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30 de janeiro de 2016

Kandia Kouyaté “Renascence” (Sterns, 2015)


É de renascimento que se fala. Mas a verdade é que, por entre apelos à fraternidade, este disco não podia gozar de um preâmbulo mais canónico, com Kandia Kouyaté a dirigir louvores aos seus antepassados. Dir-se-ia um impulso sincero. Afinal, e enquanto fiadora da coesão nacional, outra coisa não seria de esperar de uma jelimuso – para mais perante as sucessivas ameaças à integridade territorial do seu país. Por outro lado, ainda que resista a cruzar o umbral do século XIII – através da evocação da “Epopeia de Sundiata”, tese inceptiva quer do Império do Mali, quer da sua genealogia artística – não deixa de gerar um efeito conservador, mal disfarçando os tiques de soberania cultural da sua casta. 

É uma entre as muitas contradições de “Renascence”, ou melhor, entre as suas muitas dores, pois nada do que aqui está se estaciona propriamente à margem do fluxo interminável da vida e da morte. Nessa perspetiva, ao trazer à memória um longo período de convalescença, possui particular pungência em ‘Sadjougoulé’ (doença). É que, tendo sofrido um AVC em 2004, não se imaginava que Kandia pudesse voltar a cantar ou, pelo menos, que o viesse a fazer de forma tão retaliativa e avassaladora. Deve-o a Ibrahima Sylla, o seu produtor, conforme esclarece em depoimentos reproduzidos nos materiais de promoção da Sterns: “O disco só existe por causa dele. Em estúdio, tinha sempre uma palavra de alento. Pedia-me que cantasse o que me passasse pela cabeça e eu respondia-lhe que não conseguia, que me tinha esquecido de tudo. Mas ele insistia: não te preocupes, amanhã hás de te lembrar.” No fundo, é possível que fosse Sylla a suspeitar que não conduziria as operações até final: de facto, faleceu em 2013, após doença prolongada. É, então, perfeitamente apropriado que, de modo a garantir a sua conclusão, tenha convocado François Bréant, o orquestrador e multi-instrumentista a que no passado recorreu quando quis levar uma voz – do Salif Keita de “Soro” e do Sékouba Bambino de “Sinikan” à Bako Dagnon de “Titati” – a transcender a dimensão do folclore. Nos anos 90, porque se relatavam muitos desmaios nos concertos de Kandia Kouyaté, chamavam-lhe “A Perigosa”. Nunca o foi tanto quanto agora.

24 de setembro de 2011

“AfroLatin: Via Kinshasa” (Syllart/Discograph, 2011)

Parte importante da produção de Grand Kallé Kabasele, Docteur Nico, Tabu Ley Rochereau e Franco sofreu durante anos o mais indecoroso tratamento às mãos da Sonodisc: três décadas de duvidosas edições de alguma da mais crucial música popular da segunda metade do século XX em que se ignoravam datas, confundiam frequentemente títulos e intérpretes, repetiam capas ou sequenciavam temas na rotação errada. Quando, após a falência da editora, Ibrahima Sylla – o mais famoso produtor africano e proprietário da Syllart – negociou com Kallé e Tabu Ley os direitos para relançar as suas gravações, desperdiçou, ao repetir muitos dos procedimentos da Sonodisc, a oportunidade de lhes restaurar a dignidade. Mas ocasionalmente, como em “Pont sur le Congo” ou “Congo 70: Rumba Rock”, sintetiza-as de forma apelativa para neófitos, embora o material aqui antologiado traia um conceito – a influência da música cubana em Kinshasa – teoricamente melhor servido por “Roots of Rumba Rock” (Crammed) ou “Cubanismo from the Congo” (Honest Jon’s). Só que de teoria está, possivelmente, farto quem desconfia não terem fim os tesouros da música congolesa dos anos 60 e sonha em conseguir um dia deitar-lhes a mão. Nessa perspectiva, ao incluir seis temas de Kallé (com a African Jazz e a African Team) e oito de Nico (com a African Fiesta e a African Fiesta Sukisa) hoje ausentes de qualquer colecção que cumpra os mínimos e ao evitar repetições significativas com as recentes compilações da Sterns – um tema por artista – com os treze de Franco (com a OK Jazz) e nove de Tabu Ley (com a African Fiesta e a African Fiesta National), consegue esta “Afrolatin: Via Kinshasa” apontar para a terra prometida. Peca apenas por omissões (Wendo, Rock-a-Mambo, Vévé, Maquisards, Verckys, etc) e alguma aleatoriedade que se esquecem mal se carrega no play.

18 de julho de 2009

"Sénégal 70: Musical Effervescence"

O subtítulo fala de efervescência. Mas podia bem ter recuperado o termo – négritude – que melhor distingue o essencial da acção cultural senegalesa na década de 70. Porque o ideal de Léopold Senghor – eleito Presidente em 1960 – alastrou-se por todas as artes até, na música, encontrar plena concretização. Isto é, à exploração pelas bandas de Dakar da fertilidade rítmica afro-cubana, da virtude plástica do jazz ou da força expressiva da chanson, acrescentaram-se elementos tradicionais prontos a explodir nas pistas de dança. O que, numa versão mais flexível das authenticité zairense ou guineense, conduziu a uma renovação estética sem constrangimentos geográficos num período de exaltação independentista. Trata-se, por isso, de seguir as assimilações das pioneiras Star Band de Dakar, Star Number One (partindo da rumba rumo ao folclore wolof) ou Orchestra Baobab (entre o cha cha cha e o funk derivado de James Brown, que tocou em Dakar em 1975), e, sobretudo, valorizar a libertária acção de Xalam, Diarama de Saint-Louis ou Watto Siita, o mandingo beat de Guelawar ou o electrizante mbalax da Étoile de Dakar. A selecção – que inclui uma mão cheia de inéditos em CD – é do produtor Ibrahima Sylla, agora empenhado em recuperar memórias que ele próprio ajudou a enterrar.