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2 de março de 2013

Maria Rita "Redescobrir" (Universal, 2012)



A canção era de Ivan Lins e Vítor Martins, que, como tantos, da sua posse foram destituídos no instante em que Elis a fez sua, e dizia “perdoem a cara amarrada/ perdoem a falta de abraço/ perdoem a falta de espaço/ os dias eram assim”, implorando “perdoem por tantos perigos/ perdoem a falta de abrigo/ perdoem a falta de amigos/ os dias eram assim”, para concluir: “e quando passarem a limpo/ e quando cortarem os laços/ e quando soltarem os cintos/ façam a festa por mim”. Chamava-se ‘Aos Nossos Filhos’ (Elis gravou-a em “Saudade do Brasil”, em 1980) e Maria Rita não a incluiu em “Redescobrir”, no qual, não obstante, trata de a seguir à letra. De facto, que se saiba, nenhuma outra carta lhe deixou a mãe quando, em 1982, tinha ela quatro anos, se despediu de si pela última vez, partindo naquele, ampla e sensacionalmente, mediatizado embalo de álcool e cocaína. Por isso, este espetáculo foi também um muito público ato de redenção. Os seus 28 temas – apenas ‘Imagem’ e ‘Arrastão’ são originários dos anos 60 – vêm predominantemente da década de 70, sendo que de dezassete deles, gravados entre 1977 e 1982, talvez por coincidência, foi Maria Rita contemporânea. Era uma fase tão complexa quão subtil em Elis, com aquele cabelo curto entre a Mia Farrow de "A Semente do Diabo", a Jean Seberg de “O Acossado” e a Sylvia Kristel de “Emmanuelle” a tornar ainda mais irredutível, inflexível e iconográfica uma expressão que nesse momento exatificava o paradigma interpretativo feminino na música popular brasileira, distante já da ornamentação e da hipérbole, recriando então o mundo à sua imagem. Maria Rita é mais pedagógica do que demagógica na sua evocação e, ocasionalmente, não receia o transe mediúnico.

Entrevista a Maria Rita




Ao décimo ano de carreira, e após quatro álbuns de estúdio, Maria Rita dedicou-se por fim a um repertório associado à voz da sua mãe, a mercurial e titânica Elis Regina, numa série de espetáculos em que assinalou o trigésimo aniversário da sua morte. A iniciativa surge agora transferida para duplo CD e DVD – que serviram de mote a esta conversa – e em finais de junho chegará aos palcos de Lisboa e Porto.

Independentemente da salvaguarda da sua própria especificidade artística, e dada a sua privilegiada posição, parece-me importante começar por tentar compreender duas coisas: primeiro, o que de mais significativo encontra no legado da sua mãe? Segundo, o que significa para si poder, neste momento, reconduzi-lo a diferentes gerações?
Sabe que tive uma filha agora em dezembro e tenho dedicado 24 horas do meu dia aos cuidados com a Alice. E faço essa introdução porque considero que esse fato é importante na resposta à sua pergunta. Minha mãe foi uma mulher excecional. Em todos os sentidos: boa pessoa, boa profissional, uma cantora sem igual e, principalmente, uma boa mãe. Tive pouco tempo de convívio pessoal com ela, mas tempo suficiente para que ela deixasse registrado em mim o compromisso com o acerto, com a correção no trabalho e no trato pessoal e, principalmente, um amor incondicional à música. Quero poder legar à minha filha Alice e ao meu filho Antônio essa mesma herança. E esse projeto, “Redescobrir”, ao qual me dediquei por mais de um ano, teve por objetivo permitir que as novas gerações pudessem conhecer o legado de Elis Regina: a cantora, o ser humano e a cidadã.

Muitas iniciativas editoriais assinalaram os 30 anos da morte de Elis mas, dentro dos parâmetros daquele que é sempre um trabalho sobre a memória, uma ação como a sua integra invariavelmente valores contemporâneos. Em termos gerais, o que mais a motivou no processo?
Eu fiquei meses me dedicando a ouvir os discos gravados pela minha mãe, para poder tirar do universo de sua obra mais de 60 canções que resultaram nas músicas que estão no repertório do show, do CD e DVD. Escolha difícil – Elis tinha um compromisso absoluto e inegociável com a qualidade das canções e dos arranjos nas inúmeras gravações que fez. Procurei manter os arranjos originais em respeito à sua obra - especialmente nos grandes clássicos - buscando, como você mesmo aponta, algumas informações e sonoridades atuais mas com o cuidado de não interferir no desenho artístico único que ela registrou em todo o seu trabalho e que tem como uma de suas características mais importantes, decorridos 30 anos de sua morte, a contemporaneidade. Não por acaso, Nelson Motta, um dos mais importantes e completos intelectuais brasileiros e amigo pessoal de minha mãe, declarou recentemente que Elis está cantando cada vez melhor.

