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29 de junho de 2019

Agenda: Jazz im Goethe-Garten 2019


O Jazz im Goethe-Garten deste ano terminará com uma reviravolta inesperada quando o quarteto Philm, de Philipp Gropper, perguntar: ‘Thinking of the Future (Are You Privileged)?’ Ao final da tarde, numa das colinas douradas de Lisboa, perante uma plateia preocupada com as alternativas veganas à bratwurst e com a escassez de brezel na barraca de comes e bebes, e profundamente dividida entre a Weihenstephaner e a Erdinger, a resposta será afirmativa. Seja como for, a cabriolice ideológica andará a par da estética: protagonistas de “Consequences”, acabado de lançar pela WhyPlayJazz, os Philm dão aos estilos musicais os mesmos nós que os seus compatriotas padeiros dão ao pão.

Não estão sós. Nove dias antes, a 3 de julho, e sempre às 19h, quando o festival arrancar ao som de Cat in a Bag será no padroeiro desta estirpe de contorcionistas, John Zorn, que se pensará. Verdade seja dita, como Zorn, no passado, também o quarteto português recorreu a quadros de Francis Bacon (o Houdini da pintura a óleo) de forma a ilustrar convenientemente as capas do seu tríptico inicial de álbuns. Só lhes falta citar Bataille, como Zorn, em “Leng Tch’e”, dos Naked City, um bom ponto de comparação para o que fazem: “O que me enchia de angústia mas, ao mesmo tempo, me libertava, eram estes perfeitos opostos que confrontavam horror extremo e êxtase divino”, lia-se.

Semelhantes referências terá o trio de Dave Gisler [na foto], cujo “Rabbits on the Run” traz não só à memória uma frase de Bataille – “o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda” – como, também, “Strange Meeting”, um disco de correligionários de Zorn editado pela Antilles em 1987 (e de autoria tripartida entre Bill Frisell, Melvin Gibbs e Ronald Shannon Jackson). É normal: o jazz europeu está sempre a tentar devorar a cauda do jazz americano. Dia 5, por exemplo, os Synesthetic 4 recordarão o que Miles Davis e Easy Mo Bee fizeram em ‘High Speed Chase’. E no dia 11 é provável que Albert Cirera e João Lencastre toquem uma outra ‘High Speed Chase’ – gravada em quinteto no novo “Parallel Realities” (que foi como Jack DeJohnette chamou a um disco seu de 1990). Explica o baterista, a propósito, que é como ter “diferentes mundos musicais a darem-se em simultâneo”, “faces complementares de uma mesma – múltipla, mas única – realidade”, acrescentaria o Nietzsche de “Eterno Retorno”.

É um compromisso comum a esta gente (seja ela portuguesa, suíça, austríaca, espanhola ou alemã) e não se vislumbra desígnio mais europeísta, até pelas mais variadas ausências que essa predileção obriga a sincronizar – como a de praticantes cujo vínculo com o jazz não pareça ter sido contraído tão indevidamente, ainda que de boa-fé. Talvez por isso, pela visão quimérica que o jazz promove no imaginário europeu, suba dia 10 ao palco o italiano Ghost Trio invocando espectros de Ayler e Beckett. Contínuos desvios ao cânone que lembram uma frase ouvida em “Europa”, de Lars von Trier: “Queres acordar… Queres libertar-te da imagem da Europa. Mas não é possível.” Não custa tentar.

