Mostrar mensagens com a etiqueta Malawi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Malawi. Mostrar todas as mensagens

2 de outubro de 2015

Zomba Prison Project “I Have No Everything Here” (Six Degrees, 2015)



Pega-se no disco e lê-se: “Os nossos corpos podem permanecer na prisão, mas queremos estar em espírito com o mundo livre.” O grupo, constituído por reclusos do Centro de Correção de Powhatan, no estado da Virgínia, chamava-se Edge of Daybreak, e o seu único LP, de 79, vai ser reeditado pela Numero Group daqui a duas semanas. Já acerca do que pensa quem continua encarcerado na Prisão de Segurança Máxima de Zomba, no Malawi, ali onde se juntam as províncias moçambicanas de Niassa e Zambézia, nada se conhece. E foi por lá que Ian Brennan, a um continente de distância dos Lomax, e sob o pretexto de ir administrar cursos de Resolução de Conflitos e de Prevenção à Violência, registou este dilacerante CD. Encontrou detidos e detidas de todas as idades, uns quase tudo ignorando da vida, a gatinhar desde que nasceram na cadeia, outros com medo de algum dia se verem em liberdade, demasiado velhos para cuidarem de si. Gravou gente que mal erguia a cabeça mas que abria muito os olhos quando começava a cantar. Tentava saber porque ali estavam, mas ficava sem o que lhes responder quando revelavam acusações como homossexualidade e feitiçaria. Deu com uma banda masculina e com um coral feminino, cada qual na sua metade da prisão (são cerca de 2000 pessoas num espaço para 340), e poemas que se diriam a versão contemporânea de “Canções de Inocência e de Experiência”, de William Blake. À guitarra ou a cappella, trazem à memória Daniel Kachamba ou o kwela sul-africano. Em 20 temas, não há um que não dê mostras de estar corrompido pelas circunstâncias. Do mesmo modo, nenhum é menos que crucial.

4 de agosto de 2012

Malawi Mouse Boys “He Is #1” (Irl, 2012)


Trata-se de ouvir para crer. Nenhum outro impulso justifica a investida de Ian Brennan pelo Malawi. Mas uma imprensa habituada a tratar factoides em vez de factos e a valorizar o episódico no lugar do histórico seduz-se por declarações que só merecem o benefício da dúvida: relata o produtor dos ruandeses Good Ones e dos tuaregues Tinariwen que partiu porque “quase nada no ocidente se conhecia dos malawianos”; que, comparando com a do Mali e Etiópia, “a sua actividade era invisível”; e que, como um “especialista em world music” lhe tinha categoricamente garantido que não encontraria aí produção de qualidade, “encarou a missão como um desafio pessoal”. Que Brennan e o tal experto não possuam as reedições da Sharp Wood de gravações de campo recolhidas no Malawi entre 52 e 58 por Hugh Tracey é uma coisa; que ignorem o trabalho de Daniel Kachamba, o da Chimvu River Jazz Band ou as antologias da Pamtondo já é mais grave; mas é improvável que nada saibam de dois documentários sobre a cena musical no país (“I Am Malawi”, de Geert Veuskens, e “Deep Roots Malawi”, de Kenny Gilmore, colocados por ambos no YouTube) que registam inspiradas prestações de Qabaniso Malewezi, Peter Mawanga, Gasper Nali ou Charles Mkanthamba. Mas, para sorte nossa, talvez por isso mesmo tenham sido precisos a Brennan “3000 km ao longo de duas semanas para vislumbrar um instrumento”. Encontrada à beira da estrada, esta trupe de vendedores de espetadas de rato-do-campo (daí o nome), com guitarras feitas de ferro-velho em riste, cantou-lhe em harmonia hinos devocionais (com possível origem presbiteriana mas entoados com étnico empenho responsorial chewa) que se ouvem como uma variante de baixa fidelidade daquele primeiro gospel patenteado por Five Blind Boys of Mississippi, Swan Silvertones ou Dixie Hummingbirds. E esta parte não é exagero. 

"I Am Malawi" (Part 1)


"I Am Malawi" (Part 2)


"Deep Roots Malawi"