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10 de novembro de 2012

Elis Regina “Samba – Eu Canto Assim” & “Elis Regina in London” (Soul Jazz, 2012)

Ao fim de tantos anos, persiste no discurso crítico que acompanha a biografia de Elis Regina uma falácia que desclassifica os seus quatro primeiros discos (“Viva a Brotolândia”, “Poema de Amor”, “Ellis Regina” e “O Bem do Amor”), identificando-se nesse material gravado entre 61 e 63 uma prevalência de interesses editoriais de mercado face à expressão criativa da intérprete. Já em 2012, quando se cumprem os 30 anos sobre a sua morte, por entre uma série de iniciativas de restauração e reavaliação do seu catálogo – do espectáculo “Redescobrir”, em sua homenagem organizado por Maria Rita, sua filha, ao encaixotamento de 24 CDs em “Elis Anos 60” e “Elis Anos 70” – persiste-se em ignorar essa sua crucial produção. No fundo, mais do que ao anacrónico posicionamento do conservador quarteto de LPs no dealbar de uma era de tanto optimismo, talvez tal se deva à sua inconsequência artística e ao falhanço comercial – a juvenil Elis, embora com invulgar sofisticação e temperança, cantava no tempo da bossa nova como uma menina perdida em terra de ninguém, entre o dengoso romantismo de Ângela Maria e atrevidas adaptações do rock’n’roll ao jeito de Celly Campello. Por isso se impunha uma mudança de ares: partindo de Porto Alegre com o pai, Elis, com 19 anos acabados de fazer, chegou ao Rio de Janeiro em março de 64 e foi bater à porta da Philips.  

Em poucos meses, graças a uma sucessão de factos que só o seu imenso magnetismo justifica, passa da condição de anónima à de vedeta. Impactantes aparições em concertos preparados para transmissão televisiva culminam, em 65, no seu triunfo (com ‘Arrastão’, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes) no inaugural “Festival Nacional de Música Popular Brasileira”, da TV Excelsior, e no convite para encabeçar o cartaz do Teatro Paramount, em São Paulo, ao lado de Jair Rodrigues; o disco daí resultante, “Dois na Bossa”, vende um milhão de exemplares e é transposto pela TV Record para a sua grelha no semanal “O Fino da Bossa”. No meio de tudo isto era inevitável que “Samba – Eu Canto Assim” saísse afectado por aquilo que o poeta Augusto de Campos qualificava como “estardalhaço patológico”. De facto, longe da delicadeza dos registos precedentes, este primeiro LP adulto da cantora testemunha o frenesi com que se empacotou a bossa para a sociedade de consumo numa participativa orgia alimentada a vocalizações expressionistas, coreografias aparatosas (Elis ganhou no período as alcunhas de ‘Pimentinha’, pelo temperamento, e de ‘Hélice’ Regina, pelas braçadas em palco) e demagógicos dispositivos carnavalescos. Mesmo marcando o encontro da sua voz com as canções de Edu Lobo, Francis Hime, Carlos Lyra ou Marcos Valle, moderação e subtileza, aqui, só no acompanhamento do Rio 65 Trio, de Dom Salvador.

Com a fama cimentou-se um posicionamento fracturante: Elis era contra Nara Leão, contra a bossa, a Jovem Guarda, o tropicalismo, e depois tudo abraçava. “Elis”, de 66, com o Bossa Jazz Trio, revela-a mais madura, cantando Caetano, Chico, Milton ou Gil, e “Elis Especial”, de 68, mais sofrida, ainda que dedicada a Jobim pela primeira vez. Sucedem-se digressões pelas capitais europeias e programas para as televisões francesa, inglesa, belga, alemã, holandesa. Em 69, passando pela Suécia, grava “Aquarela do Brasil”, uma anémica reunião com Toots Thielemans, e em Londres os executivos da sua editora acham boa ideia juntar o seu grupo (liderado por Roberto Menescal) às orquestrações de Peter Knight (compositor com créditos secundários em discos de Moody Blues ou Scott Walker). O repertório deste “… In London”, interpretado de forma algo histriónica, repete o de “Aquarela…” e o que, com outra desenvoltura e maior domínio da distinta síncope afrobrasileira nos arranjos de Erlon Chaves, lançaria em “Elis, Como & Porquê”. Mas todos os registos do ano revelam as debilidades de uma fórmula novamente em nenhures, seduzida pelos apelos da juventude mas simultaneamente saudosista, agora incapaz de representar um país calado pelos militares. Seria necessário mais um par de álbuns e uma descida aos infernos para que, com as suas obras-primas da década de 70, encontrasse finalmente o Brasil a sua cantora maior, que logo tanta falta lhe faria.

