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21 de junho de 2014

“Marie et Marion” & Landini: The Second Circle (Harmonia Mundi, 2014)



 

Anonymous 4


Foi há vinte anos, num “Love’s Illusion” que concedia predominância ao mundano, que o Anonymous 4 apresentou um primeiro conjunto de motetos encontrados no Códice de Montpellier (c. 1300). Aliás, a inesperada exceção à secularidade surgia no único verso que colocava sob invocação a figura da Virgem Maria. Desde então, dizem, que desejam “produzir um programa que explore a justaposição dos temas de amor cortesão e de devoção mariana”. Em latim, francês antigo ou poliglotas, os textos são velhos como as estações, trazendo ecos de poesia trovadoresca e litúrgica mas revelando a cada instante o mesmo ardor, tecendo-se à sombra do ciúme ou da timidez mas quase sempre tingidos pelas flores de maio e enlevados pelo chilrear dos pássaros. Da Maria imaculada até à Maria que vai com as outras, diz-se: “É como o botão da rosa e uma flor entre as damas” (‘A la clarte qui tout’), “Tão bela que por esse motivo se ilumina e resplandece o Paraíso” (‘De la gloriouse fenix’) ou “E quando me observa com os seus olhos verde-cinza, mata-me” (‘Que ferai biau sire’). Em nome da ambiguidade, e pelo conteúdo afim, justifica-se recuperar outro registo do quarteto de cantoras há pouco reeditado: um “The Second Circle” que, dedicado às baladas de Francesco Landini e organizado sob a égide de Dante e do stilnovismo, acompanha a expansiva aplicação em Itália dos fundamentos da ars nova num quadro de amor possível e falhado e, lá está, do inferno que se prefere quando ele é impossível.

31 de maio de 2014

Vertù Contra Furore: Musical Languages in Late Medieval Italy, 1380-1420 (Arcana, 2014)




Mala Punica, Pedro Memelsdorff (d)


Anacrónico por razões inconfundíveis com as da atual conjuntura de alterações climáticas, há um verso num soneto de Petrarca – em “S'amor non è, che dunque è quel ch'io sento?”, redução da retórica amorosa aos contraditórios impulsos que do poeta se apoderam sem consentimento, absurdos, irresolúveis, antitéticos – que dá ideia do espanto com que há vinte anos atrás se testemunhou o alvor do grupo Mala Punica: “tremo em pleno verão e ardo no inverno”, lia-se no trecento e, agora, sentia-se no final do século XX perante “Ars Subtilis Ytalica: Polyphonie pseudo-Française en Italie, 1380-1410”, uma pioneira exegese da italiana ars subtilior (a “arte mais subtil”) realizada a partir de um manuscrito da Biblioteca Estense, em Módena, recheado de insólitas criações de Bartholomeus de Bononia, Anthonello de Caserta, Matteo da Perugia ou Antonio Zacara da Teramo. E o que esse esforço paleográfico descobria não era, apenas, o prosseguimento do modelo dominante do período (confronte-se o disco com “Ars Magis Subtiliter”, do Ensemble P.A.N., editado na mesma altura e consagrado, este, ao Códice de Chantilly), mas algo que podia definir-se como a mais depurada e antiga ilusão de liberdade total até então encontrada em música. Quando em 1995 e 1996 chegaram “D’Amor Ragionando: Ballades du neo-Stilnovo en Italie, 1380-1415” e “En Attendant: L'Art de la citation dans l'Italie des Visconti, 1380-1410”, adicionou-se à equação o stilnovismo toscano, Landini ou Ciconia, a tensão do Grande Cisma ou o madrigal heráldico da família Visconti e, de certa forma, compôs-se um tríptico (em boa hora reunido em caixa) que não é nada senão um ato de fé.