mais uma fresta do que uma porta escancarada, mas o que se vê nunca se esquece.
28 de novembro de 2009
Buika y Chucho "El Último Trago"
São vozes que choram, clamam, se esganam e só depois cantam. E duas mulheres que cultivam uma ambígua identidade sexual. Por isso terá o seu quê de calculismo produzir o encontro de Buika com repertório associado a Chavela Vargas. E a primeira coisa que se confirma é a grandeza de um registo tão à vontade na tradição imortalizada por La Niña de los Peines quanto noutro qualquer. Porque se nas gargantas erradas o flamenco é pouco mais que uma doença de vogais, na de Buika é tão natural quanto o primeiro grito. E servirá para revolver as entranhas destas rancheras, ora vexadas valsas, ora pútridas polcas, ora brumosos boleros, até que as canções de Álvaro Carrillo (‘El Andariego’), Agustín Lara (‘Se Me Hizo Fácil’), Juan Zaizar (‘Cruz de Olvido’) ou, inevitavelmente, José Alfredo Jiménez (de ‘Las Ciudades’, com aquele murmurado “Te vi llegar y senti la presencia de un ser desconocido”, à embriagada ‘En El Último Trago’) mais não fiquem que um cancioneiro de sussurros. Chucho Valdés – a cumprir funções próximas das de seu pai, Bebo, no “Lágrimas Negras” de Diego Cigala – evita a caída no dramatismo drag de Lola Beltrán ou Lucha Villa e lança-se por uma lírica ponte suspensa entre Bill Evans e Frank Emilio Flynn.
21 de novembro de 2009
Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou "Volume Two: Echos Hypnotiques 1969-1979"
James Brown disse muitas coisas espantosas. E não se vislumbra uma leitura tão rigorosamente suspensa entre a contínua admiração e a permanente desconfiança quanto a da sua autobiografia. Ainda assim, restam ao fim de todos estes anos momentos de irresoluta perplexidade na sua interpretação, como aquele em que se refere à música africana revelando nada ter encontrado no continente negro que lhe permitisse reconhecer as suas raízes. Mais perturbante ainda será não lhe ter sequer servido de matéria para reflexão o repetido facto de – do Zaire à Nigéria – tudo o que por lá ouviu lhe parecer um eco distorcido da sua própria produção. Na verdade, ainda que ignorasse aquilo que a etnomusicologia do seu tempo caracterizava como um “eco de outro eco”, de nada valem as suas palavras face ao que provou em disco. E também porque não faltariam candidatos a demonstrar-lhe na prática a origem da ancestral força espiritual que tão bem evidenciava em palco e em estúdio, bastaria uma palavra sua para que dessas viagens tivesse levado mais que banhos de multidão e dinheiro de ditadores. A Poly-Rythmo, por exemplo, sempre que se dedicou ao jerk (expressão que qualificava temas tradicionais do vodun ‘modernizados’ ao jeito da pop ocidental) confirmou dominar a mesmíssima grandeza matricial do groove por si dilatado e, mais concretamente, igualar a modelar destreza polirrítmica do seu baterista, Clyde Stubblefield. E não se poderia imaginar mais eficaz banda para o acompanhar quando, em “Hell” (1974), cantava o que sabe qualquer homem no Benim: “a man has to go back to the crossroads before he finds himself”. Esta é, em sete anos, a quarta antologia consagrada à orquestra de Cotonou, a primeira a libertá-la dos fantasmas de Franco e Fela Kuti e a melhor a representá-la pela sua acção natural: na virtual dependência do “Padrinho do Soul”.