24 de março de 2012

Edu Lobo "A Música de Edu Lobo por Edu Lobo" (Soul Jazz, 2012)

Parece ter nascido ideologicamente entrincheirado mas, no limite, mais não faz do que articular poeticamente a resistência ao liberticídio. E, à distância, assume de facto a condição genesíaca que tão ufanamente ambicionava. Porque, hoje, a permeabilidade a um discurso político polarizado pelo populismo de esquerda já não tolhe esta estreia de Edu Lobo, editada pela Elenco em 65. Pelo contrário, é antes elementar para uma constatação mais significativa: a de que se operava com este disco uma radical transformação nos ambientes e lugares da bossa nova. Caetano Veloso, que na afirmação estética tropicalista tantas vezes se viu contrariado por Edu, reconheceu, em “Verdade Tropical”, esse impulso de “sair do apartamento para os grandes espaços, do individual para o social, do urbanismo neutro para o particularismo regional” que jamais compromete “um sofisticado harmonista, um melodista inventivo e um estilista de forte marca pessoal”. Aliás, outro programa aqui não se verifica. E a ligação às engajadas produções teatrais de Oduvaldo Vianna Filho, Augusto Boal ou Gianfranceso Guarnieri, como “Opinião” ou “Arena conta Zumbi”, das quais se extraem alguns destes temas, ou a participação nos festivais televisivos, vencendo, em 65, o da TV Excelsior com a interpretação de Elis de ‘Arrastão’, com poema de Vinicius, também incluído neste álbum, são contingências culturais de época que contribuem para o polissémico alcance deste capítulo inaugural. Com o golpe militar de 64 como pano de fundo, desmontam-se aqui signos folclóricos, raciais e nacionais, denuncia-se o messianismo religioso ou o caciquismo, sublima-se a teleologia espelhada nas letras de Ruy Guerra, e, fundamentalmente, ensaia-se, com o Tamba Trio, uma vibrante antevisão dos caminhos que a música popular brasileira haveria de trilhar até ao fim da década.

17 de julho de 2010

Sugestões de Verão

Swamy Haridhos & Party “Classical Bhajans”
Em 1967, Bengt Berger (futuro percussionista de Don Cherry e autor, em 1981, de “Bitter Funeral Beer”) partiu para a Índia. A família do seu professor de tablas levou-o a um concerto do santo Swamy Haridhos, que Berger gravou. São mil pessoas, harmónio, violino e percussão a cantar bhajans (canções devocionais baseadas em ragas clássicas). E ouvi-las hoje é como mergulhar no mais purificador dos rios.

“Panama! 3 – 1960-75”
Ao terceiro volume, a Soundway pega na música para discutir política. Reluzente, evoca swing, son cubano, calypso, mento ou cumbia, mas logo o funk consciencializado dos combos nacionales (Mozambiques, Silvertones, etc) distorce bolas de espelho até nelas reflectir uma sociedade segregada. Seria tudo demais para a estação, não tivessem dependido também eles de incendiar pistas de dança.

Edu Lobo “Tantas Marés”
Ouvir, ao fim de 15 anos, o regresso de Edu Lobo aos originais a reboque de versões de canções compostas com Chico Buarque para “O Grande Circo Místico” e “Cambaio” é como ver a selecção brasileira a jogar sem Ronaldinho Gaúcho: implica a vitória do racionalismo naqueles de que esperávamos sensualidade. Mas só Edu Lobo para adocicar desta forma um mar de previsibilidade.

