Mostrar mensagens com a etiqueta Alexander Von Schlippenbach. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexander Von Schlippenbach. Mostrar todas as mensagens

14 de agosto de 2020

Modern Jazz Quintet Karlsruhe - Fourmenonly "Complete Recordings" (NoBusiness, 2020)

O Modern Jazz Quintet Karlsruhe (MJQK) vinha com certificado de origem, como quem diz que nenhuma difamação havia sido capaz de erradicar o jazz de solo alemão – relembre-se o conceito de Negermusik, durante o regime nazi. Aliás, na República Federal, antes ainda, por via dos Frankfurt All-Stars, os irmãos Albert e Emil Mangelsdorff, com Hans Koller, Rudi Sehring, Joki Freund, Peter Trunk e Pepsi Auer, tinham dado a entender que também a partir das margens do Reno e do Meno se disseminava o jazz em partículas instáveis – cf. “Rhein Main Jump” (Jazztone, 1958). Eram designações que se publicitavam de forma instantânea, sim, mas eram ao mesmo tempo formas de garantir a salvaguarda da excecionalidade artística dos seus agentes e da intrínseca exclusividade de tudo quanto promulgavam. Não obstante, em 1968, quando o MJQK se formou, a reivindicação de carácter provinciano vinha a contracorrente – para a História do jazz alemão da época ficam modelos institucionais marcados pela coletivismo, como “Globe Unity”, de Alexander Von Schlippenbach (SABA, 1967), e “European Echoes”, de Manfred Schoof (FMP, 1969), discos com gente de muitas proveniências que se orgulhava de ter criado o Espaço Schengen anos antes dos políticos. No entanto, ouvindo “Trees” (Excenter, 1969) e, sobretudo, “Position 2000” (MJQK, 1970), não se pode dizer que o quinteto de Herbert Joos (fliscorne, sopros), Wilfried Eichhorn (saxofone, flauta), Helmuth Zimmer (piano), Rudi Theilmann (bateria) e Klaus Bühler (contrabaixo) exemplificasse a liberdade de modo menos puro que os outros.

Além do mais, passando em revista a sua obra completa – que inclui os álbuns “Volume One” (Edition W. Wacker, 1972) e “Eight Science Fiction Stories” (FMO, 1974), de Fourmenonly (leia-se Four Men Only), denominação assumida pelo grupo após a saída de Bühler – entende-se que foram dos poucos a olhar para a caracterização free jazz, na altura, e a ver um verbo, além de um adjetivo: isto é, não só “jazz livre” como igualmente “jazz libertado”. Nessa perspetiva, elegantes temas nos quais se denota uma gestão do silêncio capaz de revogar todo e qualquer estereótipo, e em que se recorre a materiais mais esotéricos e menos descontínuos, disruptivos, radicais e corrosivos que o habitual, como ‘The Sun is Coming Over’ (1970), ‘Viridiana’ (1972) ou ‘Ich und meine Brüder’ (1972), apontam já para o que, a solo, Joos viria a fazer em “The Philosophy of the Fluegelhorn” (JAPO, 1974), uma das mais espirituais e expressivas decantações do período, para lá de categorias e do vernáculo, quase para lá do tempo. Anos depois, não admira que viesse a protagonizar “From No Time to Rag Time”, da Vienna Art Orchestra (Hat Hut, 1983), quando não lhe passava pela cabeça que os discos do MJQK pudessem ser uma coisa do futuro. Mas, ei-los.

1 de agosto de 2015

Agenda: Reviver o passado no Jazz em Agosto, 2015



Michael Mantler fala da sua orquestra como um nutricionista fala do café com leite: “A minha ideia era a de controlar e limitar o que considerava excessos na improvisação livre”, declara o compositor e trompetista nas notas de apresentação de “Jazz Composer's Orchestra Update”, tal como no contexto das necessidades alimentares se diria que a cafeína restringe o aproveitamento do cálcio pelo organismo. A insensatez da metáfora em toda a sua abrangência é deliberada, pois no enquadramento desse recente CD em que revisitava e reconstruia as partituras do emblemático tomo inicial da Jazz Composer’s Orchestra, de 68, o austríaco comete a imprudência de qualificar os seus solistas de então – de Don Cherry e Cecil Taylor a Pharoah Sanders e Andrew Cyrille – como “forças da natureza, sem consciência do que os tornava verdadeiramente originais”. Seja como for, no espírito deste aggiornamento, trata-se de uma atitude que não perturba a audácia que tão precocemente demonstrou. Pois a verdade é que Mantler foi um importante catalisador num movimento associativo que desenvolveu notáveis sinergias entre radicais da mais criativa música nova-iorquina – e não só – de há cinquenta anos atrás. Hoje, às 21h30, quando subir ao palco do Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian acompanhado por Wolfgang Puschnig, Harry Sokal, David Helbock, Bjarne Roupé e pela Orquestra Jazz de Matosinhos, carregará consigo o testemunho dessa era mas, acima de tudo, tratará de expressar as tais versões mais nutritivas de um ávido repertório que só o tempo soube temperar. Em simultâneo, estará a dar corpo ao manifesto de um Jazz em Agosto que, este ano, fica marcado por “grandes formações orquestrais (…) e ainda pelo conceito de intemporalidade musical através da presença de músicos que regressam a projetos do passado para os reinventar.” Em parte, é precisamente disso que se ocupará amanhã o quinteto Swedish Azz – de Mats Gustafsson, Per-Åke Holmlander, Kjell Nordeson, Dieb 13 e Erik Carlsson [na foto] – ao dedicar-se aos arautos do jazz na Suécia das décadas de 50 e 60. Incontornável no período foi o LP “Jazz på svenska”, do pianista Jan Johansson, que presumia especificidades dialetais no seu inquérito ao cânone. É uma peculiar sindicância continuamente presente nas atuações do RED trio – de Hernâni Faustino, Gabriel Ferrandini e Rodrigo Pinheiro – que, quarta-feira, só de modo simbólico evocará o seu historial ao partilhar o palco com John Butcher, o saxofonista com que cocriou “Empire”, em 2011. Quinta-feira é dia de conhecer os Schlippenbach – Alexander, Aki e Vincent – que tornarão a “Lok 03”, intrigante exercício de cosmopolitismo, mais engraçado que gracioso, e sexta regressará ao certame Ingebrigt Håker Flaten em nova investida pelas velhas possibilidades vernaculares do jazz.

