A
nominal contração Kollywood refere-se ao local onde se concentra a indústria
cinematográfica – segunda maior da Índia em volume, difusão e rentabilidade – em
língua tâmil, com sede no bairro Kodambakkam, de Chennai, um pólo comercial da
Baía de Bengala. E, como em Bollywood, a sua congénere hindi em Bombaim, também
aqui se criou uma desproporcional e sincrónica recomposição dos códigos de
poder e fantasia metonimicamente associados a Hollywood, com enfática reincidência
no filme musical. Essa predominância narrativa da canção coreografada, ainda
que de esquemática e arquetípica fundação, associada a licenciosas emissões (há
registos de tempos áureos com o lançamento anual de mais de mil títulos no
mercado), estimulou variantes de extático experimentalismo e hiperbólico
funcionalismo e, fundamentalmente, ancorou-se em figuras de elástica
polivalência, com sentido do épico mas minuciosa atenção ao detalhe, exatidão
técnica e coloquialismo estilístico, capazes de acompanhar abrangentes
alegorias destinadas a dilatar os limites da empatia. É num regime de
invariável polarização que editoras como a Finders Keepers – outra de notável
pendor antológico é neste domínio a Bombay Connection – visitam estas
produções, ainda para mais sugerindo uma análise fraturante da obra
audiovisual, exclusivamente focada numa banda sonora em que prevalece o endemicamente
excêntrico mas igualmente a caricatura do ocidente. O compositor Ilaiyaraaja e
a cantora K.S. Chithra ilustram esta bizarra mimese num libertino compêndio extraído
de centenas de colaborações em que, entre 1986 e 1991, temperaram sacarinas
indulgências com um intransigente futurismo, equilibrando arrebatamento
folclórico e esoterismo robótico, numa ação que traz à memória a Yellow Magic
Orchestra e que testemunha esteticamente o ápice e o ocaso tecnológico na
música dos anos 80.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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30 de junho de 2012
11 de fevereiro de 2012
“Bollywood Bloodbath” (Finders Keepers, 2011)
Com honrosas excepções, nomeadamente pela inclusão de um primitivo ensaio extraído de “Mahal” (o clássico de 49 assombrado por dementes cânticos criados por Khemchand Prakash), o essencial da acção desta sugestiva antologia desenrola-se na primeira metade dos anos 80, quando, por clubes de vídeo do mundo inteiro, a prateleira de cima nas estantes consagradas a filmes de terror estava devotada a títulos como “Sexta-Feira 13”, “Shining”, “A Noite dos Mortos-Vivos”, “Um Lobisomem Americano em Londres”, “Poltergeist” ou às sequelas de “Halloween”. No entanto, estabelecido o maculado pano de fundo, e porque é de Bollywood que se trata, só compreenderá efectivamente ao que vem quem tiver em mente o vídeo que em 83 John Landis realizou para ‘Thriller’, de Michael Jackson. Porque numa produção cinematográfica profundamente antropofágica, a contingência de se dar pelo mais popular cantor do planeta a liderar uma parada de zombies numa curta-metragem eminentemente bollywoodesca legitimaria uma hemorrágica avalanche de obras que infinita e insaciavelmente lhe reciclariam os procedimentos. Os irmãos Ramsay, por exemplo, aqui representados com uma dezena de filmes, de uma épica tentativa de exorcizar um teriantropo espírito com reincarnação garantida à grotesca ressurreição de um cemitério inteiro, conduziram fórmulas semelhantes à exaustão. Mas a música, essa, provou-se de inesgotável criatividade e insuperável radicalismo. Bappi Lahiri, Rajesh Roshan ou Sapan-Jagmohan, aproveitando a relativa licenciosidade do género, empregaram-lhe nas bandas-sonoras linhas de baixo plasmáticas, sintetizadores espectrais, vocais possuídos, sequenciadores mutantes, percussão paranóica e um sádico arsenal de efeitos prontos a deixar sangue na bola de espelhos e a criar um pesadelo que nem sempre encontra equivalente no ecrã.
2 de abril de 2010
“Jonny Trunk & Joel Martin Present Bollywood Funk Experience”
Não será pelo zelo demonstrado que ficará na memória. Aliás, Jonny Trunk (Trunk Records) e Joel Martin (Quiet Village), talvez pela presunção de verdade que há nos discos, nada dizem sobre os filmes por detrás da música. Mas mais conhecimento de causa teria evitado erros grosseiros nesta compilação e, num nicho de mercado subitamente saturado, a aparência daquele que vende gato por lebre (um exemplo: adjectiva-se de forma colorida o reggae ‘Mainne Kaun Koi Kya Jane’, de “Cricketer”, na voz da cantora Anuradha Paudwal; ora, o reggae existe, mas quem o canta é um homem, Bhupinder Singh, e intitula-se ‘Maine Kaha Tha Mat Jao Tum’). Além de que carece de rigor o seu conceito – pois sobra em tudo o que se possa imaginar, do mambo de estalar a pele de tambor ao mariachi mais embriagado, o que aqui falta em funk. Só que não deixa de ser suficientemente representativa esta reunião de temas, justificando que à sua custa ingresse num mundo desconhecido o ouvinte de espírito mais aventureiro. Ainda para mais quando, em rica caldeirada, sublinha a reincidência na bizarria ocidental e no suspensivo exotismo de nomes como R. D. Burman, Khayyam, Bappi Lahiri e das duplas Shankar-Jaikishan, Laxmikant-Pyarelal e Kalyanji-Anandji.
‘Lekar Hum Deewana Dil’, de “Yaadon Ki Baraat” (1973), cantado por Asha Bhosle e Kishore Kumar. Música de R.D. Burman
21 de fevereiro de 2009
"Bollywood Steel Guitar"
Entre técnicas centenárias e histórias de emigração e pirataria portuguesas, a steel guitar conquistou o cinema de Bombaim quando hollywood inventou o country. A possível consequência? Twists estivais em rodopio acordeonista, mariachi psicadélico, violinos ciganos temperados por vibrafones do jazz-fim-de-noite, valsas embrulhadas em western swing, sitar filtrada por funcional cartoon music, tablas batucadas em boogaloo boca-de-sino, cascatas de cordas a tombar no tango, histriónicos harmónios com fundo electro-funk ZX Spectrum, Morricone espectral, distorção em transicord e fuzz aos tropeções. Isto é, plena equivalência para narrativas com encadeamentos, alternâncias e encaixes, analepses e prolepses em achaque, triângulos amorosos, vil misticismo, irmãos separados à nascença, insinuação de incesto ou meretrizes em martírio. Aqui incluem-se versões instrumentais de temas das décadas de 60 e 70 (estreados em épicos como “Sholay”, “Amar Akbar Anthony” ou “Muqaddar Ka Sikandar”) e imortalizados nas vozes de Rafi ou Mangeshkar. Mas são os guitarristas – Van Shipley, S. Hazara Singh ou Sunil Ganguly – que estão como Ali Babá na gruta. A editora ignora os compositores: R.D. Burman, Shankar-Jaikishan ou Laxmikant-Pyarelal. Está perdoada.
Versão de Van Shipley de 'Jan Pahechan Ho':
Versão original (do filme "Gumnaam") cantada por Mohammed Rafi:
Versão original (do filme "Gumnaam") cantada por Mohammed Rafi:
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