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31 de outubro de 2015

Céu "Ao Vivo" (Sony, 2015)



Entramos de mansinho no camarim e damos com Céu e Dustan Gallas a ensaiar ‘Palhaço’, clássico de Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes da década de 50. “Sei que é doloroso um palhaço/ Se afastar do palco por alguém/ Volta, que a plateia te reclama”, canta ela, com voz de menina ensonada. Já ele, mal dá o último acorde na sua Rickenbacker, espanta-se por a versão ter saído tão bem. “É”, responde-lhe Céu, “a gente é foda.” Não estamos definitivamente nos anos 50. Mas o clima não será assim tão informal quanto isso: afinal, num programa que, em DVD, se estende por 100 minutos, só uma enorme coincidência contraporia a esses versos iniciais aqueloutros, de Bob Marley, com que a atuação termina: “Never known what happiness is/ I’ve never known what sweet caress is/ Still, I’ll be always laughing like a clown”. E é quando a ação se transfere para a sala do Centro Cultural Rio Verde, em São Paulo, que, prestando atenção aos adereços, se percebe até que ponto se acusa aqui a responsabilidade do teatro: há palmeiras, araras de porcelana, lustres e abajures de vime sintético, uma estátua de Iemanjá e, suspensas por detrás dos músicos, em néon, as palavras que dão o nome ao último CD de Céu, “Caravana Sereia Bloom”. Dos 24 temas no alinhamento, 11 provêm daí. Aliás, no filme, quiçá inadvertidamente, há um momento hilariante em que a banda discute se terá “deixado alguma coisa importante de fora”. Não, está cá tudo o que se precisa de saber sobre Céu e o seu conjunto, espécie de Bad Seeds consagrados à cumbia, ao bolero, à lambada, enfim, à grande música do inferno.

12 de maio de 2012

Céu “Caravana Sereia Bloom” (Universal, 2012)


Veiculando uma desadequada lassidão, primeiro no homónimo disco de estreia (“CéU”, 2005) e posteriormente em “Vagarosa” (2009), Maria do Céu Whitaker Poças sempre pareceu seguir procedimentos de produtor. O que, em abono da verdade, lhe garantiu mais-valias comerciais e o favor da crítica. Mas no prudente equilibrismo formal desenhado com o compasso do dub e temperado com a indefinição do jazz que lhe marcava o passo pressentia-se também uma contemporaneidade postiça, de curto alcance intelectual e, a espaços, previsível unidimensionalidade. Só que a técnica não tem de ser um estorvo. E, num enquadramento estético francamente livre e apropriadamente errático, para o qual terá contribuído a ação de Gui Amabis, Pupillo ou Dustan Gallas, este “Caravana Sereia Bloom”, na mesma proporção em que aparenta uma mais realista objectivação processual, sugere uma expressão autoral de rara clareza e dramática introspecção. E, numa elíptica narrativa equivalente ao cinematográfico road movie que em nada lhe compromete a fluidez, as suas canções reflectem as experiências da estrada seguindo instintos de sonoplasta e um dispositivo tão dispersivo quão restaurativo. Nessa medida, não surpreende que os seus momentos de maior acuidade se encontrem em ‘Amor de Antigos’, ‘Retrovisor’ e ‘Baile de Ilusão’, temas escritos pela cantora que tão bem traduzem esse desígnio ontológico, essa emulsão da memória vertida para as páginas de um diário. Aliás, é pela combinação sincrónica e não hierarquizada da matéria musical histórica (no caso: a guitarrada de Mestre Vieira, o tropicalismo de Gil, a jovem guarda de Erasmo, o psicadelismo de Rita Lee ou o regionalismo dos Novos Baianos) que Céu comunga finalmente da mais distinta característica da sua geração: o repúdio do preconceito enquanto uma libertária e extática revogação da apatia.