Há uma carga simbólica acrescida quando a Maria Rita canta na primeira pessoa do singular, sendo que, neste caso, partilha-a não só com diversos autores mas também com a sua mãe. Presumo que tenha passado por momentos de alguma catarse. Em algum instante sentiu que esse ‘eu’ narrativo ganhava uma inesperada dimensão para si enquanto cantora, mulher e filha?
Essa pergunta é em si mesmo uma catarse! Cantei o que tive vontade e o que o meu coração disse. Elis gostaria de me ter ouvido cantar [com tanta] emoção à flor da pele. E nesse show sou muito mais narradora do que intérprete, sim – sou mais filha do que cantora, inclusivamente. No show, no entanto, há uma música especial para mim: é a ‘Essa Mulher’, da Joyce Moreno, que foi sempre uma das canções que mais gostei de ouvir minha mãe cantar. Poder cantá-la agora me trouxe uma cumplicidade feminina com minha mãe que a vida não nos deu a oportunidade de ter. Magia que só a música pode fazer.

Desde que a Maria Rita editou o seu primeiro disco que no público cresceu o desejo de a ouvir confrontar o paradigma interpretativo da sua mãe. No entanto, não me lembro de, com a mesma veemência, se insistir para Bebel cantar João, Mart’nália cantar Martinho, Clara cantar Joyce, etc. Julga que isso se dava mais como consequência do sucesso obtido pela sua mãe e o seu prematuro desaparecimento, pela afinidade tímbrica das suas vozes ou porque existe de facto um grande desejo de redenção da figura de Elis? 
Pois é, acho que nenhum dos meus amigos e colegas que você cita experimentou o mesmo nível de cobrança que tive quando comecei a cantar. E olha que foi preciso muita coragem para encarar a realidade de que a música era minha vida e o palco o meu lugar. Mas coragem foi uma das boas coisas que eu herdei dela. Minha mãe é um exemplo não só para mim, mas para toda a sua geração e, espero, com esse show, para as novas gerações também. Há ainda a questão do timbre que é mais uma herança da qual me orgulho muito. Mas essa curiosidade exacerbada é exatamente porque tudo em torno de Elis foi sempre muito emocional – menos por sua história de vida e mais pela maneira excecional com que ela se dedicou à música e tocou o coração das pessoas. Quando me resolvi dedicar à música optei por construir minha história pessoal e musical de forma independente, criando uma identidade. E agora, decorridos 10 anos de minha (curta) história já escrita, mais segura de mim, achei que esse era o momento de prestar a ela essa homenagem. E estou muito feliz com isso.


Aqui, o mais significativo e comovente vem de ligações que não respeitam estritamente o que é da ordem das ideias. É uma contradição, uma inevitabilidade, uma questão de equilíbrio controlado ou é precisamente este tipo de significado ambíguo que quis construir?
Fico muito feliz que isso tenha ficado tão claro para você. Foi uma escolha pessoal, emocional e intransferível. Nada cerebral. E não há nenhuma contradição porque não há nenhum compromisso com nenhum processo. Apenas o desejo da homenagem e a escolha emocional das canções. E um profundo respeito e admiração pelo que ela fez e pelo público, tanto o meu quanto o dela, que tem uma memória latente e viva de Elis, seja por experiência própria, seja através do inconsciente coletivo. Somos, sim, eu e a banda, como um veículo para trazer para os dias de hoje o seu legado, com respeito mas também com paixão e uma honesta entrega.

26 de janeiro de 2013

O que aí vem

Música do Mundo


Desconhecem-se os cartazes dos festivais de verão, mas crescem as expectativas em relação ao FMM de Sines, que, para a sua 15ª edição, adianta-nos em primeira mão a reincidência de Amadou & Mariam, bem como, haja paz, de outros compatriotas malianos. Para já, sempre em matéria de concertos, registem-se as iminentes chegadas de Milton Nascimento (Espaço Brasil), Paco Ibáñez (Gulbenkian) e, ainda em fevereiro, Diego el Cigala (CCB e Casa da Música). Depois, com a primavera, aguardam-se odores mediterrânicos na capital com as visitas de Savina Yannatou (CCB) e Jon Hassell (MM) e, entre abril e maio, evocam-se duas idades do flamenco com Dave Holland & Pepe Habichuela (Casa da Música) e a Accademia del Piacere (Gulbenkian). Antes, pelo meio e depois disto tudo, canta-se com o sotaque mais imitado no país: Martinho da Vila, Daniela Mercury e Marisa Monte vêm aos coliseus, Adriana Calcanhotto passeia em cinco cidades, Maria Rita fecha as festas juninas e, no âmbito do “Ano do Brasil em Portugal” (leia-se Lisboa), espera-se um elenco de dezenas na Lx Factory presumivelmente - tem havido confusão nos editais – encabeçado por Passo Torto, Thaís Gulin, Tulipa Ruiz, Wilson das Neves ou Zé Miguel Wisnik.