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10 de agosto de 2019

Agenda: Jazz em Agosto

Deu pela primeira vez nas vistas em “Current Trends in Racism in Modern America”, de Butch Morris, esse retrato de um nicho ecológico nova-iorquino de meados de 80 que o passar dos anos só tornou ainda mais vívido. Desde então, dir-se-ia que Zeena Parkins se tem dedicado à crónica das variáveis ambientais que no domínio da música experimental testam o poder de adaptação da sua espécie a um conjunto muito específico de fatores limitantes. Para tal contribuiu uma invulgar capacidade em transcender as restrições apontadas à harpa. De facto, durante décadas, ao lado de Fred Frith, Elliott Sharp, Marc Ribot ou Nels Cline, por exemplo, a sua aproximação a guitarristas demarcou um campo de ação que possui tanto de positivo quanto de negativo – com Parkins a verificar em primeira mão tudo aquilo que simultaneamente confunde e distingue a harpa da guitarra. No entanto, convirá não ignorar esse prodigioso e precoce ensaio que dá pelo nome de “Something Out There” (1987), em que se dá um embate entre o seu instrumento e as múltiplas formas de conceber o papel da percussão nessa prática tão avessa à convenção. É o que reflete a parceria com o baterista Brian Chase (Yeah Yeah Yeahs), pautada pelo mistério e pelo mester, em que cada executante leva o ouvinte a perder a pista do caminho que aos dois conduz (tocam hoje, no Auditório 2, às 18h30). Quem também trocou as voltas a quem o escuta foi o trompetista Ambrose Akinmusire, que, em “Origami Harvest”, com Victor Vasquez (Das Racist), devolve ao jazz o poder da palavra bem como a aptidão de pregar sobre a origem e o fim das coisas, o que nos une e desune, ata e desata, faz e desfaz (acompanhado pelo rapper Kokayi, pelo baterista Justin Brown, pelo pianista Sam Harris e por um quarteto de cordas, subirá ao palco do Anfiteatro ao Ar Livre às 21h30). O festival encerra amanhã com a ligação à terra do trio ERIS 136199 (18h30) e com a ligação ao ar de Mary Halvorson e as etéreas canções de “Code Girl” (21h30).

3 de agosto de 2019

Agenda: Jazz em Agosto

Pinta-se o cartaz do Jazz em Agosto com as cores do PREC, conquanto se troque o R da revolução pelo da resistência – só falta no elenco a banda de “Palavras ao Vento” e na banca da livraria o “Resistir é Preciso”, de Alípio de Freitas. “[Resistir] É um libelo contra a opressão como forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os processos de aviltamento do homem, contra a corrupção ideológica erigida em serviço à comunidade”, dizia o autor. Agora, fortificando com trincheiras anfiteatros e auditórios, e porque alvitra o festival que “o jazz sempre teve na sua raiz a semente da contestação e da mudança”, põem-se aí bandos de desalinhados a conjugar o verbo à sua maneira. Sosseguem os espíritos, Pacheco Pereira não terá de ir de propósito à Gulbenkian recolher materiais para a Ephemera – aqui, como é óbvio, e independentemente de filiações partidárias, privilegia-se sobretudo uma música que intervém musicalmente (que não só politicamente) e em cujo sistema sanguíneo circulam células de sedição desde a nascença. Atente-se ao que há uns anos disse Daniel Rosenboom sobre esses seus Burning Ghosts [na foto] que tocam hoje às 21h30 no Anfiteatro ao Ar Livre: “Face aos males que nos atingem, criar arte – e música expressionista em particular – pode parecer um modo muito abstrato de reagir. E longe de mim sugerir que a nossa música representa uma ação efetiva contra a violência policial, a discriminação ou a desigualdade – mas sinceramente acredito que pode levar à reflexão. E se o nosso público identificar esses gatilhos, então, ficará a um passo de lidar com questões muito complicadas.” Claro está, desde que consiga sobreviver à câmara de tortura sonora a que Rosenboom, Jake Vossler, Richard Giddens e Aaron McLendon o submete e em que torna palpáveis os seus piores pesadelos – talvez o ponto seja esse. Antes (18h30), no Auditório 2, com mais subtileza e menos premeditação, tocam Ingrid Laubrock e Tom Rainey – aliás, a respeito de uma data do duo, e após lhe ter sido perguntado o que esperar de um concerto seu, Laubrock respondeu: “Idealmente nada em particular, pois ao improvisarmos tentamos pôr em relevo o elemento da surpresa.” Semelhante desafetação deverá apoderar-se amanhã de Abdul Moimême (Sala Polivalente, 17h) e do quarteto de Ricardo Toscano, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini (Auditório 2, 18h30), gente que trata da emancipação mais ao nível do indivíduo que do coletivo, que é precisamente, e por sua vez, o objeto da flautista e compositora Nicole Mitchell: à noite (21h30), à frente de um octeto, ao colocar em cena as contrastantes forças de “Mandorla Awakening II”, dramatizará um alerta muito simples, que é o de que a atual tendência para a homogeneização nas sociedades ocidentais mais não é do que uma forma de colonizar a cultura de todo o mundo e de conceder automaticamente um estatuto marginal a toda e qualquer minoria que ouse articular a sua própria diferença. Pois, de outra coisa não trata o trio Abacaxi (de Julien Desprez, Jean-François Riffaud e Max Andrzejewski, que se apresenta quinta, às 18h30, no Auditório 2), o sexteto Freaks (liderado por Théo Ceccaldi, toca também dia 8, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre), o duo de percussão de Joey Baron e Robyn Schulkowsky (sexta, 18h30, Auditório 2) e o estelar sexteto Triple Double, com Tomas Fujiwara, Gerald Cleaver, Mary Halvorson, Brandon Seabrook, Ralph Alessi e Taylor Ho Bynum (sexta, 21h30, Anfiteatro ao Ar Livre). O festival termina no dia 11.

