Aqui, há títulos de Samba Negra, Rio Latino ou La
Banda Africana, o que não ajuda a situar a ação. Aliás, põe-se a compilação a
tocar, com ‘Eberebijara’, e o mais estranho de tudo é não se ouvir Jorge Ben a
cantar “Umbabarauma, homem gol”, o que, pelo menos, até batia certo com aquele 1975.
Portanto, não estamos no Brasil, embora, a certa altura, alguém afirme: “Eu
falo português” (é em ‘Le Mongui’, um tema que revela o parentesco entre ‘Soul
Makossa’, de Manu Dibango, e ‘Wanna Be Startin’ Somethin’’, de Michael Jackson,
mas que não nos facilita a vida). A propósito, vindos não se sabe de onde, aterram
neste alinhamento os Viajeros Siderales, com ‘El Compañero’, que é um baião –
ou melhor, baion (só falta a Amália,
de ‘El negro zumbón’: “Tengo ganas de bailar el nuevo cumpás/ Dicen todos cuando me ven pasar/ ‘Chica,
dónde vas?’/ Me voy a bailar, el
baion!”). Como é óbvio, estamos na Colômbia – para ser exato, entre as
barracas de Barranquilha, a que a cangonha e a coca não chegavam pelo cano, mas
quase, e onde a música era absorvida diretamente pelos poros. É normal – os
bairros da lata eram laboratórios a céu aberto, quer com o passado, quer com o
futuro, por inventar, e da canção, entre a matinée
e a soirée, não se esperava que
tivesse muito mais que o tempo de vida útil de uma célula. Era por aí, em
prospeção, que andava Rafael Machuca, atento ao que se dançava nos bailes e ao
que se dizia nas ruas. Quando fundou a Producciones Machuca Ltda., à exceção de
Aníbal Velásquez e Abelardo Carbonó, que tinham nome firmado, lançou sobretudo
bandas cuja formação foi estimulada por si – um modo de reagir mais rapidamente
a porros, cumbias, vallenatos e champetas editados pela concorrência (para descrever o que daí
resultava, o seu engenheiro de som, Eduardo Dávila, chamava-lhes “os filmes
Série-B da música colombiana”). Por exemplo, ‘El Tornillito’, do El Grupo
Folclórico, respondia a ‘Suavecito, Apretaíto’, dos Latin Brothers, na Discos
Fuentes – e ainda que o “Dale pa’dentro/
Dale pa’fuera”, do refrão, tenha
antecipado os Ena Pá 2000 numa boa dúzia de anos, tinham o mesmo número de
parafusos a menos!
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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24 de outubro de 2020
20 de dezembro de 2014
Son Palenque “Son Palenque: Afro-Colombian Sound Modernizers” (Vampisoul, 2014)
É
fácil, na literatura: puxa-se do chavão do bildungsroman
e todos sabem ao que vão. É como deitar uma página de um diário à rua: a moral
pessoal ganha contornos didáticos, o mais íntimo anedotário prova-se pedagógico.
Se necessário, exploram-se as reservas de emoção de um povo inteiro em proveito
dos alegóricos êxtases formativos do indivíduo. No capítulo das antologias, não
se pode dizer que outra coisa se tenha passado na música deste século. Ou seja,
editoras como Vampisoul, Honest Jons, Soul Jazz, Soundway ou Analog Africa não
estão mesmo a fomentar um encontro entre extraviados fonogramas e as mais
avançadas técnicas de arquivologia empregues na sua conservação. Procedem de
modo muito mais correto: sem camuflar assimetrias reais e dispensando a
proteção da distância social, dedicam-se simplesmente à escuta daqueles que se
tentam conhecer a si próprios dentro de um labirinto de vinil. É o caso de
Lucas Silva, proponente da superação de anacronismos pela via dos colombianos Son
Palenque. O seu esforço e desespero, mas também o seu oportunismo, sintetiza-se
no subtítulo de uma compilação que organizou em 2002: “Visionary Black Music
from Underground Colombiafrica”. Entretanto, já Palenque de San Basilio foi
adotado pela UNESCO e já a Soundway editou “Palenque Palenque”. Mas só agora,
recorrendo ao melhor de LP lançados entre 1983 e 1986, em que figuram Michi
Sarmiento ou Abelardo Carbonó, se forma, com laivos de sessão espírita, uma memorável
apresentação deste preclaro conjunto que anunciava de onde vinha antes ainda de
se perceber ao que soava: ao abismo histórico que para sempre une e separa África
e América do Sul.
4 de janeiro de 2014
Abelardo Carbonó “El Maravilloso Mundo De…” (Vampisoul, 2013)
Há alguma candura no modo de
relatar as torções que o guitarrista colombiano Abelardo Carbonó aplicou à genealogia
musical latino-americana. Porque, no fundo, a mais interessante decorrência desta
alucinada ação – maioritariamente captada entre 1980 e 1982 – é, precisamente, aquela
que, em termos estéticos, permite retratar a quimificação das substâncias
deglutidas e sua consequente excreção num produto que, senão inteiramente novo,
se revelava de inédito sentido de propriedade face às transitórias comunidades
que pilhava, traduzia e das quais se tornava não menos volátil referência. Lendo
o diarístico relato de Etienne Sevet e Lucas Silva – organizadores da compilação
e reconhecidos investigadores de vernáculo – no livreto desta antologia, ao
invés, deteta-se um ritual filosoficamente arcaico e marcado pela ipseidade, ou
seja, pela inventariação do caráter particular, individual, único de Abelardo.
Pouco se conta de um processo coletivo que resultou da fricção entre periferia
e centros urbanos, entre códigos regionais e nacionais, das suas inclusões e
exclusões, colisões e coligações. E menos ainda se diz acerca da velocidade com
que, imediatamente após cada gestação, tudo o que se produzia logo se tornava
datado. Aliás, a maior perversão na presente curadoria, que documenta enunciados
tão fascinantes quão efémeros, consiste na ressurreição artística do seu
sexagenário objeto – a confirmar ao longo de 2014.
Trata-se aqui, por isso, de um
sistema de amalgamento e, forçosamente, de perceção e conceção da própria
imagem, ancorado em maleáveis formulações afro-colombianas (como o porro, a cumbia e o vallenato) ou
em derivações rítmicas antilhanas e transatlânticas (com ênfase nas modas que
chegavam de Kinshasa, Abijão, Iaundé ou Nairobi e, sinceramente, em tudo o que
viesse à rede), melhor veiculado naquilo que se designou por champeta, manifestação cultural associada
às mestiçagens e, não sem elitismo, aos pobres. Mas, como facilmente se
comprova em qualquer estação de rádio ou televisão de Bogotá, Medellín ou
Barranquilla, nada comprometeu as suas capacidades de transcendência ou travou
a sua epidémica conquista de espaço nos circuitos comerciais colombianos. É – assimo consideraram Carmen Abril e Mauricio Soto no artigo “Entre la champeta y la pared” – como um “fenómeno de habitus
generacional y colectivo”, que na sua mais recente vaga ganhou o epíteto de
“terapia crioula”. Depois de “Palenque Palenque” (Soundway, 2010), “The Afrosound of Colombia” (Vampisoul, 2010) ou “Diablos del Ritmo” (Analog Africa, 2012),
eis de novo este mundo tão recente em que tanto ainda carece de nome, imune a
convencionalismos, precioso como um talismã, violentando a realidade.
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