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9 de maio de 2020

Chopin: Piano Concertos (Decca, 2020) & Chopin: Piano Concertos Nos. 1 & 2 (Warner, 2020)

Rigor a sério, só em “Chopin: Um Inventário”, de Jorge de Sena: “Quase sessenta mazurcas/ Cerca de trinta estudos/ Duas dúzias de prelúdios/ Uma vintena de noturnos/ Umas quinze valsas/ Mais de uma dúzia de ‘polonaises’/ ‘Scherzos’, improvisos, e baladas, quatro de cada/ Três sonatas para piano/ E dois concertos para piano e orquestra”. E largas centenas de gravações, apetece dizer, tão certa de penetrar no âmago do polaco, cada, que, se prestarmos bem atenção, nos pianíssimos, até os gatinhos que no seu brônquio se punham a miar quando respirava se ouvem. Aqui, novas interpretações dos concertos, uma de Benjamin Grosvenor, outra de Yundi, aplicam tratamentos diversos – o primeiro chega a pegar no estetoscópio (uma invenção recente, para 1830), o segundo fica-se pela homeopatia.

Isto é, possui o britânico uma curiosidade anatómica pela energia vital de cada concerto, conquanto tenha pouco mais que laxantes ao seu dispor, e recorre o chinês ao memorioso poder – embora quimicamente inerte – da água destilada. Não admira que assim seja, quando tem um a seu lado uma maestrina como Elim Chan – e raramente é injetado tanto contraste nas veias destes concertos, quanto agora – e o outro nada mais que o seu próprio espectro de há vinte anos atrás, quando, em 2000, com esta mesma orquestra, venceu o Concurso Internacional de Piano Frédéric Chopin. Curiosamente têm ambos muitíssimo a seu favor: Grosvenor numa extroversão algo incontinente, tão da nossa era; Yundi capaz de evocar o stile brillante então em voga (de modo mais convincente no segundo concerto), tecendo delicadas filigranas, contraponto a contraponto. Como é óbvio, o Chopin a sério será qualquer coisa de intermédio.

5 de abril de 2014

Beethoven: Emperor; Schumann: Fantasy (Mercury/Deutsche Grammophon, 2014)



Yundi chega a Portugal na reta final de uma digressão de cerca de vinte datas em menos de um mês e, como de costume, dá-se um tumulto feiral à sua passagem, melhor traduzido em atualizações de Twitter, Facebook ou Instagram: há selfies em praças e restaurantes, intermináveis sessões de autógrafos (na banca, após o concerto, vende-se o CD e t-shirts), presenças VIP em inaugurações de butiques e em passadeiras vermelhas rumo a galas de toda a espécie, poses de Estado ao lado de túmidas primeiras-damas e tímidos diplomatas chineses, uma photo-op com Katie Perry ou, por exemplo, a contínua inventariação de uma coleção de jaquetas que evoca os ‘novos românticos’ via o Michael Jackson da fase “Bad”/“Dangerous”. Como sempre, também, pouco se fala de música. E, no caso, da inteligência em combinar a “Fantasia em Dó maior, Op. 17”, de Schumann (escrita com Beethoven em mente), com este “Concerto para Piano nº 5 em Mi bemol maior, Op. 73”, vulgo ‘Imperador’. Infelizmente, a maturidade que, a espaços, o pianista revela junto a esta inexcedível, ainda que de acelerador a fundo, Filarmónica de Berlim comandada por Harding – no eloquente fraseado, em sensíveis gradações e num raro controlo emocional – é contrariada, a solo, por uma visão da peça de Schumann particularmente pueril e corrompida pela mais imoderada extroversão, tudo remetendo para a vexante incoerência, apanágio de espíritos menos equilibrados. [Hoje, às 18h, na sala Suggia da Casa da Música, no Porto, Yundi toca o Op. 17 de Schumann, a “Tarantella” de Liszt, tradicionais chineses e a ‘Appassionata’ de Beethoven]