Com Rosario Giuliani, gravou “Duke’s Dream” (2017); com
André Ceccarelli e Diego Imbert, “Monsieur Claude” (2018; consagrado a
Debussy); com Gabriele Mirabassi e Gabriele Pieranunzi, o seu irmão, “Play
Gerswhin” (2018) – era como se Enrico Pieranunzi, de súbito, e a chegar aos 70,
precisasse de repertório alheio para dizer ao que vinha. Mas, entretanto, na
realidade, em três títulos exclusivamente dedicados a originais – “New Visions”
(2019), “Common View” e “Frame” (ambos deste ano) – dir-se-ia pronto a seguir o
conselho que um dia Charlie Parker deu a Art Blakey, caso o baterista quisesse
saber mais acerca de si e do mundo: “Ouve com os olhos e vê com os ouvidos.” Saída
da boca de Blakey, é uma frase pela qual se dá no livro de entrevistas de Art
Taylor, “Notes and Tones” (1977) – o que, por sua vez, podia ser o subtítulo de
um disco que no domínio das artes plásticas aponta ao Olimpo pessoal. De facto,
aqui, com a sensibilidade à flor da pele, e capaz de trazer à memória um
conjunto de belíssimos álbuns a solo lançados em finais de 90, na EGEA, com
apontamentos dirigidos igualmente a Gustav Klimt (1862-1918), Henri Matisse
(1869-1954), Piet Mondrian (1872-1944), Paul Klee (1879-1940) e Pablo Picasso
(1881-1973), Pieranunzi enquadra (como não dizê-lo?) uma série de impressões, ocasionalmente
em forma de suíte, extraídas, sobretudo, da contemplação de obras de Edward
Hopper (1882-1967), Mark Rothko (1903-1970) e Jackson Pollock (1912-1956). No
jazz, não foi o único a fazê-lo: recorde-se que o primeiro registo digno de
nota de um tema de saxofone solo se chamou ‘Picasso’ (Coleman Hawkins) – ou, já
agora, ‘Flakes – To Mark Rothko’ (Steve Lacy), ‘Les Trois Lagons - d'Après Henri Matisse' (Carla Bley) e 'Paul Klee' (Ivo Perelman,
Matthew Shipp e Gerald Cleaver), bem como a escolha de “Luz Branca”, de
Pollock, para a capa de “Free Jazz”, de Ornette Coleman”, ou de “Verão”, de
Hopper, para “Versuch der Rekonstruktion einer vergangenen Zeit”, de Sven-Ake
Johansson e Alexander von Schlippenbach. Ao piano, Pieranunzi traduz os sonhos
de uns, os assombros de outros, a sedução e a solidão que em todos havia.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
Mostrar mensagens com a etiqueta Gustav Klimt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gustav Klimt. Mostrar todas as mensagens
9 de maio de 2020
Enrico Pieranunzi “Frame” (CAM Jazz, 2020)
Etiquetas:
Art Blakey,
Art Taylor,
Cam Jazz,
Charlie Parker,
Edward Hopper,
Enrico Pieranunzi,
Gustav Klimt,
Henri Matisse,
Jackson Pollock,
Jazz,
Mark Rothko,
Pablo Picasso,
Paul Klee,
Piet Mondrian
16 de fevereiro de 2019
Vienna: Fin de Siècle (Alpha, 2018)
Conversam De Leeuw e Hannigan acerca da ascensão e
queda da Casa de Habsburgo, ou coisa que o valha, e o que salta à memória é
aquele instante de “Star Trek IV: Regresso à Terra” (1986) em que o Capitão
Kirk leva a trupe de oficiais da USS Enterprise a viajar no tempo (precisamente
para meados da década de 80 do século passado) e se sente na obrigação de fazer
a seguinte advertência: “Cuidado. É uma cultura extremamente primitiva e
paranóica.” Agora, apontando agulhas para a Viena de finais do século dezanove,
pianista e cantora discutem um mundo virado “de pernas para o ar”, “à beira do colapso”
e da “catástrofe” independentemente, claro, de estar recheado de génios! Gente que,
prossegue De Leeuw, ansiava desesperadamente pelas palavras certas que lhe permitissem
“formar uma nova gramática musical e inclusivamente uma nova linguagem
harmónica” e partir assim “rumo ao desconhecido”. Como é óbvio, na introdução,
se fosse um documentário, ouvir-se-ia alguém dizer: “Tonalidade – a última
fronteira.”
Se bem que, em “Viena – Fin-de-siècle: Política e Cultura”, Carl
Schorske tenha antes falado de “explosão no jardim”. Vem daí uma imagem que se
cola com frequência ao período: a de uma vertiginosa valsa que se vai fragmentando
tanto quanto no espaço se vai soltando a fuselagem de uma nave que atinge velocidades
para que não está preparada. Aqui capta-se o momento imediatamente anterior à sua
total desintegração: Schoenberg, Webern, Berg, Zemlinsky, Alma Mahler e Hugo Wolf
semeando de maus agouros a estrutura da canção romântica sem a fracionar em
definitivo. Será tudo vagamente anacrónico – do responsável pela “emancipação
da dissonância”, como lhe chamou, e respetivos acólitos, bem como de Zemlinksy,
surgem opúsculos pré-históricos e de Alma vem outro perfeitamente dissociativo,
da altura em que tinha mais em mente o amante que o marido – e só o mais antigo,
o de Wolf, é algo significativo. Mas a verdade é que jamais se cantou com tão
poucos átomos de espessura o que separa a tonalidade da atonalidade, com
Hannigan a lembrar o “Nuda Veritas”, de Klimt, em que uma mulher nua segura um
espelho virado para quem olha para si. Nunca esteve esse espelho tão perto de
se quebrar.
Etiquetas:
Alban Berg,
Alexander Von Zemlinsky,
Alma Mahler,
Anton Webern,
Arnold Schoenberg,
Barbara Hannigan,
Carl Schorske,
Clássica,
Gustav Klimt,
Hugo Wolf,
Reinbert de Leeuw
Subscrever:
Mensagens (Atom)


