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4 de fevereiro de 2017

“Llibre Vermell de Montserrat” (Alia Vox, 2016)


Diz-se “consciente de estar a entrar numa fase crepuscular”, Jordi Savall. Aos 75 anos, tem falado de “um mundo sem rumo, em que, a cada dia que passa, o fanatismo e a estupidez nos vão afastando dos ideais do ensino e do diálogo, da espiritualidade e da beleza”, e, fiel aos seus princípios, tem-se envolvido na questão dos refugiados: em abril, em Calais, tocou para “homens, mulheres e crianças em profunda aflição” e em junho, no campo de Vasilika, atuou perante uma plateia de sírios e iraquianos “que fogem à guerra à espera de encontrar generosidade e que acabam a ser escorraçados como animais”. À agência EFE, sublinhou que “todas as catástrofes humanitárias da história ocorreram porque não fomos capazes de reagir nem enquanto sociedade, nem enquanto Estados”.

Talvez por isso tenha decidido voltar a “O Livro Vermelho de Montserrat”, editando um registo da famosa coleção de canções de 1400 captado ao vivo em novembro de 2013 na igreja de Santa Maria del Pi, em Barcelona. Pelo menos, noutra coisa não se pensa quando se escuta ‘Ad mortem festinamus’ (o que tem como refrão “Corremos para a morte/ Renunciemos ao pecado” e “Vida curta, breve e de fim rápido” como um dos seus mais repetidos versos) ou ‘Mariam Matrem Virginem’ (que caracteriza a Virgem Maria como “o único refúgio seguro no mundo” para quem sofre “atrozes golpes” do destino). Isto, porque Savall não vislumbra uma prática musical desligada das dores dos outros, como já disse, mas também porque esta versão do Llibre vermell é radicalmente diferente dessoutra que o catalão gravou em 1978 com o então Hespèrion XX. Por uma razão muito simples: é que ao mudar a ideia que faz de si e do seu conjunto, de certo modo virando-se para Oriente, Savall alterou a própria forma de interpretar a realidade do medievo. Por intermédio de instrumentistas como Haïg Sarikouyoumdjian, Hakan Güngör, Yurdal Tokcan ou Dimitri Psonis substitui curiosidade intelectual por instinto, dedicação por devoção, e acerta, por fim, o passo com um século de pestes e peregrinações.

2 de março de 2013

“Love, Revelry and the Dance in Mediaeval Music” (Ricercar, 2012)



Millenarium

Numa década, a partir de 1998, o conjunto Millenarium, fundado por Christophe Deslignes e Thierry Gomar, operou uma extática e libertária incursão pelo repertório medieval - com enfática concentração em códices, música instrumental e poesia trovadoresca - através de sete gravações para a Ricercar que, reunidas nesta coleção, se medem pelos mais esotéricos, cerimoniais e elucidativos manifestos gerados pelos homólogos Hespèrion XX, Clemencic Consort ou Ensemble Organun. Começando com “The Masters of the Florentine Organetto”, promoveram uma ação virtuosa, e estabeleceram uma prática de proficiência técnica dada à improvisação, cuja expressividade é, neste caso, sublinhada pelo emprego do órgão portativo e do recurso a idiofones e membranofones da bacia do Mediterrâneo. O mesmo distinto e, porventura, hermético multiculturalismo que, já em “Joy: Troubadours’ Songs and Joungleurs’ Dances” e “Douce Amie”, lançados em 2000 e 2001, cria um vibrante fresco em que cabe o amor cortês, trovas do errante Bernard de Ventadorn, retratos de malabaristas e jograis, pastorelas de Thibaut de Champagne ou canções de gesta do ciclo das cruzadas, num enquadramento conceptual eminentemente contemporâneo. Perspetiva essencial para a teatral reconstituição – com “Tempus Transit”, registado em 2004, e “Officium Lusorum”, em 2005 – de páginas da “Carmina Burana”, que se escuta como uma negociação entre o sagrado e o profano à luz dos goliardos, e que atinge o zénite na encenação de uma paródica e transgressora ‘missa dos batoteiros’ no âmbito das folias das festas dos loucos. Por fim, em “Danza” (2007), relembra-se a função ritualista da música do pré-Renascimento e, em “Llibre Vermell” (2007), a devoção mariana do manuscrito de Monserrate, símbolo de tolerância e herança espiritual, perfeito cair do pano para a atividade do grupo.