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17 de agosto de 2013

Goeyvaerts: Pour Que les Fruits Mûrissent Cet Eté; Ach Golgatha!; Op Acht Paarden Wedden (Cacophonic/Finders Keepers, 2013)




                                                               Florilegium Musicum de Paris; Karel Goeyvaerts


Entre um CD dedicado ao sempre eruptivo Michel Magne e outro ao perene desalinhado Harry Partch na fornada inicial desta subsidiária da Finders Keepers, corre o risco de passar despercebida a reedição de uma menosprezada obra-prima de meados dos anos 70. Composta quando Karel Goeyvaerts (1923-1993) trabalhava no Instituto para Psicoacústica e Música Eletrónica (IPEM) da Universidade de Gante, “Pour Que Les Fruits Mûrissent Cet Été” representa um primeiro passo num derradeiro estirão – de que as “Litanias” e a ópera “Aquarius” são o ápice – rumo a uma produção de síntese, não menos austera que em precedentes e pioneiros ensaios seriais mas já assombrada pelo impulso de impor ao caos alguma ordem reconhecida.

Dizia o belga: “A nossa capacidade em definir uma posição de independência em relação ao caos é o que nos garante um futuro livre, revolucionando linguagens e possibilitando uma nova hierarquia em que cada um estará no lugar certo de acordo com as suas capacidades, valor e importância enquanto indivíduo”. Carregada de simbolismo astrológico-apocalíptico, a afirmação reflete-se aqui através de uma organização episódica e repetitiva, em que durante cerca de meia hora a evolução procede de sensações subjetivas ao nível da altura, intensidade e timbre dos materiais. Ou seja, é o ouvinte que vai atribuindo à peça as suas mais extáticas e meditativas propriedades. Estamos portanto no domínio do ritual (cuja relevância formal reforça “Op Acht Paarden Wedden”, para oito fitas magnéticas de encadeação aleatória). O que talvez explique este ritmo comparável ao do batimento cardíaco normal ou um título a sugerir um ciclo de renascimento e fertilidade. Desencadeado por sete instrumentistas do ensemble de música medieval e barroca liderado por Jean-Claude Malgoire, este paradoxo temporal – um longo hoquetus orquestrado por cornetins, trombetas, bombardinos, flautas, órgão, alaúde e violones – sublinha a transitoriedade do agora. Passou-se em 1975 mas podia ter-se dado em 1475… ou em qualquer instante entre um e outro momento.

Trata-se de uma vaga conexão histórica que, de certa forma, “Ach Golgatha!” torna mais explícita, no caso associando-se direta e perversamente a obra para harpa, percussão e órgão ao homónimo recitativo musicado, em 1727, por J. S. Bach em “A Paixão Segundo São Mateus”. Se já o original, que usa as 12 notas da escala cromática, parecia espelhar a agonia de Jesus na cruz, esta expansiva contorção ganha um perfil demencialmente cerimonial, com membranofones e idiofones martirizados numa espécie de burlesco primitivista sem redenção possível. Recorrendo à coleção de instrumentos de percussão africanos, asiáticos e sul-americanos de André van Belle – professor no Conservatório de Bruxelas e colaborador científico no Museu dos Instrumentos de Música (MIM) da mesma cidade -, Goeyvaerts evoca uma violenta energia pré-verbal ciente de que quem o escuta recorda as linhas do oratório de Bach: “Ah Gólgota, infeliz Gólgota!/ O Senhor da Glória/ deve, de modo ultrajante, perecer aqui/ A bênção e salvação do mundo/ foi colocada como uma maldição na cruz/ Ao criador de céus e terras/ devem terra e ar ser retirados/ O inocente deve aqui morrer como culpado// Ah Gólgota, infeliz Gólgota!”. E, ao servir-se de madeiras e metais de remota geografia, faz algo ainda mais terrível: transforma a Terra inteira num palco de atroz sofrimento e em algozes todos os que a percorrem. Devia ser mais ouvido.

