Em “How
Music Dies (Or Lives): Field Recordings and the Battle for Democracy in the
Arts” (Allworth, 2016), a certa altura, dá-se com esta frase: “Na medida
em que uma criança a balbuciar reproduz já a totalidade dos sons que o ser
humano consegue emitir por via oral, aprender uma língua implica sempre algum
tipo de esquecimento. Ou seja, em termos comunicacionais, para se adaptar a
determinado sistema linguístico, um bebé é ensinado a fazer escolhas.” Como é
óbvio, quando escreveu estas linhas, Ian Brennan estava longe de imaginar que
um dia iria conhecer Ustad Naseeruddin Saami, alguém que se diria incapaz de
perder a lembrança de todo e qualquer som que consigo nasceu. Aliás, escuta-se
‘Aman’, por exemplo, e o que começa por uma tímida lalação vai gradualmente ganhando
mundo e adquirindo significado até, por fim, se afundar na garganta, um gemido
abafado pelo que não chegou a ser – é como o ciclo completo da vida, do
primeiro grito ao último suspiro, passando por tudo aquilo que é só dor ou que
é só prazer. Afinal, Saami traduz-se por “ouvir” – e, em sânscrito védico, shruti, o seu conceito base, por “o que
é ouvido” (na música do subcontinente, refere-se ao mais pequeno intervalo efetivamente
percetível entre os tons de uma escala). Que é, grosso modo, o que Brennan foi
convidado a ir fazer a Karachi, quando, em 2016, e porventura como reação ao
atentado que vitimou o cantor qawwali
Amjad Farid Sabri, discípulos de Saami o alertaram para a imperiosa necessidade
de pôr a salvo dos talibãs um património único, que é precisamente aquele que o
seu mestre personifica. Ao chegar, Ian encontrou um senhor franco, franzino,
desdentado e destemido, e um pouco surdo, também, que se move como um gato
pelas sombras de uma escala pré-islâmica de 49 notas que faz corar de vergonha
qualquer almuadem que se preze (conferir igualmente em “Closer to God”, um documentário
da realizadora Annette Berger). Sentado no terraço de sua casa, à noite,
acompanhado pelos filhos (em harmónio, tanpura
e tablas), Saami canta até ao sol raiar como se fosse a última vez, ou a
primeira, apontando com as mãos um caminho que só ele sabe onde vai.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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19 de setembro de 2020
30 de maio de 2020
Edikanfo “The Pace Setters” (Glitterbeat, re. 2020)
Há coisa de dez anos, tinha ele acabado de escrever notas de
apresentação para “Ghana Funk from the 70s”, na Hippo, entrei em contacto com
John Collins, instrumentista, investigador e docente na Universidade do Gana. Trocando
impressões sobre a avalanche de antologias focadas em música ganesa que na
altura atingia o mercado, dizia-lhe que achava extraordinário nenhuma delas
incluir os Edikanfo, dos poucos a terem sido editados na Europa. “É verdade”, respondia-me. “Mas, se reparar, sob esse prisma, a omissão
dos Osibisa será ainda mais escandalosa. Não só, no Gana, se passou a desconfiar
das bandas que se atreveram a combinar ritmos ganeses com rock e soul, como,
também, na Europa, se passou a questionar a honestidade das bandas africanas
que procuraram nos anos 70 e 80 sucesso fora de portas. Sem que o tivessem
chegado a gozar, os Edikanfo, no processo, são um dano colateral.” Realmente. Atente-se
ao paradoxo nestas palavras do empresário Faisal Helwani, antigo ideólogo da
banda, em entrevista à americana “In These Times”, em 2001: “Hoje, no Gana, para
se estar na crista da onda, tem de se ouvir música importada enquanto se segura
um hambúrguer com a mão direita e uma lata de Coca-Cola com a esquerda!” Pois, em
1981, como esse futuro convertido ao purismo fez questão de garantir, bastava
ter-se Brian Eno na cabine – este, por sua vez, via materializar-se a intuição
que o tinha guiado a “My Life in the Bush of Ghosts” (com Byrne): que “na
interação entre o primitivo e o futurista, as ideias mais interessantes eram as
mais antigas”, disse, à “Sounds”. Por sorte, esperava-o em Acra gente que se
sabia na primeira linha – em acã, edikanfo
quer dizer líder – e “The Pace Setters” resulta de uma notável e elementar tomada
de consciência: com Talking Heads à cabeça, de corresponder ao passo em frente
que compensasse os dois que dava atrás quem na época pretendia renovar energias
em solo africano. Conseguiu-o, em teoria, mas o golpe militar que no final do
ano fechou o país impediu-o de o demonstrar na prática – 40 anos depois, é a
covid-19 que mantém os reformados Edikanfo presos em casa de passaporte no
bolso. A ironia.
16 de maio de 2020
Fra Fra “Funeral Songs” (Glitterbeat, 2020)
No Gana setentrional, a cerca de 400 quilómetros da
costa, Ian Brennan interrogava-se acerca dos limites de resistência à tração de
uma cultura: “Até que ponto [este material] pode ser esticado antes de se quebrar?”,
anotava ele, no seu bloco de apontamentos, tentando controlar o derrame de um
microfone ao outro, enquanto ali mesmo, bem à sua frente, quatro homens lhe diziam
a que soa o equivalente anímico a uma fratura exposta na superfície terrestre. Depois,
escreve: “Esta região está na origem do Blues – é de onde eles vieram e, no
fundo, de onde nunca saíram.” Nesse instante, como é óbvio, não estava com a
intuição delirantemente à solta: antes dele, tomados pelo mesmíssimo
pressentimento, cronistas como Paul Oliver e Samuel Charters – isto é, gente que
andou à cata do ponto exato onde o blues
começou, quais David Livingstone ou Richard Burton em busca da nascente do Nilo
– haviam incluído canto responsorial fra fra em “Story of the Blues” (1969) e “African
Journey: A Search for the Roots of the Blues” (1975). Mas, apesar de ter de lidar
com arquétipos semelhantes, Ian não anda propriamente a verter resina sobre ninguém.