“Black Man’s Cry: The Inspiration of Fela Kuti”
Fela Kuti, nos últimos anos, tem sido uma espécie de Bob Marley superlativo. Elegeram-no como símbolo os ainda mais politizados, os ainda mais estetizados, os ainda mais drogados. Mas a sua obra resiste à beatificação, ainda que a sua compreensão dependa de abanões como este: oblíquas partilhas do seu legado com inesperada origem na Colômbia, Trinidad ou, mais recentemente, Munique.

Ghalia Benali “Sings Om Kalthoum”
Decantação absoluta dos ensinamentos de Umm Kulthum (aquela a que chamavam ‘astro do oriente’, “quarta pirâmide do Egipto’, etc) dispensando o registo semi-operático das ondulantes orquestras que a acompanhavam e concentrando antes a acção num enlevo de câmara em que contrabaixo, oud e pandeireta sublinham as sombras na voz de Benali. Perfeito para dias em que o sol se revele impiedoso.

13 de março de 2010

Antônio Carlos Jobim "Minha Alma Canta"

Consumido por uma perene frustração, Almir Chediak desabafou um dia com o seu aluno Moreno, filho de Caetano, quanto à absurda desadequação dos livros de partituras para violão face ao real interesse dos seus executantes. E porque proficiência no “Concerto de Aranjuez” serviria saraus familiares mas dificilmente conquistaria corações impunha-se uma simples questão: porque não – passando canções ao papel – facilitar a vida aos fãs de Caetano, Chico, Gil, Djavan ou Vinicius? Entre 1989 e 2003, ano do seu assassinato, Chediak organizou esses “Songbook” criando a editora Lumiar e, a partir do volume dedicado a Noel Rosa, produzindo um CD em que cantores consagrados interpretavam temas dos homenageados. Jobim, na sua derradeira fase de absoluto sincronismo – em que cabiam samba, impressionismo, a Mata Atlântica bordejando o litoral e o Sabiá anunciando a Primavera, e em que perdia a voz à medida do desaparecimento da Amazónia – teve na série as catorze participações aqui reunidas. Apoiado na Banda Nova – dos jobins, morelenbaums e caymmis – e nas vozes de Chico, Leila Pinheiro e uma sublime Gal, torna suas páginas de Vinicius, Noel, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Edu Lobo, aproveitando, como sempre, para relembrar a todos o que é ser-se brasileiro.

30 de maio de 2009

Edu Lobo e Chico Buarque "O Grande Circo Místico"

Não terá sido a primeira nem a última vez que uma tenda de circo se armou em torno de um poema. Mas foi das poucas em que, a pretexto de olhar nos olhos o Criador, o Homem não se ajoelhou. É que – há na vida que aceitá-lo – nem sempre o degredo se pinta com a cor do pecado. Por isso, para que subam ao palco, que se expulsem do paraíso os actores – é o melhor destino dos que desejam em segredo. “O Grande Circo Místico”, pela mão de Naum Alves de Souza e do coreógrafo português Carlos Trincheiras, ergueu-se em 1982. A sua banda-sonora garantiu-lhe a eternidade. Esta terceira versão em CD difere da de 1993 (Velas) mas é idêntica à de 2002 (Dubas): cá estão as canções feitas de luz e sombra, as vagas valsas, maltrapilhas marchas, ornatos oratórios. E a bela leveza das bailarinas, o pranto dos palhaços, o indecoro das coristas. Com Milton, Gal, Gil ou Simone nas vozes dos anjos, e uma barca de insuperáveis instrumentistas (António Adolfo, Nelson Ângelo, Dorothy Ashby) empurrada pelo sopro de uma big band e embalada por uma ondulante orquestra de cordas. Na plateia sorriem Weill, Richard Strauss, Bernstein, Sondheim, Rota, Jobim e Miles. No momento em que explodiu o BRock, não houve melhor túmulo para a MPB. Obrigatório.