Entramos
de mansinho no camarim e damos com Céu e Dustan Gallas a ensaiar ‘Palhaço’, clássico
de Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes da década de 50.
“Sei que é doloroso um palhaço/ Se afastar do palco por alguém/ Volta, que a
plateia te reclama”, canta ela, com voz de menina ensonada. Já ele, mal dá o
último acorde na sua Rickenbacker, espanta-se por a versão ter saído tão bem.
“É”, responde-lhe Céu, “a gente é foda.” Não estamos definitivamente nos anos
50. Mas o clima não será assim tão informal quanto isso: afinal, num programa
que, em DVD, se estende por 100 minutos, só uma enorme coincidência contraporia
a esses versos iniciais aqueloutros, de Bob Marley, com que a atuação termina:
“Never known what happiness is/ I’ve never known what sweet caress is/ Still,
I’ll be always laughing like a clown”. E é quando a ação se transfere para a
sala do Centro Cultural Rio Verde, em São Paulo, que, prestando atenção aos
adereços, se percebe até que ponto se acusa aqui a responsabilidade do teatro:
há palmeiras, araras de porcelana, lustres e abajures de vime sintético, uma
estátua de Iemanjá e, suspensas por detrás dos músicos, em néon, as palavras
que dão o nome ao último CD de Céu, “Caravana Sereia Bloom”. Dos 24 temas no
alinhamento, 11 provêm daí. Aliás, no filme, quiçá inadvertidamente, há um
momento hilariante em que a banda discute se terá “deixado alguma coisa
importante de fora”. Não, está cá tudo o que se precisa de saber sobre Céu e o
seu conjunto, espécie de Bad Seeds consagrados à cumbia, ao bolero, à lambada, enfim, à grande música do inferno.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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31 de outubro de 2015
12 de maio de 2012
Céu “Caravana Sereia Bloom” (Universal, 2012)
Veiculando
uma desadequada lassidão, primeiro no homónimo disco de estreia (“CéU”, 2005) e
posteriormente em “Vagarosa” (2009), Maria do Céu Whitaker Poças sempre pareceu
seguir procedimentos de produtor. O que, em abono da verdade, lhe garantiu mais-valias
comerciais e o favor da crítica. Mas no prudente equilibrismo formal desenhado
com o compasso do dub e temperado com
a indefinição do jazz que lhe marcava
o passo pressentia-se também uma contemporaneidade postiça, de curto alcance
intelectual e, a espaços, previsível unidimensionalidade. Só que a técnica não
tem de ser um estorvo. E, num enquadramento estético francamente livre e
apropriadamente errático, para o qual terá contribuído a ação de Gui Amabis,
Pupillo ou Dustan Gallas, este “Caravana Sereia Bloom”, na mesma proporção em
que aparenta uma mais realista objectivação processual, sugere uma expressão
autoral de rara clareza e dramática introspecção. E, numa elíptica narrativa equivalente
ao cinematográfico road movie que em
nada lhe compromete a fluidez, as suas canções reflectem as experiências da
estrada seguindo instintos de sonoplasta e um dispositivo tão dispersivo quão
restaurativo. Nessa medida, não surpreende que os seus momentos de maior acuidade
se encontrem em ‘Amor de Antigos’, ‘Retrovisor’ e ‘Baile de Ilusão’, temas
escritos pela cantora que tão bem traduzem esse desígnio ontológico, essa emulsão
da memória vertida para as páginas de um diário. Aliás, é pela combinação sincrónica
e não hierarquizada da matéria musical histórica (no caso: a guitarrada de
Mestre Vieira, o tropicalismo de Gil, a jovem guarda de Erasmo, o psicadelismo
de Rita Lee ou o regionalismo dos Novos Baianos) que Céu comunga finalmente da
mais distinta característica da sua geração: o repúdio do preconceito enquanto uma
libertária e extática revogação da apatia.
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