Há coisa de um ano, preso a uma
cama do Hôpital Principal de Dakar, Mar Seck falava para o gravador do grego
Adamantios Kafetzis – o agente por detrás da Teranga Beat – e, naturalmente, a
par de tudo aquilo que viveu, e de um apropriadíssimo prenome, consigo estava o
hálito das oportunidades perdidas: “Pape Seck, que foi como um irmão mais
velho”, dizia, “quis levar-me para os Africando, mas adoeci e no meu lugar
seguiu o Medoune [Diallo, vocalista da Orchestra Baobab].” De facto, dir-se-ia
desenhado à medida do seu cândido tenor esse projeto que desde 1993 arrosta a
aura atlântica. Ouça-se, aliás, “Viva Africando”, editado em setembro pela
Sterns, para se verificar a firmeza dessa, passe a contradição, vaporosa
estética crioula de que Mar Seck comungou. É o que perfila este “Vagabonde”,
agora reunindo material do cantor e compositor, quase todo inédito, cuja
transitoriedade acabou por espelhar o ideário da modernidade senegalesa. Não
deixa de ser terrivelmente poético que pela maior parte dos temas da compilação,
novamente masterizados, sopre um inquietante silvo digital, o som próprio da
negligência fonográfica: resgatados a sessões radiofónicas de 1969 com os Super
Cap-Vert, trata-se de sete testemunhos praticamente arcaicos, face ao iminente
programa cultural da négritude, arrastados,
então, pela perfumada corrente que, via rumba congolesa, chegava ainda das
Antilhas, e que aqui se cruzava com dolentes eflúvios cabo-verdianos. Já de
acordo com o plano oficial, um trio de canções de 1973 com a Star Band de Dakar
e um par extraído a uma atuação de 1980 com a Number One de Dakar não anuviam o
que tudo deve à quimera. Essencial.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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8 de fevereiro de 2014
4 de maio de 2013
Royal Band de Thiès “Kadior Demb” (Teranga Beat, 2012)
Como tantas vilas na costa
ocidental africana, Thiès desenvolveu-se de acordo com imperativos coloniais,
devendo-se o ímpeto fulcral para o seu crescimento à construção de um entroncamento
ferroviário que agilizou a comunicação entre Dakar e o resto do país, e, ao fim
de décadas de empreitada, concretizou a junção com a linha vinda de Bamako, no
Mali. O surto de atividade comercial deu origem a uma fixação de populações
migrantes – de diversas etnias e nacionalidades – e ao correspondente aumento do
tecido urbano, com os seus bairros residenciais, pequenos negócios, praças e
mercados, bares e restaurantes. É o tipo de cidade na região que, desde a
independência, se desfaz em nostalgia e se revela perversamente indiferente ao
progresso. Em agosto de 2004, o grego Adamantios Kafetzis, colecionador de
discos, brindava a glórias passadas num bar local, transportado por uma banda para
um tempo sem retorno. Descobriu que o distinto barítono que o enfeitiçava em palco
era o de Adama Secka, cantando ao lado da vetusta Royal Band de Thiès. A
continuação da história é familiar: Secka conduziu-o a James Gadiaga, antigo
vocalista do grupo, ex-Super Diamono e atual Super Cayor, que por sua vez lhe
entregou uma preciosa fita, na sua posse há 25 anos – imaculadas gravações de
1979 realizadas por Moussa Diallo, o mesmo que registou álbuns de Youssou
N’Dour com a Étoile de Dakar, de Pape Seck com a Number One ou o mítico
“Pirates Choice”, da Orchestra Baobab. O que aí ouviu – e que agora edita neste
“Kadior Demb” – é o mesmérico som dessa gente em trânsito, vaporizando formas
cubanas, embriagando ritmos tribais, vivendo o sonho a cada nota na guitarra
elétrica e a cada baforada no saxofone, algo tão essencial e vibrante quanto a
própria vida e tão belo e inesquecível quanto esses símbolos da modernidade
senegalesa, até hoje perdido na noite.
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