30 de junho de 2018

Agenda: Jazz im Goethe-Garten


Quando quis ver o mundo, o jazz andou de porta em porta, à procura de casa emprestada. Foi assim em 1946, na primeira Australian Jazz Convention, quando meia-dúzia de músicos acompanhou uma excursão rio Yarra acima e se apresentou de armas e bagagens em Eureka Hall, num subúrbio de Ballarat, Vitória. Já com devida pompa e circunstância se receberam Louis Armstrong, Django Reinhardt e Stéphane Grappelli na Ópera de Nice, em 1948, embora a fama tenha ficado toda para as jam sessions no Negresco. Por sua vez, em julho de 1954, foi o casino de Newport, no estado de Rhode Island, a acolher Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Lee Konitz, Eddie Condon, Oscar Peterson, Gerry Mulligan ou Dizzie Gillespie. Cada qual à sua maneira, três eventos que reclamam o título de primeiro Festival de Jazz da História. Claro que, com o passar dos anos, os infinitos desdobramentos e inevitáveis desmultiplicações do seu conceito-chave engendraram programas fadados a soçobrar sob o seu próprio peso: salvo raríssimas exceções, exatamente aquele tipo de atuações incapaz de gerar espanto, desprovido de incerteza e risco e espírito de aventura e que se diria seguir no sentido contrário à deontologia da coisa. Mas desesperar, jamais, como é costume dizer-se. Porque o jazz prospera sempre que alguém atira a prudência pela janela, eis que chega mais uma edição do Jazz im Goethe-Garten ao jardim do Goethe-Institut, em Lisboa: são seis concertos, sempre às 19h, e que arrancam dia 3 com o trio de Gonçalo Almeida, Rodrigo Amado e Marco Franco (na foto, por Vera Marmelo), autor, no ano passado, do extraordinário “The Attic”; dia 4, outro trio, o neologista Chaosophy, devoto do humor mais contrariador; dia 5, o quarteto de Gabriele Mitelli, numa espécie de fluxo de consciência mas também de corrente elétrica; dia 6, o heterónimo Heinz Herbert Trio (dos irmãos Ramon e Domenic Landolt e de Mario Hänni), algo como jazz em transtorno dissociativo; dia 12, o duo de Katharina Ernst e Martin Siewert, que não se deverá ficar pela sua habitual delicadeza de casa de bonecas; dia 13, a encerrar, a casa vem abaixo com os demolidores Gorilla Mask.

1 de julho de 2017

Agenda: Jazz no Parque & Jazz im Goethe-Garten



Liquid Trio (Agustí Fernández, Albert Cirera, Ramon Prats)
Spinifex Maximus. Dir-se-iam saídos de uma arena romana ou de um filme dos Transformers. E a verdade é que se dariam bem em qualquer um dos instáveis cenários. O que aponta na direção deste batismo, presumivelmente inspirado por um género botânico endémico ao ecossistema das dunas. Pertence-lhes a abertura da 26ª edição do Jazz no Parque, em Serralves, no Porto, amanhã, pelas 18h, com a variante de se ver somado ao quinteto-base de Tobias Klein (saxofone alto), Bart Maris (trompete), Jasper Stadhousers (guitarra elétrica), Gonçalo Almeida (baixo elétrico) e Philipp Moser (bateria), já de si ampliado por John Dikeman (saxofone tenor), outros cinco executantes arrolados domesticamente: Francisco Andrade (saxofone tenor), João Martins (saxofone barítono), Luís Vicente (trompete), Eduardo Lála (trombone) e Gil Gonçalves (tuba). É desafiante imaginar esta espécie de formação pretoriana minimamente disciplinada, tal o grau de insurreição potencial que se lhe deteta, do mesmo modo que não deixará de espantar cada momento em que mude de forma em pleno andamento para superar obstáculos. É a esse tipo de inteligência que apela o festival deste ano, composto de estreias. De amanhã a oito dias, à mesma hora, será a vez de Rodrigo Amado se ver rodeado por Thomas Johansson (trompete), Jon Rune Strom (contrabaixo) e Gard Nilssen (bateria), noruegueses com a recruta feita em bandas como Universal Indians, Friends & Neighbors, All Included ou Bushman’s Revenge. Não querendo ser literal, qualquer um destes nomes se parece adequar às expetativas que os cercam. Curiosamente caberá a uma lenda da contrariedade – de expetativas também – a honra de encerramento, quando, dia 16, Joelle Léandre liderar acólitas convocadas para a ocasião: Susana Santos Silva (trompete, fliscorne), Maria Radich (voz, dança), Maria do Mar (violino), Joana Guerra (violoncelo, voz) e Angélica V. Salvi (harpa, eletrónica). É apropriado que este X 5 não pareça caber em nenhum molde – afinal, a contrabaixista passou a vida a quebrá-los. Olhando para o elenco do Jazz im Goethe-Garten deste ano, de 5 a 14 de julho, no Goethe-Institut, em Lisboa, é uma ideia que dá mostras de ocupar muitos espíritos. Os Earnear, por exemplo (João Camões na violeta, Rodrigo Pinheiro ao piano e Miguel Mira em violoncelo), embora sejam um trio de improvisadores aguçaram instintos na prática da música erudita. Tocam dia 5, às 19h, pela primeira vez ao ar livre, o que exercerá alguma ação sobre si. Outro trio mutante, o de Agustí Fernández (piano), Albert Cirera (saxofones) e Ramon Prats (bateria), na foto, reage tão intensamente ao momento que seria possível qualificá-lo como ambiental – toca dia 6. Quase nos antípodas, 24h depois, e ligados à eletricidade, surgem os Namby Pamby Boy – se puxarem muito pelos decibéis poder-se-á dar um apagão no Campo dos Mártires da Pátria. O festival prossegue dia 10 com um invulgar dueto de clarinete baixo (Oguz Büyükberber e Tobias Klein), dia 12 com Roots Magic, dia 13 com Weird Bear e termina dia 14 com Rotozaza, gente que viaja até ao fim da música e regressa sempre para contar como foi.

