Mostrar mensagens com a etiqueta Renaud García-Fons. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Renaud García-Fons. Mostrar todas as mensagens

14 de julho de 2012

Sugestões de Verão


Renaud García-Fons “Solo: The Marcevol Concert” (Enja, 2012)
De múltiplo alcance, através de efeitos, pré-gravação de bases ou processamentos, a expressividade de García-Fons ao contrabaixo atinge porventura um dispersivo e caprichoso zénite, num universalista postulado de servência cumulativa em que o virtuoso vagueia pelo mundo com a contumácia do topógrafo original, evocando África, o Mediterrâneo, a coxilha argentina, a Andaluzia ou o Próximo Oriente.  


Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté “A Curva da Cintura” (Mais Um Discos, 2012)
Apura-se o lúdico e o telúrico em Antunes na medida em que aumenta o grau de complexidade cultural das suas construções. Aliado de Scandurra, essoutro agente do BRock, nos IRA!, esboça agora o ex-Titãs um redentor estudo sobre a canção popular enquanto contingência do panafricanismo e do latinismo, coadjuvado em Bamako por Toumani e seu filho, Sidiki, em vésperas do caos político que tomou o Mali.
Caetano Veloso and David Byrne “Live at Carnegie Hall” (Nonesuch, 2012)
A apresentação é de 2004 – no âmbito da série Perspectives do Carnegie Hall – e pressupõe no seu figurino acústico a prevalência de um efeito de consagração. Mas o inesperado acanhamento dos protagonistas, reunidos apenas em três temas, diz mais sobre a natureza de um repertório (de ‘Sampa’, ‘Terra’ e ‘O Leãozinho’ a ‘And She Was’, ‘God’s Child’ ou ‘Road to Nowhere’) imune a qualquer desfiguração.
 
Vários “Cumbia Cumbia” (World Circuit, 2012)
Primeiro em 89 – o comboio na capa e a abertura com ‘La Colegiala’ testemunhavam o impacto de um anúncio da Nescafé de inícios da década – e depois em 93 com uma sequela, traçou a World Circuit um perfil da editora colombiana Discos Fuentes (alvo de subsequentes ações da Soundway ou da Vampisoul) que agora reedita num escopo vagamente caótico – de finais de 50 aos de 80 – mas não menos contagioso.

Vários “Skanish Sound” (Vampisoul, 2012)
São variações algo amorfas sobre ska e outras emergentes formas jamaicanas mas também o era o ‘Ob-La-Di, Ob-la-Da’, dos Beatles, sem metade da graça e, fundamentalmente, sem ter de arrostar a censura franquista. Numa espécie de banda sonora para sonhos dourados na Costa del Sol, eis 18 ensaios gravados em Espanha entre 64 e 72 sobre originais de Jimmy Cliff, Desmond Dekker, The Pioneers ou Millie.

23 de julho de 2011

Sugestões de Verão

Renaud García-Fons “Méditerranées” (Enja, 2011)
Em “Breviário Mediterrânico”, Pedrag Matvejevic interrogou-se sobre o impulso em unificar aquilo cujas fronteiras “não se desenham já no espaço ou no tempo”. E, numa altura em que o Mediterrâneo é menos um mar do que uma dieta, o contrabaixista francês, com um plural no título que recusa a restrição contemplativa, abandona-se à viagem lembrando que cada ode marítima é uma canção de exílio.
Mário Lúcio “Kreol” (Lusafrica, 2011)
Um pouco como a ideia que Mário Lúcio tem do Homem, também a sua música se assemelha a muitas sem ser igual a nenhuma. E, em equivalente analogia, mais verdadeira se torna quanto menos se esforça para o parecer. Com Milton Nascimento, Pablo Milanés, Teresa Salgueiro ou Toumani Diabaté entre os convidados, esta travessia evoca a cultura crioula com que se pode sonhar em certas praias do Atlântico.
“La Habana Era Una Fiesta” (Vampisoul, 2011)
Esta antologia de emissões de rádio em Cuba, nas décadas de 40 e 50, divide-se entre versões do cancioneiro popular espanhol feitas por cubanos (Celia Cruz, Omara Portuondo ou Celeste Mendoza) e gravações de espanhóis em Havana (Conchita Piquer, Lola Flores ou Antonio Molina). O que salta à vista é não pertencerem bem a nenhum dos sítios e sim a um terceiro, perdido no mar: o da saudade.
“Fania Records 1964-1980: The Original Sound of Latin New York” (Strut, 2011)
Casa-mãe de uma luminosa sensibilidade pan-caribenha ampliada pelo prisma metropolitano da cidade que nunca dorme, a Fania acolheu cubanos, dominicanos, porto-riquenhos ou, crucialmente, nova-iorquinos (Barretto, Colón, etc), potenciando a experiência latino-americana e sonorizando a ‘verdade das ruas’ até ao ponto de a substituir. Um duplo CD que se ouve como uma crónica do (fim do) mundo.
Vinicius Cantuária & Bill Frisell “Lágrimas Mexicanas” (Naïve, 2011)
Mais do que sublinhar características comuns entre ritmos e melodias da América do Norte, Central ou do Sul, trata-se aqui de celebrar uma forma muito peculiar de as colocar do avesso. Cantuária e Frisell, como alfaiates que deixam costuras à vista, não aceitam diluir assinaturas pessoais em troca de uniformidade estética e fazem agora o que fez Arto Lindsay à bossa nova ou David Byrne à salsa.