7 de novembro de 2009
Zanzibara 5: Hot In Dar – The Sound Of Tanzania 1978-1983
São hoje conhecidas as múltiplas manifestações culturais de uma Tanzânia então uniformizada pela propaganda. Talvez por isso – apesar de ser possível concentrar atenções na obra de Mlimani Park Orchestra, Dar International Orchestra e Vijana Jazz Band fazendo-a depender do patrocínio do regime – se liberte de constrangimentos políticos este quinto volume da série “Zanzibara” (irmã, na Buda, da mais prestigiada “Éthiopiques”). Porque esta nova era para a música popular de Dar es Salaam cruzava tradições tanzanianas com o que de mais significativo chegava do Zaire ou do Quénia sem que as elites se interrogassem quanto à sua legitimidade nacionalista. E foi esse impulso – a par da reabilitação do swing de tempos coloniais filtrado por uma apertada malha funk – que precipitou a explosão da musiki wa dansi, febre que durou até final dos anos 80 quando sintetizadores e caixas de ritmo substituíram instrumentistas. Mas aqui celebram-se ainda bandas com três dezenas de músicos capazes de espelhar em palco os mais graciosos gestos nas pistas de dança, até, por fim, entre espirais de guitarras eléctricas efervescendo como bolhas em bebidas gasosas e secções de sopro dialogando como claques rivais em bancadas opostas, se revelar um inesperado centro criativo para a África oriental.
31 de outubro de 2009
Bassekou Kouyate & Ngoni ba "I Speak Fula"
Há por vezes um vazio crítico em torno dos sons que chegam do Mali. Ou, na melhor das hipóteses, valoriza-se o arremesso instrumental e ignora-se a lírica. O melhor e o pior deste sucessor de “Segu Blue” reforçará a evidência. Porque triunfa o álbum ao abraçar o mundo sensual e falha ao estender-se ao político sem que isso perturbe a sua eufórica recepção na imprensa europeia: mas em nenhuma outra arte popular terá ainda significado quem, por exemplo, refere as crianças como o futuro ou as mulheres como mães de todos nós enquanto sugere que é hora de acabar com as guerras. E logo quando se anuncia num título que, no campo da etnicidade, é exemplarmente aforístico: fala hoje em inglês o jeli (cantor de louvor) que, vindo da tradição Bamana, afirma cantar no dialecto Fula. A música, em parte, corresponde a essa nova lingua franca. E, num contexto de inédita elegância (quarteto de ngoni), combinando estilos de rara conjugação e com Vieux Farka Touré ou Toumani Diabaté como convidados, consegue este segundo disco de Bassekou Kouyaté acercar-se da construção própria dos clássicos. Deixa é para demasiado tarde – numa tríade que começa numa canção de embalar, passa pela memória de um pai falecido e termina numa balada de caçador – tudo o que de novo, singular e belo tem para dizer.
24 de outubro de 2009
Keletigui et ses Tambourinis "The Syliphone Years (1968-1976)”
Não se trata apenas de nostalgia. Até porque sites e blogues como “Radio Africa”, “Voodoo Funk”, “World Service” ou “Likembe” – que funcionam cumulativamente como um arquivo virtual para fonogramas africanos há muito desaparecidos – têm consequências dramaticamente práticas num presente incapaz de gerar ideias originais. Por isso não se reduzirá o seu impulso à contrição dos que lamentam tempo perdido. Pelo contrário, é por seu intermédio que o espectro de acção pop revisita agora uma área que o passar dos anos foi deixando na sombra – a da música moderna com base em África. Mas porque o africanismo não terá de se limitar aos humores e às modas nos meios de produção ocidental surge também quem deite mãos à obra e tente contar a história completa. Graeme Counsel, por exemplo – o impulsionador de “Radio Africa” –, estará em Conacri até Janeiro de 2010 no âmbito do programa Endangered Archives, da British Library, a proceder à catalogação da Syliphone, editora estatal da Guiné. Confirma-se ainda como titular oficioso da série “Authenticité”, através da qual a Sterns restaura históricas gravações de Bembeya Jazz, Balla et ses Balladins, Super Boiro Band ou, de forma absolutamente imaculada, Keletigui et ses Tambourinis. E ao recompensar a relevância estética do que durante décadas se enquadrou na propaganda independentista reflecte o seu trabalho uma inegável dimensão simbólica: a de que a cultura sobrevive à margem de todas as manipulações. Aqui, recuperando a banda de Kélétigui Traoré (falecido há menos de um ano), revê-se a política de autenticidade mandinga instaurada pelo ditador Sékou Traoré e revela-se uma visão que nela se baseou mas em muito a transcendeu. Porque soube diluir fronteiras até ao ponto em que introduções em saxofone a evocar Lester Young, versões do Sexteto Habanero cantadas em espanhol, rumba congolesa, solos de trompete derivados daquilo que Félix Chappottin fazia na charanga de Arsenio Rodríguez, ritmos antilhanos similares aos que levaram Richard Berry a compor ‘Louie Louie’ e o mais primordial melodismo folclórico em quase tudo comum ao do Mali – e empregue de forma semelhante à da Rail Band – serviram para justificar o injustificável: a invenção de uma identidade mais guineense do que africana. E na sua audição cronológica identifica-se um discurso progressivamente menos formular, ainda que sempre permeável à diáspora, e, em paralelo, desvenda-se uma meta-narrativa que à luz da actual música que de si deriva – de Vampire Weekend a The Very Best – se prova insuperavelmente densa e enérgica. Uma imperdível lição.
