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8 de setembro de 2018

Agenda: rentrée 2018


Há coisa de 60 anos que o jazz se agarra com unhas e dentes ao verão, pelo menos desde a edição de 1958 do festival de Newport, esculpida a cinzel no documentário “Jazz on a Summer’s Day”. Claro que, hoje, para muitos, o estilo nada terá que ver com o estio, mas é sintomático que se venha a Lisboa testar formas de sobreviver à época baixa. É para a semana, na Conferência Europeia de Jazz, que traz concertos: Orquestra Jazz de Matosinhos, Espen Eriksen Trio ou Bugge Wesseltoft no CCB, seguidos de sessões fora de horas na Ler Devagar ou Hot Clube. É um modo de correr atrás do prejuízo: não obstante a contradição burocrática, os agentes ao serviço do jazz interessam-se mais por colocar perguntas do que por fornecer respostas. Alguns, até, de maneira desarmante, como Darcy James Argue, cabeça-de-cartaz no Angra Jazz (3 a 6 de outubro, na Terceira), em que se destaca ainda Gonzalo Rubalcaba e Andy Sheppard, o mesmo que, três semanas depois, subirá ao palco do Seixal Jazz (18 a 27) no trio de Carla Bley. Nas lojas, expectativas em redor do título que reúne Andrew Cyrille, Wadada Leo Smith e Bill Frisell e que a ECM anuncia para 2 de novembro. Já na secção do lado aguarda-se as últimas sonatas de Beethoven por Alexandre Tharaud, a transcrição para violeta das suítes para violoncelo (de Bach) por Kim Kashkashian, a série dos 120 anos da Deutsche Grammophon e “Alla Portugesa”, o disco de Andreas Staier com a Orquestra Barroca Casa da Música que será apresentado em Lisboa, no Palácio Nacional de Queluz, dia 3 de novembro, e no Porto, na Casa da Música propriamente dita, dias 4 e 6 – aí, outras datas a ter em conta são as de Pedro Burmester (18.09), Artur Pizarro (29.09) e Alfred Brendel (21.10). Na capital, ao vivo, coloque-se a ênfase na programação da Gulbenkian, em que, para já, sobressaem Coro Gulbenkian (21.09, no Panteão), Jordi Savall (24.09), Lorenzo Viotti (novo Maestro Titular) a dirigir Mahler (4 e 6.10), Kirill Gerstein (16.10) ou Arcadi Volodos (4.11).

Obrigatório
Peter Evans e Orquestra Jazz de Matosinhos, Casa da Música (Porto, 25.11, 18h) e Culturgest (Lisboa, 28.11, 21h): Evans [na foto] tem um interesse necroscópico pela trompete mas nunca examinou uma orquestra. Esperam-se concertos com o poder de levantar os mortos.

18 de julho de 2015

Sugestões de verão




Florian Fricke/Popol Vuh “Kailash” (Soul Jazz, 2015)
No sopé do ‘Trono dos Deuses’, no Tibete, peregrinos de olhos avermelhados ajoelham-se junto a pequenos retábulos e perfumam-se com incensos. Como fazia nos filmes de Herzog, ao barro humano colando-se como um amuleto, a música de Fricke acompanha cada ritual até se deixar de perceber quem molda o quê.
 


Stephan Micus “Nomad Songs” (ECM, 2015)
Este CD possui uma citação de “O Profeta”, de Khalil Gibran, retirada do capítulo ‘Sobre as Casas’. Mas quem para ele parta com o Chatwin de “O Canto Nómada” em mente também não se deverá perder pelo caminho. Pois a verdade é que, como os escritores, Micus cartografa um espaço que conduz apenas a si.



Joe Lovano & Dave Douglas “Sound Prints: Live At the Monterey Jazz Festival” (Blue Note, 2015)
Com Lawrence Fields, Linda Oh e Joey Baron, Lovano e Douglas estreiam em disco ‘Destination Unknown’ e ‘To Sail Beyond the Sunset’, duas composições que, como quem não quer a coisa, Wayne Shorter lhes enfiou debaixo do braço. Cada um dos seus solos é uma pegada deixada na estrada que leva ao paraíso.

Charlie Haden & Gonzalo Rubalcaba “Tokyo Adagio” (Impulse!, 2015)
Começa por ‘En la orilla del mundo’, e contrabaixista e pianista fazem como os versos da canção, a cada passo tingindo de púrpura o seu destino. Em Tóquio, há dez anos, transformaram o palco do Blue Note num berço, acalentando passado e futuro. Haden guardou a gravação e quis deixá-la em testamento.


111 The Piano – Legendary Recordings (Deutsche Grammophon, 2015)
Expandindo qualquer possibilidade nestes longos dias de estio, eis o Barenboim de “Ao Luar”, o Michelangeli de “Imagens”, o Zimerman dos “Prelúdios”, o Pollini dos “Estudos”, o Gilels de “Peças Líricas” ou a João Pires dos “Noturnos”. Com pianistas assim, falar em compositores até parece despropositado.

“El Sistema 40 – A Celebration” (Deustche Grammophon, 2015)
Dir-se-ia que tocam como se a sua vida dependesse disso, mas a verdade é que nunca deveria ser de outra maneira. Celebrando 40 anos do sistema venezuelano de administração da formação musical, eis o mais transformativo – Dvorák, Ginastera, Beethoven – nas mãos da orquestra e do quarteto Simón Bolívar.

“The Bach Recordings” (L’Oiseau – Lyre, 2015)
Tal como há quem à mesa só coma fruta da época, também houve quem, na música, apenas tocasse com instrumentos de época. Hogwood foi um expoente da tendência – ora retrospetiva, ora prospetiva – e os recursos de que se serviu na linhagem dos Bach permanecem intrigantes e exemplarmente reconstitutivos.


 “The Decca Sound – Mono Years (1944-1956)” (Decca, 2015)
São gravações que mantêm uma surpreendente profundidade e uma inesperada transparência. Ouvi-las é como passar uma tarde de verão em torno de um velho álbum de retratos a descobrir segredos no que se julga saber de cor: o Stravinsky de Ansermet, o Mozart de Curzon, o Bach de Fournier, o Beethoven de Gulda.