28 de março de 2015

Alexander Von Schlippenbach Trio “Features” (Intakt, 2015)



Foi no outono passado lançada, pela Trost, uma presumível primeira gravação deste trio de Alexander von Schlippenbach, Evan Parker e Paul Lovens, captada em abril de 1972, e seria curioso colocá-la a tocar conjuntamente com esta do novo “Features”, de dezembro de 2013, a alguém que permanecesse ignorante da história do grupo para ver qual das duas lhe pareceria mais recente. Talvez aquela em que pianista, saxofonista e baterista subissem ao palco para dar mostras de tocar tudo o que sabiam. Ou uma em que a teatralização da potência transformadora do jazz se mantivesse mais importante que a sua contínua desdramatização. Iludir-se-ia em qualquer um dos casos. Pois, aqui, acima de tudo, o que se percebe é que o trio chegou a uma extraordinária posição de elegância e serenidade precisamente depois de ter percorrido com inquietação e ocasional rudeza os problemas essenciais que a existência dessa mesma posição implica. Ou seja, que pacifica de modo excecional uma ineludível questão: como conviver, no contexto da música improvisada, com o caráter normativo de uma ação que se prolonga há mais de 40 anos. Um ponto de partida possível, que estes 15 temas procuram ilustrar (e, de ‘Feature 1’ a ‘Feature 15’, eles são uma espécie de enumeração do que possui esta prática de mais característico), será a tomada de consciência de que o crescimento ilimitado é insustentável. Sim, há momentos, em “Features”, em que tudo é propulsivo e percussivo mas também há instantes em que aparenta falir cada uma das partes de que esse organismo se constitui; há alturas em que se removem as últimas estruturas permanentes do jazz e outras em que se aplicam testes de esforço às suas fundações; há uma sensibilidade a um tempo imprevidente e escrupulosa, espontânea e imitativa. Há a ética de uma música sincera que, quando se deixa trair, serve para comprovar a dificuldade em produzir música sincera.

2 de fevereiro de 2013

Alexander von Schlippenbach “Schlippenbach Plays Monk” (Intakt, 2012)



Monk é um elemento tão inexpugnável da estética de Schlippenbach que, aqui, mesmo com uma introdução, oito interlúdios e um epílogo assinados pelo alemão, nunca se dá confundir-se quem toca o quê. Até porque a perversão de uma leitura que atribuísse a este programa responsabilidades autorais repartidas, embora correta, despertaria equívocos de interpretação. Isto é, este disco não trata de atomizar as referências centrais ao genial norte-americano desaparecido há 30 anos em proveito de uma linguagem que, dela derivando, se acusou já de estar há mais tempo preocupada em apagar as suas próprias pegadas. Muito pelo contrário, será até pela análise do material original – cuja aforística concisão, instabilidade tonal e forte sentido de estrutura conseguem obliquamente sugerir o que faria um pianista de stride ou ragtime com as miniaturas de Schoenberg – que melhor se compreenderá o quanto é já um constituinte do outro. E é essa tremenda coalescência que se deve celebrar, com as angulares cogitações, predileções dialetais, deslocadas enfatizações e lacónicas melodias presentes em ‘Introspection’, ‘Epistrophy’ ou ‘Pannonica’ expostas numa cristalina esquematização que, no passado, apenas Ran Blake, Giorgio Gaslini ou Franco D’Andrea terão encarado com tamanha ambiguidade. De facto, tornar maleáveis figuras rítmicas praticamente extorsionárias ou questionar a impropriedade com que Monk apresentava os seus temas sem prejudicar a sua frágil elegância matricial requer escapar ao domínio do compositor. E, talvez até mais neste caso do que em “Monk’s Casino”, acrescentou Schlippenbach àquelas harmonias recheadas de dissonância e insinuantes intervalos um recurso frequentemente delas ausente: a ternura. O que só prova tudo o que aprendeu com Monk e, de certa forma, o pouco que os outros aprenderam consigo.