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17 de outubro de 2009
Tom Jobim "Tom Canta Vinicius - Ao Vivo"
Olhando estrelas suspensas sobre um tamarineiro, João Gilberto procurava-a desde criança. Vinicius de Moraes encontrou-a anos depois e para não ter de a trair dedicou-lhe um amor de menino. Entre o sonho de um e o coração de outro esteve Antônio Carlos Jobim, de lápis atrás da orelha, mangas arregaçadas e piano aberto. Foi ele que educou essa ficção chamada bossa nova. 50 anos mais tarde eles ainda lá estão, entre fantasmas, suspendendo a passagem das horas, dias e vidas, mas continuando a inventar o futuro. Cada instante serve para o repetir: como este, de 1990, em que Jobim reduziu a Banda Nova ao essencial e, com o seu filho Paulo, Danilo Caymmi e o casal Paula e Jaques Morelenbaum, apresentou um ciclo de canções que renovava o ensaiado para “Inédito” e lembrava o seu mais emblemático parceiro, desaparecido em 1980. E piano, violão, flauta, voz e violoncelo evocaram os espíritos de Chopin, Satie, Debussy, Ravel e Villa-Lobos, até tudo mergulhar em nostalgia e, por uma vez, dispensar ‘Chega de Saudade’. Mas as outras grandes canções que escreveram juntos entre 1957 e 1963 estão cá – ‘Eu Sei Que Vou Te Amar’, ‘Garota de Ipanema’, ‘A Felicidade’ ou ‘Insensatez’ – em arranjos que, colados a versos do poeta, “voam tão leve” e se perdem “em carícias de água”. Um enlevo de câmara.
9 de outubro de 2009
“Pixinguinha no Cinema”
Primeiro tornaram-se públicas as gravações de João Gilberto em casa de Chico Pereira, depois revelou-se o que, entre amigos, cantava Dolores Duran, e por fim vasculhou-se o baú de um dos primeiros génios da música popular brasileira: Alfredo da Rocha Vianna, aliás Pixinguinha. O que permite concluir que – independentemente do quadro legal – se requalifica em três actos o conceito de arquivo num país pouco dado a honrar o passado. E conseguindo-se, para mais, valorizar testamentos artísticos que se supunham imperturbavelmente acabados. Esta primeira edição da banda-sonora escrita para “Sol Sobre a Lama”, o filme de 1963 de Alex Viany, implica ainda que se olhe para o líder dos Oito Batutas – e criador dos imortais ‘Carinhoso’ e ‘Rosa’ – e reconheça temperança na escrita para sopros (flauta, clarinete, tuba) e elegância na adaptação de ritmos afro-brasileiros a peças próximas da flexibilidade tonal de Villa-Lobos ou Milhaud. Arranca numa quase sinfónica ‘Abertura’ – entre Stravinsky e o Jobim de ‘Sinfonia da Alvorada’ – e termina numa elegia para três violinos e contrabaixo que sugere um Wagner equatorial. O resto é um festim de choros, maxixes e sambas, com primorosas canções (letras de Vinicius de Moraes) aqui regravadas por Elza Soares, CéU ou Jards Macalé. ‘Samba Fúnebre’ traz um dueto de Mariana de Moraes e Marcelo Vianna, netos dos compositores. Um pequeno requinte.
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