Já se sabe que, no que a enforcados
diz respeito, os ‘Strange Fruits’ de que Billie Holiday falava, oscilando ao
vento e bafejados pelo doce e fresco aroma das magnólias e pelo súbito fedor da
carne em chamas, possuíam precedente histórico na medieval ‘La Ballade des
Pendus’, em que as vistas, barbas e sobrancelhas dos mortos eram extirpadas
pelas bicadas de pegas e corvos, ou no ‘Le Verger du Roi Louis’, de Banville,
posteriormente adaptado por Brassens, do pomar decorado com cachos dos mais
extraordinários frutos. Também agora, no mais esclarecido dos seus discos, vem
Samba Touré cantar acerca de um solo queimado – “o gado é só pele e osso/ e
muito em breve também nós estaremos assim”, ouve-se na titular ‘Gandadiko’ – e
de umas “árvores secas como esqueletos/ nuas, fracas”, em ‘Touri Idjé Bibi’, que
dão uma “fruta negra, vazia, sem sabor/ fruta plástica do mundo moderno”. E do
mesmo modo se refere o trovador maliano aos cadáveres que pelo ano inteiro foi
encontrando “cobrindo as estradas/ preenchendo as entranhas das ovelhas/ à
porta das escolas e das mesquitas/ bem no centro das nossas casas”. Aliás,
“Albala”, o seu álbum anterior, denunciava já a doutrinária versão da
jurisprudência islâmica que se alastrava pelo norte do país impondo um
quotidiano de angústia e aflição. Agora, dir-se-ia que são tão criminosas as
condições climáticas quanto as cimitarras que os colos cortaram. Talvez por
isso, em ‘Woyé Katé’, termine a reclamar por reconstrução e restituição,
enquanto, na língua berbere, Ahmed Ag Kaedi, da banda tuaregue Amanar, sugere
que terra e cultura são sinónimos.
Textos publicados no semanário português Expresso/ Published on the Portuguese weekly Expresso [2009-2021]
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4 de abril de 2015
18 de fevereiro de 2012
Samba Touré “Crocodile Blues” (Riverboat, 2011)
Dia 8 de Fevereiro surgiu no mural da banda no Facebook o seguinte depoimento dos Tinariwen: “De forma a evitar os combates entre rebeldes e o exército maliano, muitos tiveram de abandonar as suas aldeias desde o início da insurreição. Estamos escondidos no mato há alguns dias com muitas mulheres, crianças e idosos. Há gente com fome e sofremos imenso com o frio. As condições são duras mas estamo-nos a aguentar”. A missiva não surpreende embora certamente desperte perplexidade naqueles que há menos de um mês acompanharam na mesma região a edição deste ano do Festival do Deserto, marcada por uma curta aparição de Bono – histriónico em palco, condescendente na imprensa – ao lado, precisamente, de membros da banda tuaregue. Entretanto, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados relata o exílio forçado de cerca de 20.000 pessoas (embora a Cruz Vermelha Internacional fale em 30.000) para o Níger, Mauritânia ou Burkina Faso e alerta para uma iminente crise humanitária. Samba Touré, que também esteve no festival, acompanha há anos a indeterminação desse povo de que é vizinho. Em Timbuktu, ao lado de Ali Farka Touré, cantou em songhai, peul, bambara e tamashek (a língua berbere) e também este seu último álbum se revela uma imperturbável mensagem de reconciliação. Aliás, é perfeitamente assintomático neste contexto de guerrilha, pois, face à escusada problematização étnica do conflito, não se encontra semelhante clareza de ideias e presença de espírito no discurso político das partes envolvidas. Por isso, este seu sereno manifesto deve ser entendido como a materialização de uma ideia para o Mali, e não, conforme o oportunista título e a previsível construção da imprensa internacional, mais um meditativo acto de espeleologia em torno do blues. Porque aqui louva-se a esperança. E pensa-se no amanhã.
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