Aliás, ao contrário da prática etnomusicológica, como explica em “How Music
Dies” (2016), não tenta isolar um determinado momento, nem fixar o que é por
natureza fluído: pela negativa, Brennan rejeita a ideia de que “produz discos
de ‘world music’”, refuta o “conceito de autenticidade” e recusa-se a ser “visto
como um conservacionista”. Ele é só “alguém que grava discos de punks que, por acaso, vêm de zonas muito
remotas do planeta, onde, por sinal, nunca se ouviu um disco de punk – nem outro disco qualquer, se
formos a ver”, como me pôs por email,
há uns anos. É o caso deste quarteto movido a milho-miúdo, que canta as coisas
da vida (e da morte) com a mesma desarmante crueza com que gerações de bluesmen se puseram a entoar melodias
que começavam pela frase: “Eu hoje acordei”. Pelo menos até ao dia em que não se
acorda de vez. “Tens, aí, o disco para ouvir”, escrevia-me Brennan, de Itália,
em meados de março. “Neste período de confinamento, até a mim me parece mais
pungente”, admitia. Então, não?
7 de julho de 2018
Sugestões de verão
Ary
Barroso “Meu Brasil Brasileiro” (Aquarela do Brasil, re. 2018)
Nos
anos 50 não era assim tão comum um músico revisitar o próprio catálogo, como fez,
aqui, Ary Barroso com canções suas da década de 30. Em versão pingue-pongue, o
conceito estendia-se a “Um Interpreta o Outro” (também incluído nesta
reedição), com Barroso e Dorival Caymmi fazendo o que o título dizia e recuperando
para a era-Kubitschek um repertório muito preso aos balangandãs de Carmen
Miranda.
Caetano,
Moreno, Zeca, Tom Veloso “Ofertório – Ao Vivo” (Universal, 2018)
Mais
uma transfusão na carreira de Caetano, desta feita indo diretamente ao cerne da
questão e, ao recorrer a sangue do seu sangue, isto é, aos seus filhos Moreno,
Zeca e Tom, dando até mais corpo a esta eucarística metáfora de que por ora se
socorre. O repertório é transversal, muito católico e a prole até canta uma
canção que lhe precedeu: ‘A Tua Presença Morena’, de 1971.
Fatoumata
Diawara “Fenfo” (Wagram, 2018)
Cada
vez mais apta em transferir a sua arte do domínio da poesia para o da política,
e vice-versa, Fatoumata canta sobre amores separados à fronteira como se fosse
capaz de antecipar ciclos noticiosos. Mas também canta sobre amores que superam
fronteiras simbólicas, como a da identidade étnica. A compositora maliana não
lançava um disco desde a sua estreia com “Fatou”, em 2011 – não perdeu pitada.
Gal
Costa “Legal” (Elemental, re. 2018)
Tomado
de uma brilhante intuição, quando a apresentou ao mundo, em 1967, Caetano disse
que Gal participava da qualidade de “violentar o gosto contemporâneo”. Nem ele
sabia o quanto. Três anos depois estava já a ditadura instalada, ele exilado e
ela a segurar a barra da contracultura. “Legal” é um marco desse período e o
despertar daquele sentimento que viria a culminar no verão das “dunas de Gal”.
Konkere
Beats “Yoruba!” (Soul Jazz, 2018)
A
música viaja desde que foi necessário regular o movimento dos remadores numa
embarcação. Mas nunca o terá feito em tão larga escala quanto no auge do
tráfico negreiro, presume-se. A partir de Lagos, na Nigéria, a Soul Jazz
promove, então, um retrato da diáspora ioruba cheio de ecos de outros ecos a
assaltar ouvidos e a memória (do candomblé à santería) – todas as coisas do mundo a ficar ligadas.
Shina
Williams & His African Percussionists “African Dances” (Mr. Bongo, re.
2018)
A
direção musical é de Biddy Wright (então, em 1979, produtor de C. S. Crew ou
Lijadu Sisters) e os músicos, vindos das bandas de Tee Mac, Sonny Okosun ou
Orlando Julius, os melhores que o naira nigeriano podia comprar. Faz a chamada
no afrobeat mas vai já lançado pelo
ar em direção ao boogie e ao coração
da pista de dança. É um verão eterno que só o Golpe Militar de 1983 fez
terminar.
Sonido
Gallo Negro “Mambo Cósmico” (Glitterbeat, 2018)
Enquanto
uns insistem em erguer barreiras, outros há que teimam em deitá-las abaixo ou a
voar-lhes por cima – uma metáfora mais apropriada para descrever o que, aqui,
ao seu terceiro álbum, de tanto ler realismo mágico, presume-se, ou, quiçá, de
tanto ouvir os registos mais psicadélicos de cumbia colombiana e chicha
peruana, faz esta trupe mexicana aos géneros musicais. Trump não lhes daria
visto.
Too
Slow To Disco: Brasil – Compiled By Ed Motta (How Do You Are?, 2018)
A
maior parte dos temas aqui incluídos são de 1982-83 (Sandra Sá, Filó, Biafra,
Brylho, Junior Mendes, Roupa Nova) e têm mão de Lincoln Olivetti e Robson Jorge.
É o som do Brasil a sair da camisa-de-forças da ditadura, a fugir rumo ao
futuro (eleições diretas, videojogos, Manchete) e a levar consigo um miúdo chamado
Ed Motta que agora retribui o favor.
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