2 de julho de 2016

Agenda: Jazz no Parque & Jazz im Goethe-Garten (2016)


Todos o reclamam em teoria, mas quase nenhuns o desejam na prática. Ou talvez ao contrário. Porque a verdade é que, em inúmeros festivais de verão, um pouco por todo o país e, muitas vezes, sem que se justifique o usufruto desse valor nominal, se arregimentam as mais variadas expressões sob a égide do jazz. Trata-se de certames de que estão ausentes, por exemplo, a imperiosa obrigação de obedecer à narrativa da utopia, a curiosidade, enquanto espécie de doutrina básica do ser humano, ou, ainda, a espontaneidade, mas igualmente a subordinação ao drama elementar da existência, a inconstância formal e, até, uma certa impiedade. Isto para não falar, já, de qualquer vestígio técnico dessa música que, por mais que prospere em zonas de fronteira entre placas tectónicas, não dispensa em absoluto de alicerces. Entre os que contrariam essa tendência, arrancam dois esta semana: o “Jazz no Parque”, em Serralves, no Porto, e o “Jazz im Goethe-Garten”, no Goethe-Institut, em Lisboa. Aliás, entremeadas no programa de um e de outro lêem-se frases que dizem que o primeiro sustenta a “inclusão de nomes que apostam na inovação e na liberdade formal da música que tocam” e que o segundo se consagra a uma “diversidade de expressões da linguagem jazz na Europa que não cessa de se transformar”. Mas semelhantes constrangimentos geográficos serão apenas indicativos. Atente-se ao caso do concerto de amanhã, em Serralves (as atuações no festival são sempre ao domingo e começam sempre às 18h00), em que o trio de Ivo Perelman (na foto), Marcio Mattos e António “Panda” Gianfratti, composto por três brasileiros de vistas largas, resiste à imposição de um biótopo específico. O mesmo defende o pianista espanhol Nani García (dia 10), no projeto Cinematojazzia, recorrendo à dimensão camerística do trio de jazz e do quarteto de cordas. Já dia 17 há dose dupla: a abrir, o septimino Slow is Possible, inspirado pelo poema de Bukowski em que se lia “E os melhores no ódio são aqueles que pregam o amor// E os melhores na guerra são aqueles que pregam a paz”, a que se seguirá o encontro do RED trio com o vulcânico guitarrista Raoul Björkenheim. Por seu turno, no cartaz do JIGG (5 a 15 de julho, sempre às 19h00), destacam-se Sputnik Trio (dia 6), Journal Intime (12) e a parceria de Georg Ruby com Michel Pilz (14).

