Em entrevista, há uns bons 25 anos, inquirido
acerca dos seus hábitos de audição caseiros, Cecil Taylor dizia assim: “Escuto
muitas coisas diferentes. Hoje, por exemplo, ouvi música clássica chinesa, cantos
islâmicos e a Orquestra de Duke Ellington, por volta de 1945 – um dos temas era
absolutamente incrível. Ouvi a Victoria de Los Ángeles no ‘Dido e Eneias’, de
Purcell, e, depois, o Gary Graffman a tocar o primeiro andamento do ‘Concerto
para Piano Nº 1’, de Brahms – é qualquer coisa, deixa-me que te diga. A seguir,
fui ouvir a Leontyne Price a cantar a cena final de ‘Salomé’, de Richard
Strauss – bem… foi, assim… wheeew. E,
claro, ouço diariamente qualquer coisa de Ligeti – hoje foi ‘Ramificações’,
outra peça coral qualquer e ‘Atmosferas’. Também ouço todos os dias Marvin Gaye,
como é óbvio. Ainda pus no gira-discos Sarah Vaughan e, por fim, Xenakis, uma
peça orquestral – esse sacana é demais!” Tudo isto, pasme-se, sem que tivesse sido
decretado o estado de emergência, sem que tivesse a sua subsistência, para não
dizer, já, a sua própria sobrevivência, ameaçada e, claro, sem acesso à
internet, o que não é menos espantoso. Imagine-se o que faria com tudo o que
nos é agora subitamente colocado à disposição: talvez começasse pela
vizinhança, dando um salto à página de Facebook de Fred Hersch [na foto], por exemplo,
que à nossa hora do chá tem dado pequenos recitais aos seus seguidores; aí,
talvez tropeçasse em #fightcoronaseries, em redor da qual se têm vindo a
agremiar músicos de todo o mundo, aproveitando para amaldiçoar pela primeira
vez o seu fornecedor de banda larga; nesse domínio é provável que recebesse uma
chamada de atenção para a “Spring 2020 Jazz Series”, da Firehouse 12, em
transmissão exclusiva no canal de YouTube da sala (em abril, estão agendadas atuações
de Allison Miller e Carmen Staaf, Daniel Levin e Mat Maneri, de Lioness e do
sexteto de Allen Lowe); mas, conhecendo os seus gostos, seria muitíssimo
provável que, hoje, despedindo-se de Hersch, se ligasse ao site da Ópera de Viena para apanhar a retransmissão gratuita de “O Crepúsculo dos Deuses”, de
Wagner, e que, amanhã, à meia-noite, acedesse ao da 92|Y para ver e ouvir
Anthony de Mare a tocar Stephen Sondheim ao vivo; ao longo da semana,
assistiria aos Nightly Met Opera Streams e perder-se-ia nos arquivos
escancarados do Wigmore Hall, da Ópera de Berlim e da Filarmónica de Berlim ou na plataforma Marquee TV; além de que, no Twitter ou
Instagram, instrumentistas como Yo-Yo Ma, Gautier Capuçon, Igor Levit ou Alisa Weilerstein descobriram o televangelista que tinham em si – raios partam, que
isto está mais para o Sol e Dó do que para a solidão! Apesar das indicações em
contrário, é o que tenho sentido nos últimos dias, sentado ao computador, a
abrir janelas atrás de janelas até me vir à memória aquela canção do Roberto –
‘À Janela’, precisamente – em que ele cantava “Quantas vezes eu pensei sair de
casa/ Mas eu desisti/ Pois, eu sei, lá fora eu não teria/ O que eu tenho agora
aqui” e me tentar convencer de que o que ele diz é verdade.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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28 de março de 2020
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Yo-Yo Ma
31 de outubro de 2015
“Songs from the Arc of Life” (Sony, 2015)
Yo-Yo Ma (vc),
Kathryn Stott (p)
Começa com a de Bach/Gounod e
termina com a de Schubert, e teme-se que, como fadou Pessoa, estas “duas Avé
Marias” sejam as “dum rosário d’amarguras/ que eu rezo todos os dias.” Mas não,
apesar de incluir ainda o beatífico “Louange à l'éternité de Jésus”, de
Messiaen, “Songs from the Arc of Life” não é tão turibulário assim. Nem podia
ser: afinal, celebra uma reunião que se realizou em circunstâncias muito pouco solenes.
No verão de 78, em Londres, Yo-Yo e Jill Ma alugaram um apartamento a Nigel
Kennedy que, por sua vez, se esqueceu de os prevenir que o dividia com outra
inquilina, uma pianista, na altura de férias, que também não avisou quanto aos
novos arrendatários; tratava-se de Kathryn Stott, que, mais tarde, relatou desta
forma o encontro: “Volto a casa e dou de caras com um chinês de cuecas a tocar
violoncelo e com a sua mulher a cirandar com o meu robe vestido – isto podia
ter corrido mal.” Mas a verdade é que, como dizia Jobim (que Ma e Stott já
tocaram juntos), “a vida tem sempre razão”. E neste programa que assinala
muitas das emoções que lhe dão sal (e os anseios, receios, comédias e tragédias
que a cercam), outra coisa não vêm lembrar, sensíveis ao que ela tem de mais previsível
(representado por “Le cygne”, de Saint-Saëns, pela quarta “Wiegenlied”, de Brahms, ou pela “Valse sentimentale”, de
Tchaikovsky) e mais inesperado (“Var
det en dröm”, de Sibelius, “Herzwunden”, de Grieg, ou “Beau soir”, de Debussy, canção
que faz uma pausa entre os versos “A onda corre para o mar/ Nós para o nosso
túmulo”, e que este CD diz ser nossa para dela fazermos o que quisermos).
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