No início deste prodigioso “Togetherness Music” não está bem o verbo mas, sim, o sibilante soprano de Evan Parker – lá está ele, algo solipso, cicioso, elíptico e fechado sobre si mesmo, fluente na língua dos encantadores de serpentes. Seja como for, no tema (‘Indistinguishable from Magic’, chama-se), porque “nele estava a vida”, pode dizer-se que “tudo foi feito por ele” e que “nada do que tem sido feito foi feito sem ele”, tal como nos versículos iniciais de João – não é por acaso que aos três minutos dessa sua improvisação a solo entra em cena um clangoroso e demiúrgico tutti, logo escoltado por aparatosos glissandi, com violinos, violas, violoncelos e contrabaixos a testar motores de arranque. Claro que, com Parker, será tudo relativamente mais ambíguo – neste contexto, como se diz dos cientistas, ele é tanto o criador quanto o destruidor de mundos – e, nessa perspetiva, se estivéssemos no Paraíso, o seu papel seria o daquela genesíaca e astuta nutricionista que desejava à força toda que Adão e Eva incluíssem mais fruta nas respetivas dietas. A metáfora não é completamente gratuita: há 20 anos, num expoente do género, o momento mais transcendente do já de si inteiramente sublime “Strings With Evan Parker” chamava-se ‘Double Headed Serpent’, título que Parker sacou a um dos seus passeios pelo British Museum – “Não há melhor forma de lidar com bloqueios criativos do que visitar um museu”, disse-me há um punhado de anos no Jardim das Esculturas do Museu do Chiado, muito apropriadamente. Aí, deu com essa escultura em madeira com turquesa incrustada de origem misteca ou asteca, símbolo de renovação, sim, mas também dos mundos terreno e subterrâneo, perfeitamente aplicável ao binómio composição-improvisação. Por intermédio do pianista Alexander Hawkins, é de certa forma a esse universo que Parker regressa, embora não se dê por si em ‘Ecstatic Baobabs’, por exemplo: um quinteto de cordas fractal com sons que mais parecem raios de luz. Particularmente policéfalo, com uma pequena secção de metais e madeiras, e com gente como Percy Pursglove na trompete, Matthew Wright na eletrónica ou Mark Sanders no contrabaixo, este “Togetherness Music (For Sixteen Musicians Feat. Evan Parker + Riot Ensemble” – no qual se dá, em ‘Ensemble Equals Together’, com uma outra formulação muitíssimo sugestiva – é a nova charneira desse binómio, simultaneamente generativo e degenerativo, como todos os monstros, em radiante (des)contínuo com aquela música feita de transparências e assombrada por espectros mais leves que o ar com a qual sonham sopradores, cientistas e serpentes desde que o mundo é mundo.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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26 de fevereiro de 2021
23 de maio de 2020
Last Dream of the Morning “Crucial Anatomy” (Trost, 2020) & Steve Beresford & John Butcher “Old Paradise Airs” (Iluso, 2020)
Last Dream of the Morning – é como se chama o
extraordinário trio de John Butcher, John Edwards e Mark Sanders. Se o
levássemos à letra, aqui, seria como se os sons do sudeste asiático nos
sufocassem os sentidos ao acordar e nos sentássemos na cama subitamente cintados
pelo suor, cercados de incenso, siderados pelo lasso ziziar das cigarras longe
das cidades – saxofone, contrabaixo e bateria as únicas formas reconhecíveis
entre as sombras e as fumaças. Trata-se, em rigor, de pôr em cena a atávica etiqueta
do ritual que há na música, com os seus gestos sagrados e aquela mediúnica
capacidade de, ao vivo, em concerto, atribuir expressão concreta à imanência pura
do momento presente. Como poucos, mas como todos os outros, os discos de John
Butcher fazem questão de nos lembrar que são apenas instantâneos abruptamente
subtraídos à realidade, uma receita para o medo que a nossa impermanência nos
mete.
Durante o confinamento, como se
estivesse a exercer uma espécie de prerrogativa qualquer, dei por mim a
revisitar “The Geometry of Sentiment” (2007) e “Resonant Spaces” (2008),
registos dele a solo, alguns dos quais em locais insólitos, lembretes de que a
intimidade é frequentemente governada por circunstâncias que fogem ao nosso
controlo – e quando me fez “Crucial Anatomy” e “Old Paradise Airs” chegar às
mãos, foi como se me tivesse lido a mente. Como de costume, dá-se por Butcher a
escalpelar os subsistemas da linguagem em ambos, a esforçar-se não só para ter
o que dizer mas, sobretudo, em ter como o dizer, enquanto, primeiro, se
encontra num templo zen, a aprender a
separar querer e crer, e, depois, com Beresford, e a língua feita em lava, se vê
mergulhado numa câmara magmática. Nos dois, o mistério de estar num e noutro
sítio sem se perder em lugar nenhum.
22 de outubro de 2016
John Butcher & Stale Liavik Solberg “So Beautiful, It Starts To Rain” (Clean Feed, 2016)
Butcher
grasna, grunhe, guincha, grita e gorjeia. Berra, brama, bale e buzina. Trina,
trila e trissa. Acompanha-o Stale Solberg, percussionista norueguês que tanto
quanto o britânico ao saxofone põe em cena um ecossistema mal se senta à
bateria. Escutam-se peles, pratos e potes. Sinos, chapas e chocalhos. E perde-se
a conta ao arsenal de baquetas de que dispõe, não obstante preferir com frequência
a intimidade de roçar as pontas dos dedos húmidos pelas membranas da tarola ou
do timbalão. Ouvindo-o, salta à memória o que Butcher dizia acerca de
bateristas, numa entrevista publicada há 15 anos na “Paris Transatlantic”: “Evitei-os
durante muito tempo. Não me interessava trabalhar com aquele tipo de propulsão.
Toquei com o Paul Lovens, que operava de um modo mais espetral, mas foi o John
Stevens que me levou a ter novamente interesse pela bateria. Sem a condicionar,
ele dava um belíssimo impulso à música, deixando-a muito transparente. E isso
deve-se ao instrumento que usava, em que era tudo miniaturizado, sem grande
sustentação.” Claro que, desde então, Butcher encontrou o que procurava. E há
discos que o comprovam, como “Concentric” (com Paal Nilssen-Love) ou “Daylight”
(com Mark Sanders). Registos, como este, em que a arte triunfa sempre sobre a
técnica. Um considerando, aliás, em que se dá pelo seu moralismo. Num ensaio
incluído numa antologia dedicada à improvisação (“Aspekte der Freien
Improvisation in der Musik”, 2011), escreveu assim: “De certeza que não
teríamos a ousadia de descrever como ‘técnicas estendidas’ o recurso ao feedback de Jimi Hendrix, os ataques
percussivos de Son House com o slide
ou aquele oitavar que o volume de sopro excedentário de Albert Ayler permitia.”
Não… O que não impede que se caracterize a manipulação das frequências
fundamentais dos tons que Butcher faz ao saxofone, por exemplo, exatamente
dessa maneira. Tudo, porque – e é aí que residirá a beleza a que este título alude
– insiste em fazer música que ultrapassa a própria imaginação.
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