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20 de fevereiro de 2016

João Gilberto/Stan Getz “Getz/Gilberto ‘76” (Resonance, 2016)


Carrega-se no play e, cintada de silêncios, mais estrófica que histriónica, ouve-se a voz de Stan Getz em cuidados para não entaramelar as palavras, como se receasse blasfemar. Diz assim: “Em meu entender, João Gilberto é o cantor mais singular da atualidade... Um autêntico originador. A sua capacidade de cantar sem vibrato, mas com emoção, é irrepreensível. E o seu inimitável sentido rítmico, o seu intimismo, a par de um maravilhoso trabalho à guitarra, tornam-no único. Que um intérprete tão talentoso e eminente hesite tanto em tocar ao vivo é um daqueles mistérios. Mas ele está aqui esta semana. Senhoras e senhores: João Gilberto!” Sentado entre a desatenta audiência, Gregory Corso terá pensado: “Que profundidades tão simples/ Que simplicidades tão profundas”. Estava-se em 1976, no Keystone Korner, em São Francisco, e, como Harvey Milk na política, também o quarteto de Stan Getz se preparava para fazer história, levando a palco João Gilberto seis noites de seguida, de 11 a 16 de maio. Às lojas, nessa altura, chegava “The Best of Two Worlds”, o reencontro em disco entre o norte-americano e o brasileiro, doze anos depois de “Getz/Gilberto” ter posto o mundo inteiro a cantarolar ‘The Girl from Ipanema’. Presumia-se que tivessem feito as pazes. Afinal, como se sabe, além dos Grammy que arrumou no fundo de uma gaveta, muitos amargos de boca tinha dado o LP a João, começando porventura pelas sessões de estúdio, ou pela supressão da sua voz na canção que imortalizava Helô Pinheiro, e terminando, talvez, numa repartição de royalties de fazer rir ou no caso entre Getz e aquela que era então sua mulher, Astrud. 

Nada disto se menciona nas notas de apresentação deste “Getz/Gilberto ‘76”, gravado ao longo dessa semana de atuações no Keystone Korner. É estranho. Para mais quando se trata da Resonance, uma editora que, contrariamente a João, faz alarde do Grammy que recebeu em 2015 pelo que escreveu Ashley Kahn no livreto de “Offering: Live at Temple University”, de John Coltrane. Mas ainda mais extraordinário é James Gavin, reputado autor de biografias sobre Peggy Lee ou Chet Baker, vir agora dizer que Gilberto se tinha juntado a Luiz Bonfá e a Getz em “Jazz Samba Encore!” (deve estar a pensar em Jobim) ou, por exemplo, que ‘Chega de Saudade’ se traduz em inglês por “longing has arrived” (esta, nem o Google Translate). Sobram os depoimentos dos membros em vida do quarteto (Billy Hart: “O João dizia-me: toca mais como a chuva”; Joanne Brackeen: “Ele, sozinho, soava já como uma banda inteira”) e, claro, a voz daquele que, como a serpente no Éden, precisa apenas de abrir a boca para sujeitar quem o escuta ao seu encanto – uma metáfora muito pouco original, mas, aqui, pelo constante sibilar da fita, de caráter mandatório. Getz sola economicamente, o contrabaixista Clint Houston vai tocando as notas fundamentais de cada acorde (o que, neste contexto, é como nadar contra a corrente), Hart tenta fazer de Milton Banana (sem sucesso) e Brackeen, ao piano, tem a falta de decisão daquela que, antes de lá entrar, precisa sempre de passar os dedos ao de leve pela superfície da água para ver se está fria. João canta o que cantava na década de 70 (‘É Preciso Perdoar’, ‘Águas de Março’, ‘Retrato em Branco e Preto’ ou ‘Eu Vim da Bahia’) e o que sempre cantou (nomeadamente, de Caymmi: ‘Doralice’, ‘Samba da Minha Terra’ e uma ‘Rosa Morena’ para a eternidade). E o tempo recua e avança por sua causa. Quando se dá com estas linhas, “Eu nasci com o samba, no samba me criei/ E do danado do samba nunca me separei”, pensa-se: nem nós.

21 de fevereiro de 2015

Red Garland Trio with Philly Joe Jones & Leroy Vinnegar “Swingin’ on the Korner: Live at Keystone Korner” (Elemental, 2014)



Em 40 páginas de depoimentos, lembranças e indiscrições, esqueceram-se os organizadores desta edição de explicar a cronologia exata destas 16 seleções, que não a que vagamente as situa na semana de 6 de dezembro de 1977, de recordar outras passagens de Garland no Keystone Korner, nomeadamente aquela que também nesse ano – embora procedendo de uma sessão de março – resultou no lançamento de “Keystones!” pela Xanadu, e que já então testemunhava uma galvânica relação com Jones e Vinnegar, ou, até, de mencionar que, em 1983, 14 meses antes de falecer, no mesmo clube de São Francisco, como aconteceu com Bill Evans, registou o pianista a sua discreta “last recording”. Ao invés, o enfoque é colocado na ‘vida e obra’, como se o material agora reunido tivesse origem na mão-cheia de anos, entre finais da década de 50 e inícios da de 60, em que tudo o que em sonhos tocava aparecia num LP da Prestige, já para não falar da sua essencial contribuição para as mais gerundiais produções de Miles Davis – as de “Cookin’”, “Steamin’” e “Workin’” – em que patenteou uma orquestral conceção do piano, harmonicamente densa mas jamais desprovida de leveza, não especialmente veloz mas ainda assim capaz de antecipar as mil e uma maneiras de resolver um problema musical, e em que improvisava de modo tão prodigioso que parecia criar peças autónomas e simultaneamente tão absurdo que excluía qualquer hipótese de premeditação. Aqui, ressurgindo após uma longa travessia do deserto, revelava-se intacta a sua técnica e infinita a sua imaginação.