30 de junho de 2012

K.S. Chithra “K.S. Chithra with Ilaiyaraaja” (Finders Keepers, 2012)


A nominal contração Kollywood refere-se ao local onde se concentra a indústria cinematográfica – segunda maior da Índia em volume, difusão e rentabilidade – em língua tâmil, com sede no bairro Kodambakkam, de Chennai, um pólo comercial da Baía de Bengala. E, como em Bollywood, a sua congénere hindi em Bombaim, também aqui se criou uma desproporcional e sincrónica recomposição dos códigos de poder e fantasia metonimicamente associados a Hollywood, com enfática reincidência no filme musical. Essa predominância narrativa da canção coreografada, ainda que de esquemática e arquetípica fundação, associada a licenciosas emissões (há registos de tempos áureos com o lançamento anual de mais de mil títulos no mercado), estimulou variantes de extático experimentalismo e hiperbólico funcionalismo e, fundamentalmente, ancorou-se em figuras de elástica polivalência, com sentido do épico mas minuciosa atenção ao detalhe, exatidão técnica e coloquialismo estilístico, capazes de acompanhar abrangentes alegorias destinadas a dilatar os limites da empatia. É num regime de invariável polarização que editoras como a Finders Keepers – outra de notável pendor antológico é neste domínio a Bombay Connection – visitam estas produções, ainda para mais sugerindo uma análise fraturante da obra audiovisual, exclusivamente focada numa banda sonora em que prevalece o endemicamente excêntrico mas igualmente a caricatura do ocidente. O compositor Ilaiyaraaja e a cantora K.S. Chithra ilustram esta bizarra mimese num libertino compêndio extraído de centenas de colaborações em que, entre 1986 e 1991, temperaram sacarinas indulgências com um intransigente futurismo, equilibrando arrebatamento folclórico e esoterismo robótico, numa ação que traz à memória a Yellow Magic Orchestra e que testemunha esteticamente o ápice e o ocaso tecnológico na música dos anos 80.

11 de fevereiro de 2012

“Bollywood Bloodbath” (Finders Keepers, 2011)

Com honrosas excepções, nomeadamente pela inclusão de um primitivo ensaio extraído de “Mahal” (o clássico de 49 assombrado por dementes cânticos criados por Khemchand Prakash), o essencial da acção desta sugestiva antologia desenrola-se na primeira metade dos anos 80, quando, por clubes de vídeo do mundo inteiro, a prateleira de cima nas estantes consagradas a filmes de terror estava devotada a títulos como “Sexta-Feira 13”, “Shining”, “A Noite dos Mortos-Vivos”, “Um Lobisomem Americano em Londres”, “Poltergeist” ou às sequelas de “Halloween”. No entanto, estabelecido o maculado pano de fundo, e porque é de Bollywood que se trata, só compreenderá efectivamente ao que vem quem tiver em mente o vídeo que em 83 John Landis realizou para ‘Thriller’, de Michael Jackson. Porque numa produção cinematográfica profundamente antropofágica, a contingência de se dar pelo mais popular cantor do planeta a liderar uma parada de zombies numa curta-metragem eminentemente bollywoodesca legitimaria uma hemorrágica avalanche de obras que infinita e insaciavelmente lhe reciclariam os procedimentos. Os irmãos Ramsay, por exemplo, aqui representados com uma dezena de filmes, de uma épica tentativa de exorcizar um teriantropo espírito com reincarnação garantida à grotesca ressurreição de um cemitério inteiro, conduziram fórmulas semelhantes à exaustão. Mas a música, essa, provou-se de inesgotável criatividade e insuperável radicalismo. Bappi Lahiri, Rajesh Roshan ou Sapan-Jagmohan, aproveitando a relativa licenciosidade do género, empregaram-lhe nas bandas-sonoras linhas de baixo plasmáticas, sintetizadores espectrais, vocais possuídos, sequenciadores mutantes, percussão paranóica e um sádico arsenal de efeitos prontos a deixar sangue na bola de espelhos e a criar um pesadelo que nem sempre encontra equivalente no ecrã.

