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6 de abril de 2019

David Torn, Tim Berne, Ches Smith "Sun of Goldfinger" (ECM, 2019)


Saxofone, guitarra elétrica e bateria – configuração algo insólita, sim, mas nem por isso particularmente inédita. Aliás, em meados dos anos 90, quando o trio de Tim Berne, Marc Ducret e Tom Rainey gravava o incendiário “I Think They Liked it Honey” e o de Joe Lovano, Bill Frisell e Paul Motian queimava os últimos cartuchos, esteve inclusivamente em voga, com Paul Dunmall, John Adams e Mark Sanders em “Ghostly Thoughts”, Briggan Krauss, Brad Shepik e Aaron Alexander em “Fratelli” e Ellery Eskelin, Marc Ribot e Kenny Wollesen em “The Sun Died”. Agora, nova referência solar, neste fogoso “Sun of Goldfinger”, em que David Torn se põe a manusear elementos pesados, a modular uma matéria que se diria reduzida a gás, a provocar reações em cadeia que visam libertar o máximo de energia, enfim, a detonar bombas de hidrogénio na superfície plasmática de uma música radioativa. 

Nunca um trio destes o pareceu tão pouco – e, em rigor, em “Spartan, Before it Hit”, não o é, com o seu núcleo central expandido com outros sete constituintes em equilíbrio termodinâmico: Craig Taborn nos teclados, Mike Baggetta e Ryan Ferreira em guitarras elétricas, além de um quarteto de cordas cujo nome – Scorchio – diz tudo. Também Torn e Berne, em depoimentos recolhidos pela ECM, falam do que aqui se passa como quem analisa táticas de terra queimada: “Isto não é jazz, nem rock. Não se encaixa em categorias”, isto “não se assemelha a nada. Não soa a Miles Davis. Não soa a Snarky Puppy. Não soa a Weather Report. Não soa a Ornette, nem aos músicos de Jajouka.” Já agora, não soa igualmente ao ensaio mais radical no género: isto é, ao “The Topography of the Lungs”, de Evan Parker, Derek Bailey e Han Bennink. Soa, antes, isso sim, ao que fazia alguém como Paul Schütze em “New Maps of Hell”, por exemplo, ou nos ensaios com os Phantom City (que chegaram a incluir Lol Coxhill e Raoul Björkenheim). Citando T. S. Eliot, a algo que escora as suas próprias ruínas a partir de fragmentos. De facto, se o CD viesse com GPS, apontaria para “A Terra Devastada”. Mas, aqui, nenhuma “mulher esticou os seus cabelos negros/ e tocou música de suspiros nessas cordas” – foi Torn que esticou os dele, e são da cor da cinza.

29 de julho de 2017

Tim Berne’s Snakeoil “Incidentals” (ECM, 2017) & Matt Mitchell (Tim Berne) “Forage” (Screwgun, 2017)


Há cerca de um ano, em entrevista ao Expresso, Tim Berne explicava que se estava a preparar para entrar em estúdio com Matt Mitchell, pianista nos seus Snakeoil: “[…] Vai gravar um disco com música minha para piano solo. Escolhemos juntos o material a partir dos últimos 10 ou 15 anos, pelo que abarca períodos muito diferentes.” Na altura, depositava igualmente esperanças em Manfred Eicher, sugerindo que fosse provável que o resultado viesse a interessar ao fundador da ECM. Mas eis que, entretanto, aí está o CD, lançado pela própria editora de Berne. E tem consequências algo perversas, “Forage”, em que tudo é muito mais opaco e angular do que aquilo que se poderia supor, como numa composição cubista feita a partir de originais já de si extraordinariamente densos e sinuosos. Dir-se-ia que Mitchell, no que diz respeito à obra de Berne, preferiu voltar a emaranhar o nó, tornando sincrónico o que evoluiu no tempo, jogando sozinho ao cadavre exquis. Seguiu também num sentido contrário àquele que a música de Snakeoil sugere, em que a transparência não compromete a tridimensionalidade, a monumentalidade não ameaça a minuciosidade, o estudo não invalida o ato espontâneo, o excesso de informação não anuvia o exotismo.

São tudo coisas em que se pensa ao escutar qualquer um dos quatro discos do grupo, mas que são óbvias em “Incidentals”. Aliás, regressando à entrevista, Berne dizia estar “muito satisfeito com ‘You've Been Watching Me’” (2015), mas sugeria igualmente que, em matéria de álbuns, “o próximo é o melhor”. Nesse particular estava em controlo de todas as variáveis, claro. E é bem possível que tivesse razão. O quinteto é o mesmo do disco anterior (Berne com Mitchell e Oscar Noriega nos clarinetes, Ryan Ferreira em guitarras e Ches Smith à percussão) e curiosamente o material procede da mesmíssima sessão de gravação (dezembro de 2014). Mas o que aqui está, na vida de Berne, só possui precedentes no seu primeiro encontro com Julius Hemphill, quando, de chofre, e de modo muito inesperado, o seu futuro mentor se vira para ele e diz: “Tenho andado a pensar muito em magia.”