19 de janeiro de 2019

Agenda: 2019

Oh là là, que temos um arranque de ano fantastique, com as grandes editoras – começando pela Warner, já com um “The Complete Works” no prelo – a rentabilizar ativos em torno do nem sempre acarinhado Hector Berlioz, de que se assinala o sesquicentenário da morte. Em termos de efemérides, aliás, 2019 servirá de pretexto para revisitar a obra de outro par de subvalorizadas figuras: Clara Schumann, que nasceu há 200 anos, e Barbara Strozzi, que veio ao mundo há 400. Por cá, em matéria de concertos, ter-se-á de esperar até setembro para que conste na agenda o nome quer de uma quer de outra – é no ciclo Música no Feminino, da Casa da Música, no Porto, por onde, por sinal, e até lá, há inúmeros motivos de interesse, destacando-se um jogo de pingue-pongue entre as costas do Atlântico que inclui peças de Elliott Carter e Claude Vivier (23.02) ou uma nova obra de Michael Gordon (02.03), por exemplo, mas também uma noite húngara gizada por Peter Eötvös (23.03), um ciclo dedicado a Ligeti (finais de abril) e a visita anual de Grigory Sokolov (07.05), que, dois dias antes, em Lisboa, estará na Gulbenkian, por onde prosseguirá esta estelar temporada em que se notabilizam igualmente Gautier Capuçon (31.01 e 01.02), Piotr Anderszewski (14 e 15.02) ou Martha Argerich e Stephen Kovacevich (27.03), em duetos de piano. Curiosamente, na altura, pelas mãos de Vijay Iyer e Craig Taborn [na foto], chegará ao mercado um disco no curioso formato (“The Transitory Poems”, ECM), logo seguido de novidades de Brad Mehldau e Joshua Redman (na Nonesuch). Mas, como se sabe, o jazz demora muito a sair da toca e, ao vivo, há pouco a salientar para além de Enrico Rava (02.02, em Espinho) ou Chris Potter (03.04, Porto). Ainda assim, a ver se alguém dá pelos centenários de Art Blakey, Herbie Nichols e Lennie Tristano.

