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20 de junho de 2020

Shabaka & The Ancestors “We Are Sent Here By History” (Impulse!, 2020) & Gil Scott-Heron/Makaya McCraven “We’re New Again” (XL, 2020)

Ainda há pouco, como quem programa o despertador com o toque das sete trombetas do apocalipse, anunciava o derrube de monumentos (foi em ‘All That Matters is the Moments’, de “Afterlife”, dos seus The Comet is Coming). Falava na voz de uma gente oprimida, à cata pelos recantos dos castelos dos seus senhores de algo a que chamar seu, e parecia traçar um paralelo com o destino de Ozymandias (Jeremy Irons) na lua Europa, em “Watchmen”, na HBO. Mas Shabaka Hutchings pode dispensar a subscrição de séries – os noticiários bastam para que se sinta indigitado. Daí, este “We Are Sent Here by History”, em que se descreve um país em chamas, livros atirados à fogueira, terra queimada – e o que vem à memória é Malcolm X, a olhar para a televisão e a compor o poema “Burn, Baby, Burn”, embora o dispositivo que tímida e tibiamente adota seja o do jazz sul-africano, segundo promulgação de Dollar Brand, Basil Coetzee, Dudu Pukwana, Pops Mohamed, Spirits Rejoice, Winston Ngozi, Tete Mbambisa, entre outros.

Como Hugh Masekela, que reagia à engenharia social do Apartheid com “Home is Where the Music Is” enquanto, longe dali, nos EUA, mais ou menos na mesma altura, Gil Scott-Heron cantava: ‘Home is Where the Hatred Is’. Pouco depois, em 1975, Scott-Heron gravaria “From South Africa to South Carolina”, cruzando o oceano com a língua entaramelada pelo sangue e a voz embargada pelo fumo, e agora, por intermédio de McCraven, um antigo colaborador de Hutchings, é o seu fantasma que deambula por “We’re New Again”, criado a partir dos takes vocais de “I’m New Here” (2010), o derradeiro registo de Scott-Heron, antes de falecer, e pouco mais que a vinheta sonora do documentário que ficou então por fazer. Para distribuir o mal pelas aldeias, podia dar na Netflix.

9 de novembro de 2013

Peter King “Miliki Sound” (Mr. Bongo, 2013) & Peter King “African Dialects” (Secret Stash, 2013)

 


Primeiro a febre latina, seguida pelo funk e, por fim, pelo jazz. E depois, com laivos de cientificismo, não importando já a ordem de trabalhos, recomeçar, em êxtase geométrico, desenhando oblíquas órbitas, traçando tangentes, até se verificar que a música popular africana de tudo isso tinha um pouco, ou vice-versa. Tem apontado nesse sentido o zelo daqueles que recalcitrantemente combatem as forças da hegemonia cultural. Basta relembrar a labuta do DJ inglês Russ Dewbury na Charly e BGP ou, em finais do século passado, a diligência com que organizou, para a Harmless, “Africa Funk” e, para a Strut, “Club Africa” – o par de antologias em que introduziu temas de Peter King. Volvidos quinze anos, dir-se-ia conjunta mas distantemente paroquial – uma em Brighton, outra em Lagos – a ação desses agentes que em tempos revelaram visão à escala planetária. Dewbury põe discos, King, recuperando de um AVC, mantém-se, na capital nigeriana, à frente da Peter King College of Music, mas continuam a abrilhantar compilações como quem deposita coroas de flores num túmulo ao soldado desconhecido. E agora, que se encontraram duas peças cruciais – “Miliki Sound”, de 1975, e “African Dialects”, de 1979 – para o puzzle do afrobeat, restabelece-se, apelando ao génio de instrumentistas como Dudu Pukwana, Eddie‘Tan Tan’ Thornton ou Bayo Martins, uma verdade que serve também à vida: nada é sequencial, tudo é simultâneo.