7 de janeiro de 2012

“Rangarang: Pre-Revolutionary Iranian Pop” (Vampisoul, 2011)

A 31 de Dezembro de 2011, o presidente Obama promulgou sanções relativas a instituições financeiras internacionais com ligações ao banco central iraniano; por sua vez, no dia de ano novo, enquanto prosseguia com exercícios militares no Estreito de Ormuz, Teerão anunciou um avanço tecnológico importante na área da energia nuclear. A Leste e a Oeste, portanto, nada de novo. Daí o apurado sentido de oportunidade desta nova compilação. Nem que seja pelo simples facto de permitir o enquadramento de tão perturbadores sinais do tempo num cenário mais abrangente que o dos noticiários. Mas não se poderá seguir à letra a narrativa da sua apresentação: porque, ao compará-lo com o de hoje, isenta de responsabilidades o regime de um Xá, Mohammad Reza Pahlavi, que, relembre-se, foi herdeiro de uma intrusa dinastia de pai e filho sustentada pela anuição a interesses ocidentais, e cuja flagrante corrupção, incapacidade de conduzir reformas até a uma efectiva abertura da sociedade ou hostilidade à dissensão política precipitaram a Revolução Islâmica de 1979. Além de se repetir aqui a mesmíssima redução filosófica ensaiada por antologias similares (da garagista “Raks! Raks! Raks!” e da profundamente distópica mas musicalmente infalível “Pomegranates” até às recentes retrospectivas dedicadas a Googoosh pela Finders Keepers e a Kourosh Yaghmaei pela Now-Again), ao contrariar-se a atual demonização cultural do homogeneizado Irão no ocidente através de produções de época que mais devem à estética anglo-saxónica do que propriamente à persa. Contudo, os materiais de esperança agora reunidos manifestam-se iminentemente relevantes: pois lembram um instante em que se pintou com todas as cores do arco-íris (precisamente um dos significados de rangarang em farsi) aquilo que nos últimos 30 anos se cobriu de negro.

19 de fevereiro de 2011

“The Sound Of Siam: Leftfield Luk-Thung, Jazz & Molam In Thailand 1964-1975” (Soundway, 2010)

A música popular tailandesa – nas suas mais variadas manifestações – tem na última meia dúzia de anos ganho representação ocidental através de um conjunto de edições nem sempre imunes ao proselitismo. Até aí nada de novo. Semelhante impulso baseado na preeminência moral serviu recentes antologias consagradas à pop nigeriana, indonésia, congolesa, cambojana ou peruana. Mas ouvindo os três volumes de “Thai Beat A Go-Go” (na Subliminal Sounds), os dois de “Thai Pop Spectacular” (na Sublime Frequencies), o par de “Molam: Thai Country Groove from Isan” (também na Sublime Frequencies) ou “Thai Funk” e “Luk Thung! The Roots of Thai Funk” (na ZudRangMa, baseada em Banguecoque) torna-se claro que, aqui, o afã da autenticidade perde normalmente terreno para uma estratégia mais estimulante, que é a da caricatura. A comprová-lo surge já “Thai? Dai! The Heavier Side of the Luk Thung Underground” (Finders Keepers) – cujo organizador, por sinal, é o mesmo de “Sound of Siam”, Chris Menist – a abrir com uma excêntrica versão de ‘Iron Man’, dos Black Sabbath. Ou seja, tem neste campo a acção ficado cativa do exotismo. É nesse particular – e no da fidelidade sonora – que das demais difere a investida da Soundway pelo Sudeste asiático. Menist, o britânico que há três anos vive na capital tailandesa e que um artigo da CNNGo apelidou de “Indiana Jones of Thai folk”, conhece, talvez melhor que ninguém, as extravagantes variações sobre Pink Floyd, Lipps Inc., B.T. Express, Santana, Boney M. ou James Brown espalhadas pelas outras compilações. E ainda que, em certa medida, ao trocar simulação por realidade mais não faça do que substituir um artifício por outro, resgata do anedotário cultural uma produção que merece ser discutida pelos seus próprios termos e que nem assim se revela menos hiperbólica e licenciosa. Irrepreensível.

E quando digo anedotário refiro-me a isto (embora, como se costuma dizer, 'nada contra, muito pelo contrário'):