8 de setembro de 2018

Agenda: rentrée 2018


Há coisa de 60 anos que o jazz se agarra com unhas e dentes ao verão, pelo menos desde a edição de 1958 do festival de Newport, esculpida a cinzel no documentário “Jazz on a Summer’s Day”. Claro que, hoje, para muitos, o estilo nada terá que ver com o estio, mas é sintomático que se venha a Lisboa testar formas de sobreviver à época baixa. É para a semana, na Conferência Europeia de Jazz, que traz concertos: Orquestra Jazz de Matosinhos, Espen Eriksen Trio ou Bugge Wesseltoft no CCB, seguidos de sessões fora de horas na Ler Devagar ou Hot Clube. É um modo de correr atrás do prejuízo: não obstante a contradição burocrática, os agentes ao serviço do jazz interessam-se mais por colocar perguntas do que por fornecer respostas. Alguns, até, de maneira desarmante, como Darcy James Argue, cabeça-de-cartaz no Angra Jazz (3 a 6 de outubro, na Terceira), em que se destaca ainda Gonzalo Rubalcaba e Andy Sheppard, o mesmo que, três semanas depois, subirá ao palco do Seixal Jazz (18 a 27) no trio de Carla Bley. Nas lojas, expectativas em redor do título que reúne Andrew Cyrille, Wadada Leo Smith e Bill Frisell e que a ECM anuncia para 2 de novembro. Já na secção do lado aguarda-se as últimas sonatas de Beethoven por Alexandre Tharaud, a transcrição para violeta das suítes para violoncelo (de Bach) por Kim Kashkashian, a série dos 120 anos da Deutsche Grammophon e “Alla Portugesa”, o disco de Andreas Staier com a Orquestra Barroca Casa da Música que será apresentado em Lisboa, no Palácio Nacional de Queluz, dia 3 de novembro, e no Porto, na Casa da Música propriamente dita, dias 4 e 6 – aí, outras datas a ter em conta são as de Pedro Burmester (18.09), Artur Pizarro (29.09) e Alfred Brendel (21.10). Na capital, ao vivo, coloque-se a ênfase na programação da Gulbenkian, em que, para já, sobressaem Coro Gulbenkian (21.09, no Panteão), Jordi Savall (24.09), Lorenzo Viotti (novo Maestro Titular) a dirigir Mahler (4 e 6.10), Kirill Gerstein (16.10) ou Arcadi Volodos (4.11).

Obrigatório
Peter Evans e Orquestra Jazz de Matosinhos, Casa da Música (Porto, 25.11, 18h) e Culturgest (Lisboa, 28.11, 21h): Evans [na foto] tem um interesse necroscópico pela trompete mas nunca examinou uma orquestra. Esperam-se concertos com o poder de levantar os mortos.

4 de agosto de 2018

Agenda: Jazz em Agosto II


Reta final da 35ª edição do Jazz em Agosto, número que, por sinal, agradará àquele a que se consagra a sua programação, John Zorn, alguém que jamais recuou quando confrontado com o sincretismo ocultista. No tarô egípcio, por exemplo (e a capa de um dos discos de Zorn, “From Silence to Sorcery”, é ilustrada com cartas do célebre baralho de Salvador Dali), o 35º arcano promete alarmes, consternações, acontecimentos imprevistos, enquanto uma leitura mais corrente – trata-se, afinal, do 2 de paus – aponta para todo o tipo de descobertas a quem abandonar a sua zona de conforto e se abrir a novas experiências. Já o 35º anjo cabalístico (na discografia de Zorn, pense-se em “Zohar” ou na série “Book of Angels”), o da reconciliação, costuma ser invocado para aludir à importância da lealdade em matéria de heranças. Apropriadamente, numa das suas mais reveladoras entrevistas – à NPR, a rádio pública norte-americana, a 3 de setembro de 2013, no dia a seguir ao do seu sexagésimo aniversário, portanto –, Zorn disse assim: “Claro que uma pessoa não se pode sentar e compor 300 peças num período de três meses e achar que o está a fazer sem algum tipo de ajuda. (…) Sinto que há mensagens [que recebemos]. Que há anjos. Que há uma herança e uma energia. E que a podemos canalizar. (…) E eu não conseguiria fazer nada disso sem estes músicos. Porque, para mim, a música é sobre pessoas. Não é sobre sons. É sobre pessoas.” Mesmo que – ou preferencialmente que – isso signifique colocá-las em situações de algum desconforto. Nessa perspetiva, há uns anos, um dos músicos do seu círculo confidenciou-me o seguinte: “Passar da minha música para a do Zorn é como ir deitar-me, adormecer enquanto humano e acordar como inseto.” Talvez por isso tantas das suas criações dêem mostras de vibrar com frequências do inconsciente, ainda que pareçam derivar de processos de síntese relativamente simples, quase sempre envolvendo o medo. Desafios recorrentes na sua obra, a que, hoje, às 18h30, no Auditório 2 da Gulbenkian, tratarão de dar resposta os Trigger (Will Greene, Simon Hanes e Aaron Edgcomb), espécie de power trio da atonalidade. Já pelas 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre, haverá sessão dupla: com Craig Taborn, primeiro, e o trio de Brian Marsella (com Trevor Dunn e Kenny Wollesen), depois, passando em revista algumas das “Bagatelles”, temas que trazem à memória que o stride piano e o dodecafonismo foram contemporâneos. Amanhã, nos mesmos horários, Julian Lage e Gyan Riley [na foto, com Zorn], em guitarra acústica, tocarão “Midsummer Moons”, bucolicamente passível de se associar aos ritos do solstício, e a fechar o festival subirão ao palco os Secret Chiefs 3 para interpretar peças de extração levantina, de Zorn, cujo frutado aroma, nos narizes certos, se confunde com o cheiro da carne humana em decomposição.