27 de junho de 2015

Agenda: Jazz a norte, sul e ilhas



Peter Brötzmann & Steve Noble, ZDB, por Vera Marmelo

Mais ambicioso no projeto do que no programa, dar-se-á hoje por encerrado, na Maia, o Jazz no Parque Central. Aliás, quando ao palco subirem BounceLab, do guitarrista Mané Fernandes, pelas 18h, e The Jazz Refugees, do cantor Kiko Pereira, pelas 21h30, poderá um cético ter por certo que tão hipocorístico cartaz mais não fará que disputar tão audaz designação. Mas a verdade é que se trata de gente com perfeita consciência da capacidade do jazz em comunicar com o mundo a partir da periferia, pelo que o perfume do cosmopolitismo assomará às suburbanas sacadas que cercam o relvado.Quem deu com o jazz nas franjas da sua sensibilidade foi o malogrado Bernardo Sassetti, a que se dedicará o concerto de amanhã às 21h30, na Casa da Música, no Porto, pelas mãos do vicarial João Paulo Esteves da Silva e da vigorosa Orquestra Jazz de Matosinhos.Ainda a norte, na próxima sexta, às 21h30, refira-se a presença de Peter Brötzmann e Steve Noble no Teatro Municipal da Guarda. Já de hoje a oito, pelas 22h30, o duo tocará em Braga, no GNRation, na ponta final de uma digressão de três datas nacionais que terá início em Lisboa, na quinta, dia 2, com uma apresentação na ZDB à hora do costume. Só nervo, aquando da última passagem do saxofonista e do baterista por Portugal, em outubro, ouviu-se ‘Lonely Woman’, de Ornette Coleman, e vinha à ideia o corpo de uma lagartixa cortado ao meio, com a parte do rabo a mexer mesmo após ter sido separada da parte da cabeça. 

Fortuita, é uma imagem que não deverá estar ausente da reunião marcada para o Grande Auditório da Culturgest, hoje, às 21h30, entre o ‘novo trio’ de Mário Laginha (com Bernardo Moreira ao contrabaixo e Miguel Amaral na guitarra portuguesa) e o norte-americano Dave Liebman, na capital para o encontro anual da Associação Internacional de Escolas de Jazz (consulte-se a agenda do Hot Clube).Em matéria de construção de vernáculo a partir da desintegração da linguagem formal, outro destaque, em Lisboa, recai sobre o arranque do Jazz im Goethe-Garten (prossegue até dia 16), com a atuação de Albatre (Gonçalo Almeida, Hugo Costa e Philipp Ernsting), vindo da Holanda e a guiar estilos ao matadouro, na quarta, dia 1, às 19h, e do trio Jean Louis (Joachim Florent, Francesco Pastacaldi e Aymeric Avice), mais charmoso, dia 2, à mesma hora.

Nas ilhas: atenção ao Funchal Jazz, que ao longo da semana animará os jacarandás da Avenida Arriaga com combos do Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira e que, no Parque de Santa Catarina, quinta, sexta e sábado, acolhe o quinteto de André Fernandes (dia 2, às 21h30), os quartetos de Joe Lovano (também na quinta, às 23h) e de Miguel Zenón (dia 3, pelas 21h30), o quinteto de Kurt Elling em versão ‘festival da canção’ (sexta, às 23h), o trio de Christian McBride (sábado, 4, às 21h30) e o E-Collective, de Terence Blanchard (sábado, às 23h); em Ponta Delgada, sexta, às 21h30, José James cantará Billie Holiday no Teatro Micaelense transformando o amador na coisa amada.